Em 2008, quando fundei a Eccaplan, ainda como startup no centro de inovação da USP, medir as emissões de uma empresa era um trabalho de meses: coletar notas de combustível e energia, organizar planilhas e validar cada número. Hoje, a mesma medição requer menos da metade daquele tempo.
Depois de 18 anos nessa estrada, aprendi a analisar com cautela esse ganho de velocidade. Estamos ficando melhores em medir, não necessariamente em transformar.
Um inventário funciona como diagnóstico, passo inicial, mas não é o tratamento. Nenhuma tonelada de CO₂ deixa de ser emitida porque foi calculada com precisão. A descarbonização começa quando o dado sai da tela e chega a alguém com poder de decisão: compras muda critérios de fornecedores, operação redesenha um processo, liderança assume que a meta climática exige dinheiro, tempo e contratos revistos.
Nenhum software convence um diretor financeiro a investir em algo cujo retorno aparece em décadas, negocia com fornecedor resistente ou escolhe entre prioridades que disputam orçamento.
É entre o dado e a decisão que está um dos grandes gargalos da agenda climática. Esse gargalo exige mais do que tecnologia: é preciso gente preparada para interpretar, decidir e agir.
Formação, não só ferramenta
A próxima fronteira dessa agenda não é unicamente tecnológica, mas humana, e começa na formação. Não adianta treinar equipe para operar painel de indicadores sem entender o que está por trás das cifras: de onde vêm os recursos, quais territórios são afetados, quem está mais exposto a uma crise que não causou.
As pessoas preparadas para liderar essa transição dominam metodologias e mantêm uma conexão com a natureza. Entendem que informação é representação da realidade, não a realidade em si. Nenhum algoritmo responde a essas perguntas.
Há ainda uma dimensão importante: os efeitos da crise climática são distribuídos de forma desigual, mesmo entre quem menos contribuiu para causá-la. Uma agenda climática consistente leva essa desigualdade em conta. A tecnologia ajuda a medir e orientar respostas, mas não determina quais alternativas são socialmente mais justas.
A tecnologia acelera a transição, dá escala às soluções e habilita processos como a economia circular e a aplicação de ações sustentáveis eficazes. Por outro lado, ela também amplia a pressão sobre os recursos que precisamos proteger. Por isso, quem desenvolve, analisa, implementa e usa essas ferramentas também é responsável pelos resultados. Detalhamos alguns desses gargalos no nosso blog.
Organizo minha vida profissional há quase duas décadas em torno de uma convicção simples: tecnologia organiza informação e dá escala, mas são as pessoas que transformam informação em decisão, e decisão em ação real.
A métrica mais importante de uma estratégia climática não está centrada unicamente numa plataforma, mas no que cada organização faz com os dados que aparecem na tela.





