Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
4 minutos min de leitura

A tecnologia muda. A essência da advocacia permanece.

Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.
Advogado especialista em direito empresarial e societário com três décadas de atuação, sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

Compartilhar:

Quando iniciei minha trajetória profissional, há três décadas, a rotina de um escritório de advocacia era muito diferente da que conhecemos hoje. Procurações e contratos de honorários eram preenchidos em máquinas de escrever. Os processos eram integralmente físicos, ocupavam salas, arquivos e estantes, e sua movimentação dependia de deslocamentos constantes aos fóruns e tribunais.

A eficiência do trabalho jurídico estava diretamente ligada à capacidade de organizar documentos, controlar prazos e produzir peças com os recursos disponíveis naquele momento. Com o tempo, as máquinas de escrever foram substituídas pelos computadores e, posteriormente, a internet tornou possível consultar decisões, acompanhar processos e acessar conteúdos jurídicos sem que o advogado precisasse se deslocar fisicamente.

A transformação seguinte foi ainda mais profunda: a digitalização dos processos judiciais.

Durante algum tempo, convivemos com um modelo híbrido, em que parte dos processos permanecia em papel e outra parte já tramitava de maneira eletrônica. Depois, a digitalização se consolidou. Os autos físicos deixaram de ocupar os escritórios, os protocolos passaram a ser realizados a distância e o acesso aos processos tornou-se praticamente imediato.

Essa mudança eliminou diversas atividades que antes faziam parte da rotina da advocacia. Deixou de ser necessário transportar grandes volumes de autos, manter estruturas físicas destinadas ao seu armazenamento ou deslocar profissionais exclusivamente para consultar processos e realizar protocolos.

Nem por isso a advocacia desapareceu.

Ao contrário: o advogado incorporou as novas ferramentas, adaptou sua forma de trabalhar e passou a concentrar sua atuação em atividades que exigiam maior capacidade de análise, interpretação e tomada de decisão.

A inteligência artificial representa mais uma etapa desse processo de transformação e, novamente, uma evolução no papel do advogado.

Com a IA, atividades que hoje demandam horas poderão ser realizadas em poucos minutos. Trabalhos essencialmente operacionais serão reduzidos, assim como ocorreu com tantas funções ao longo das últimas décadas. 

Isso, porém, não significa que a inteligência artificial substituirá o advogado.  A advocacia nunca se resumiu à produção material de petições, contratos ou pareceres. Esses documentos são apenas a exteriorização de um trabalho muito mais amplo, que envolve a compreensão dos fatos, a interpretação da legislação, a avaliação dos riscos e a construção da solução mais adequada aos interesses do cliente.

A norma jurídica precisa ser interpretada de acordo com a realidade social, econômica e institucional em que será aplicada. O advogado não é um personagem fixado no tempo, tampouco um profissional que pode permanecer satisfeito com o status quo. Sua atuação exige adaptação contínua, porque a sociedade, as relações empresariais e os próprios conflitos estão em permanente transformação.

A inteligência artificial pode identificar normas e precedentes, organizar argumentos e até sugerir determinada conclusão. Não consegue, entretanto, compreender integralmente todas as circunstâncias humanas, empresariais e estratégicas que cercam uma decisão.

Em muitas situações, a resposta juridicamente possível não é necessariamente a resposta mais conveniente para o cliente. É preciso considerar os efeitos econômicos da decisão, as relações existentes entre as partes, os impactos reputacionais, o momento da empresa e as consequências de longo prazo. Essa análise não decorre apenas do acesso à informação, mas da experiência, do julgamento profissional e da capacidade de compreender pessoas e contextos.

O advogado também exerce uma função que não pode ser reduzida a um simples processamento de dados: transmitir segurança.

Quem procura um advogado normalmente enfrenta uma dúvida, um conflito ou uma decisão relevante. O cliente não busca somente uma resposta retirada da legislação, mas alguém que compreenda a demanda, assuma a responsabilidade pela orientação apresentada e seja capaz de conduzir a situação com conhecimento, prudência e independência.

É nessa relação que se forma a confiança, um dos principais elementos da advocacia.

Por essa razão, não acredito que a IA provocará o desaparecimento da profissão ou, necessariamente, a redução da remuneração dos advogados. O que ocorrerá será uma transformação dos critérios pelos quais o trabalho jurídico é valorizado.

A tecnologia poderá tornar o advogado mais eficiente, mas eficiência não se confunde com conhecimento jurídico. Uma resposta produzida rapidamente pode estar incompleta, desatualizada ou equivocada. A inteligência artificial não dispensa a conferência das fontes, a análise crítica nem a responsabilidade profissional.

O desafio, portanto, não está em resistir à inteligência artificial. A história da advocacia demonstra que a resistência às transformações tecnológicas não impede que elas ocorram. O desafio está em aprender a utilizar essas ferramentas sem permitir que substituam o raciocínio crítico, a responsabilidade e a autonomia profissional.

A advocacia continuará se transformando com a tecnologia. Sigamos, portanto, adaptando-nos às novas ferramentas, sem perder de vista aquilo que permanece essencial: o conhecimento técnico, o julgamento crítico, a ética, a responsabilidade profissional e a confiança construída entre advogado e cliente.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Centauros corporativos: quem está no controle da inteligência?

Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Cláusula de raio: proteção legítima ou barreira à concorrência?

Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
9 de setembro de 2026 09H00
Os agentes de IA não pedem aumento, não tiram férias e não podem ser administrados como funcionários tradicionais. Como gerir colaboradores digitais que não seguem as regras tradicionais de contratação, supervisão e desligamento?

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Estratégia
8 de setembro de 2026 18H00
Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de setembro de 2026 14H00
Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
8 de setembro de 2026 08H00
Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Daniel Cerveira - sócio do escritório Cerveira, Bloch, Goettems, Hansen & Longo Advogados Associados e Coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da ABF - Associação Brasileira de Franchising

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 14H00
Muito além da programação e da montagem de robôs, o artigo mostra como a robótica educacional está ajudando estudantes a pensar criticamente, experimentar, colaborar e criar soluções para problemas reais, conectando aprendizagem, propósito e impacto social desde a escola.

André Brandão Sala - CEO da Robomind

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 08H00
O Brasil já demonstrou sua capacidade de formar pesquisadores altamente qualificados. O desafio agora é fortalecer as pontes entre universidades, empresas, investidores e empreendedores para que a produção científica gere mais inovação, competitividade e impacto social.

Luiz Caires, PhD - Cofundador e CEO da Vyro Bio

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
6 de setembro de 2026 15H00
Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

Rodrigo Rovaris - Gerente de Gente & Gestão da Blendus

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Marketing & growth
6 de setembro de 2026 08h00
À medida que a produção de conteúdo se torna cada vez mais presente na vida profissional e pessoal, surge uma questão importante: estamos ampliando oportunidades ou naturalizando a ideia de que toda experiência, habilidade e momento da vida precisam ser convertidos em visibilidade, audiência e monetização?

Ingrid Spyker - sócia da Creator Economy

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
5 de setembro de 2026 14H00
A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo