Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
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A tecnologia muda. A essência da advocacia permanece.

Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.
Advogado especialista em direito empresarial e societário com três décadas de atuação, sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

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Quando iniciei minha trajetória profissional, há três décadas, a rotina de um escritório de advocacia era muito diferente da que conhecemos hoje. Procurações e contratos de honorários eram preenchidos em máquinas de escrever. Os processos eram integralmente físicos, ocupavam salas, arquivos e estantes, e sua movimentação dependia de deslocamentos constantes aos fóruns e tribunais.

A eficiência do trabalho jurídico estava diretamente ligada à capacidade de organizar documentos, controlar prazos e produzir peças com os recursos disponíveis naquele momento. Com o tempo, as máquinas de escrever foram substituídas pelos computadores e, posteriormente, a internet tornou possível consultar decisões, acompanhar processos e acessar conteúdos jurídicos sem que o advogado precisasse se deslocar fisicamente.

A transformação seguinte foi ainda mais profunda: a digitalização dos processos judiciais.

Durante algum tempo, convivemos com um modelo híbrido, em que parte dos processos permanecia em papel e outra parte já tramitava de maneira eletrônica. Depois, a digitalização se consolidou. Os autos físicos deixaram de ocupar os escritórios, os protocolos passaram a ser realizados a distância e o acesso aos processos tornou-se praticamente imediato.

Essa mudança eliminou diversas atividades que antes faziam parte da rotina da advocacia. Deixou de ser necessário transportar grandes volumes de autos, manter estruturas físicas destinadas ao seu armazenamento ou deslocar profissionais exclusivamente para consultar processos e realizar protocolos.

Nem por isso a advocacia desapareceu.

Ao contrário: o advogado incorporou as novas ferramentas, adaptou sua forma de trabalhar e passou a concentrar sua atuação em atividades que exigiam maior capacidade de análise, interpretação e tomada de decisão.

A inteligência artificial representa mais uma etapa desse processo de transformação e, novamente, uma evolução no papel do advogado.

Com a IA, atividades que hoje demandam horas poderão ser realizadas em poucos minutos. Trabalhos essencialmente operacionais serão reduzidos, assim como ocorreu com tantas funções ao longo das últimas décadas. 

Isso, porém, não significa que a inteligência artificial substituirá o advogado.  A advocacia nunca se resumiu à produção material de petições, contratos ou pareceres. Esses documentos são apenas a exteriorização de um trabalho muito mais amplo, que envolve a compreensão dos fatos, a interpretação da legislação, a avaliação dos riscos e a construção da solução mais adequada aos interesses do cliente.

A norma jurídica precisa ser interpretada de acordo com a realidade social, econômica e institucional em que será aplicada. O advogado não é um personagem fixado no tempo, tampouco um profissional que pode permanecer satisfeito com o status quo. Sua atuação exige adaptação contínua, porque a sociedade, as relações empresariais e os próprios conflitos estão em permanente transformação.

A inteligência artificial pode identificar normas e precedentes, organizar argumentos e até sugerir determinada conclusão. Não consegue, entretanto, compreender integralmente todas as circunstâncias humanas, empresariais e estratégicas que cercam uma decisão.

Em muitas situações, a resposta juridicamente possível não é necessariamente a resposta mais conveniente para o cliente. É preciso considerar os efeitos econômicos da decisão, as relações existentes entre as partes, os impactos reputacionais, o momento da empresa e as consequências de longo prazo. Essa análise não decorre apenas do acesso à informação, mas da experiência, do julgamento profissional e da capacidade de compreender pessoas e contextos.

O advogado também exerce uma função que não pode ser reduzida a um simples processamento de dados: transmitir segurança.

Quem procura um advogado normalmente enfrenta uma dúvida, um conflito ou uma decisão relevante. O cliente não busca somente uma resposta retirada da legislação, mas alguém que compreenda a demanda, assuma a responsabilidade pela orientação apresentada e seja capaz de conduzir a situação com conhecimento, prudência e independência.

É nessa relação que se forma a confiança, um dos principais elementos da advocacia.

Por essa razão, não acredito que a IA provocará o desaparecimento da profissão ou, necessariamente, a redução da remuneração dos advogados. O que ocorrerá será uma transformação dos critérios pelos quais o trabalho jurídico é valorizado.

A tecnologia poderá tornar o advogado mais eficiente, mas eficiência não se confunde com conhecimento jurídico. Uma resposta produzida rapidamente pode estar incompleta, desatualizada ou equivocada. A inteligência artificial não dispensa a conferência das fontes, a análise crítica nem a responsabilidade profissional.

O desafio, portanto, não está em resistir à inteligência artificial. A história da advocacia demonstra que a resistência às transformações tecnológicas não impede que elas ocorram. O desafio está em aprender a utilizar essas ferramentas sem permitir que substituam o raciocínio crítico, a responsabilidade e a autonomia profissional.

A advocacia continuará se transformando com a tecnologia. Sigamos, portanto, adaptando-nos às novas ferramentas, sem perder de vista aquilo que permanece essencial: o conhecimento técnico, o julgamento crítico, a ética, a responsabilidade profissional e a confiança construída entre advogado e cliente.

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