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ALTA PERFORMANCE: o modelo perfeito

O nadador Michael Phelps mostra que a excelência tem alguns pilares que podem ser erguidos por qualquer gestor
Colaboradora de HSM Management.

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**Vale a leitura porque…**

… os esportes competitivos sempre têm muito a ensinar ao mundo empresarial, sobretudo na pós-modernidade, na qual as principais lições vêm de fora de nosso campo de atuação.
… até hoje, nunca houve um campeão esportivo como Michael Phelps, e suas lições devem ser levadas muito a sério. 

Michael Phelps nasceu para ser nadador. Ele é alto, tem uma envergadura de mais de 2 metros da ponta do dedo médio da mão direita à ponta do dedo médio da mão esquerda, o torso é maior do que as pernas (o que reduz o atrito com a água) e até as articulações dos tornozelos parecem ter sido feitas para o esporte: sua flexibilidade nos pés é tanta que ele consegue dobrá-los mais do que uma bailarina na ponta. 

Com essas características, estaria Phelps fadado ao sucesso? Sua compleição física seria suficiente para garantir resultados inevitáveis? Talvez essa bênção genética tenha sido fundamental para tamanho acúmulo de medalhas – ele é o único a ganhá-las em quatro Olimpíadas diferentes, em várias modalidades, o que lhe rendeu o recorde mundial, absoluto, de 28 pódios. 

Sem o treinamento e outras qualidades mentais que desenvolveu desde que conheceu seu técnico, Bob Bowman, no entanto, talvez nada disso tivesse acontecido. “Os fatores físicos predispuseram Michael a ser um bom nadador, lógico. Porém o que fez com que ele se tornasse o nadador que é hoje foram quatro fatores: sua constituição mental, o apoio da família, o treinamento e a chama competitiva.” 

Quem diz isso é o próprio Bowman, que acredita que o primeiro passo, na verdade, é ter a disposição de investir toda a energia possível em algo que ninguém mais faria. “Durante o período de seis anos que antecederam os Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas, na Grécia, treinamos 365 dias por ano. Esse é um comprometimento sem precedentes e estabeleceu as bases para o sucesso posterior de Michael”, afirma em entrevista a **HSM Management.** 

**Domando a fera** 

A história de Phelps e Bowman (e a construção da alta performance do atleta) começou quando o primeiro tinha apenas 11 anos. Notando a disposição física e mental de Michael, Bowman foi falar com sua mãe e garantiu que ele tinha potencial para ser um campeão. Bowman, ele mesmo ex-nadador, treinava os garotos de um clube de Baltimore, no estado norte-americano de Maryland. Depois de um treino bem puxado, a maioria deles estava exausta. Michael, por sua vez, corria em volta da piscina, enchendo o boné de água e jogando de volta nos amigos. Foi quando Bowman se deu conta de que ele tinha um espírito competitivo acima da média. 

O potencial estava ali, a sua frente, mas era preciso domar essa energia e canalizá-la para o objetivo. Aliás, esse foi o motivo pelo qual a família decidiu matricular Michael nas aulas de natação. “Bob me ajudou, sem dúvida, a refinar meu foco intenso e minha dedicação. Ele também me fez acreditar que tudo é possível. Dois segundos mais rápido que o recorde mundial? Não importa. Você pode nadar tão rápido quanto quiser. Pode fazer o que quiser. Só tem de sonhar, acreditar, trabalhar nisso e se entregar”, escreve Phelps em sua biografia, _Sem Limites._ 

Desse episódio vem um dos principais ensinamentos de Bob Bowman a Michael Phelps: estabelecer metas ambiciosas, mas viver uma rotina diária de pequenas conquistas. Afinal, ninguém seria louco de definir de saída o objetivo de ganhar 28 medalhas em quatro Olimpíadas, sem contar todos os recordes mundiais que Phelps acumulou em cerca de 20 anos de carreira. Até porque, quando o nível de excelência de um profissional chega a extremos, como ocorreu com ele, fica difícil também ter um termo de comparação. A competição, nesse caso, é consigo mesmo. 

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O competitivo Michael Phelps em momento descontraído; seu espírito de querer vencer sempre precisou ser domado para ele se tornar um vencedor de fato

A trajetória do tenista brasileiro Gustavo Kuerten, o Guga, teve momentos parecidos. Como Phelps, ele mostrou potencial para se tornar um atleta de ponta e chamou a atenção de um treinador que começava a se destacar. Principalmente, como Phelps, Guga começou a treinar muito cedo e manteve o mesmo treinador, Larri Passos, por boa parte de sua carreira. Esse relacionamento próximo e estável entre coach e atleta, nos dois casos, talvez tenha a ver com a circunstância familiar de ambos: os pais de Phelps se separaram quando ele tinha 9 anos, o pai de Guga faleceu quando ele tinha 8. A parceria com Larri Passos começou quando Guga tinha 13. 

“Ser o número um do mundo era algo muito distante, mas Larri desde o início dizia: ‘O Guga vai ser campeão’. Acho que isso me ajudou, porque, se fosse numa amplitude maior, seria assustador. Se esse cara da Ilha quisesse ser o melhor do mundo, não ia funcionar. Em nossa carreira toda foi assim: ter um plano ou um objetivo macro, mas manter o pensamento no mínimo”, conta Guga em entrevista a **HSM Management.**

**“I had a dream”**

Bowman também enfatiza a importância de ter um sonho. “O sonho desperta o processo criativo. É o que faz você sair da cama nas manhãs frias. E os sonhos podem mudar. Aos 12, o sonho de Michael era ‘quero nadar na Olimpíada’; aos 15, evoluiu para ‘quero mudar a natação mundial e vê-la na [rede de TV] ESPN; aos 21, tornou-se ‘quero ser o melhor de todos os tempos’. E assim foi.” 

Uma das orientações de Bowman para Phelps logo no início foi que ele estabelecesse as próprias metas, por escrito. A lista de objetivos do nadador se tornou um segredo famoso até ele escrever sua biografia e confirmar que o papel que mantinha ao lado da cama era realmente essa lista. Estabelecendo tais metas, Phelps criava para si um referencial e um ponto de chegada. Cada meta estabelecida se tornou uma meta alcançada, braçada a braçada, competição a competição. 

Um estudo da Endeavor realizado com apoio da Neoway e coleta de dados do Datafolha corrobora na prática essa lição. Com base em entrevistas com mil empreendedores brasileiros feitas em 2016, a pesquisa revelou que os que tinham atingido maior estabilidade e crescimento eram os que atuavam com uma perspectiva de longo prazo. Os que mais crescem, diz o estudo, são aqueles que almejam ter a maior e melhor empresa do setor – o mesmo espírito dos esportistas de melhor desempenho. 

**6 perguntas a Michael Phelps, por Adriana Salles Gomes**

**Fala-se cada vez mais no poder do hábito.
Quais hábitos o tornaram tão produtivo?**
Um dos principais foi traçar metas. Bob instilou em mim a ideia de que, para atingir metas, é preciso defini-las antes.

**Quais são os principais trade-offs que uma pessoa precisa fazer para ser mais competitiva?** 
Acho que o principal trade-off de minha carreira foi não poder fazer coisas de um adolescente normal, como dar uma volta no shopping com os amigos, ir à balada de sexta-feira à noite ou mesmo dormir até mais tarde no sábado. Sempre tinha treino de manhã. Mas, para ser sincero, não achava que estava perdendo grande coisa. Tive a chance de fazer o que ninguém havia feito na história e tinha consciência de que é o tipo de oportunidade que não aparece toda hora. Queria investir nisso, fazendo pequenas coisas que a maioria das pessoas não estava disposta a fazer, para estar em posição de atingir minhas metas.

**Bowman disse que viu um espírito competitivo gigantesco em você [_risos]_, e não só na piscina… Quão determinante foi isso para seu sucesso?**
[_Risos_] Admito ser muito competitivo, sim, independentemente do que esteja fazendo; sempre fui assim. Bob captou e soube lidar com isso, canalizando meu impulso competitivo a favor de minhas metas. Acho que é um dos motivos pelos quais trabalhamos tão bem juntos. Ele não estava apenas me treinando nos aspectos físicos da natação, mas também mental e emocionalmente, em um esforço para maximizar meu desenvolvimento e performance. Houve momentos na minha carreira nos quais eu não lidei tão bem com isso, mas ao longo do tempo me conscientizei.

**Como Bowman usava esse seu espírito? Fazendo comentários que atiçavam você?** 
Sim, Bob sabia quanto eu odiava perder e era muito bom em usar isso nas mensagens. Mas ele também tinha um senso aguçado de quando era importante me dar um chute no traseiro e quando eu precisava de espaço.

**Uma vez você disse: “Todos os atletas de nível olímpico têm talento físico; vencem os mentalmente mais resistentes”.** **Como se fica mentalmente resistente?** 
É algo que acontece internamente – e é uma habilidade que vale a pena dominar de fato. Não sei se há um caminho único para todas as pessoas, mas, para mim, a visualização foi o mais importante. A cada prova, eu visualizava antes como queria que ela fosse – e como não queria. Assim, quando subia no bloco, minha cabeça estava sempre limpa, e a única coisa a fazer era nadar, que é o que eu adoro fazer.

**Adorar o que se faz é crucial… Há fórmula de sucesso?** 
O que eu tenho é uma mensagem de três pontos, que compartilho com crianças e jovens: sonhe, planeje e alcance. Sonhe tão alto quanto possível, porque nossa mente é uma ferramenta muito poderosa; no meu caso, sonhei fazer algo que ninguém tivesse feito antes. Planeje, porque escrever um plano ajuda muito a transformar um sonho em realidade; meu plano previa todo o trabalho duro e os sacrifícios necessários do dia a dia. Quanto a alcançar, não há garantias, mas, se você se preparou ao máximo, não haverá nada do que se arrepender. 

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Na Rio 2016, Michael Phelps conquistou cinco medalhas de ouro e uma de prata e anunciou sua aposentadoria das piscinas

**Nada mole vida**

Em inglês, há um ditado que diz que não há crescimento sem desconforto. Aqui, falamos sobre as dores do crescimento. Essa foi uma das principais premissas do treinamento de Bowman ao longo da carreira de Phelps. Em sua biografia, publicada em 2009, o atleta conta que aprendeu com Bowman que há uma diferença muito grande entre não nadar bem por dificuldades técnicas e não nadar bem por falta de esforço. “Bob organizava horários de treino, exercícios, práticas, o que quer que ele conseguisse pensar, em torno da ideia de ser desconfortável. Seu pensamento sempre era o de colocar seus nadadores em todo cenário possível. Bob queria medir não só como eu me sentia sob pressão, claro, porém, mais importante, como eu reagia sob pressão. Porque essa é a definição real de um campeão, alguém que consegue lidar com qualquer obstáculo que aparecer a sua frente e com qualquer situação em qualquer momento.”

Em 2007, na final da prova de 200 metros medley individual do mundial de natação de Melbourne, na Austrália, os óculos de Phelps encheram de água. Ele não conseguia enxergar nada. Isso, contudo, não foi um problema: seguindo a filosofia desafiadora de Bowman, ele já tinha treinado muitas vezes no escuro, contando as braçadas, e sabia exatamente como dimensionar a piscina. O resultado? Medalha de ouro e recorde mundial na prova.

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**Hábitos fazem o monge**

Bowman sempre acreditou no poder do relaxamento e da visualização. Logo que começou a treinar Phelps, ele orientou sua mãe a comprar um livro que o ajudaria a visualizar e a focar a mente. À noite, antes de dormir, o menino se deitava e a mãe lia o livro, enquanto ele praticava o foco. “Quando eu tinha 13 ou 14 anos, Bob começou a me pedir para disputar uma corrida em minha cabeça, como se fosse um vídeo. Quando estávamos no treino, chegávamos à última repetição de uma série especialmente difícil, e Bob queria que eu fizesse a última repetição perto da velocidade de corrida. Até hoje ele diz: ‘Coloque a fita de vídeo’.”

O trabalho de treinador e atleta nesse tipo de visualização é explicado cientificamente pelo jornalista e escritor Charles Duhigg no livro _O Poder do Hábito_. A prática foi resultado da intuição e das várias tentativas e erros do técnico, mas funciona tanto quanto outros exercícios para criar hábitos.

Duhigg conta que os hábitos são fundamentais para que o cérebro economize energia com ações cotidianas básicas e assim abra espaço para atividades mais desafiadoras. No caso de Phelps, as rotinas introjetadas são tão bem planejadas e tão intensamente treinadas que é como se seu cérebro se desligasse totalmente no momento das provas. Os hábitos assumem o controle. Antes de entrar na piscina, ele visualiza toda a prova, etapa por etapa, até ser vitorioso – desde as voltas do aquecimento até a batida de mão na chegada.

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Em seus fones de ouvido, Phelps tem a sequência de músicas que escolheu e que o acompanhou por todo o processo. Aliás, outra lição para a construção de hábitos saudáveis é: o processo importa mais que o resultado. Isso tirou de Phelps o medo de perder, segundo seu técnico. Afinal, apesar de o nadador odiar perder, ele já venceu no processo.

“O ensaio mental é crítico para o sucesso”, afirma Bowman na entrevista. “O cérebro não consegue distinguir algo que é vividamente imaginado de algo real. Isso nos permite ensaiar nosso desempenho crítico centenas de vezes antes do evento real, de modo que a performance se torna automática. O relaxamento coloca as pessoas no espaço físico correto para visualizar. Sempre valorizamos uma atitude mental positiva, já que a atitude de uma pessoa determina como ela vai enfrentar desafios e pressão. Uma visão positiva é chave!”

Guga tem uma experiência parecida. “Se você reparar, tenho uma dificuldade enorme de falar palavras negativas; minha mente já bloqueia isso”, afirma ele. “Desde cedo, foi algo que a gente trabalhou”, acrescenta, referindo-se a seu coach, e líder, Larri Passos.

**Relacionamento com um líder**

A relação estável e de confiança com um coach-líder é um grande impulso para a alta performance, seja nos esportes, seja nos negócios. Todo mundo deve ter um coach-líder para chamar de seu, que não necessariamente é o líder formal.

“Um grande coach é aquele que pode ajudar as pessoas a atingir seus objetivos. A essência de meu trabalho, por exemplo, é ajudar os atletas a serem os melhores que podem ser. Isso requer ótimas habilidades de comunicação, ser um grande observador do comportamento, apoiar as pessoas para que façam mudanças que vão contribuir para sua carreira. Acho que os grandes coaches ainda são muito bons em planejamento, têm visão de futuro do programa e do atleta individual e conseguem transmitir bem essa visão ao atleta,convencendo- -o do plano para chegar lá”, diz Bowman.

Leitor voraz, ele é um estudioso de psicologia e também de música. Foi nadador e se tornou técnico porque ama o esporte, mas não tinha o talento natural para se tornar um campeão – em suas próprias palavras. “Sempre achei que pensava em minha forma de nadar como um técnico, porque estava sempre analisando as coisas, tentando ver o que os melhores faziam – isso provavelmente me prejudicou como nadador, inclusive _[risos]._”

O líder é tão importante que o liderado não pode ultrapassá-lo – ou o relacionamento ficará fragilizado. Bowman se deu conta de que havia a possibilidade de isso acontecer com Phelps quando este ainda era jovem e decidiu evoluir ao máximo como técnico. “O coach precisa necessariamente liderar o programa.”

Também é fundamental a relação de transparência e sinceridade entre líder e liderado. “Sempre fui 100% honesto com Michael, e ele, comigo. Acho que essa é a verdadeira chave para a melhor das relações.”

**Receita para mudar de hábitos**

O escritor Charles Duhigg analisa como os hábitos se formam e, a partir daí, como é possível substituí-los por outros mais saudáveis ou úteis. O loop neurológico no centro de cada hábito, segundo pesquisas, é:

_1. Todo hábito é disparado por um gatilho._ _2. Esse gatilho motiva um comportamento._ _3. O comportamento gera uma recompensa._

Para desenvolver ou alterar hábitos, portanto, Duhigg explica que é preciso identificar a rotina e cada uma dessas três partes que a compõem. A rotina é o comportamento que se quer mudar. Ele, por exemplo, queria parar de comer cookies todas as tardes, o que tinha lhe rendido quatro quilos extras em pouco tempo.

Identificada a rotina, Duhigg decidiu experimentar diferentes recompensas, a fim de descobrir que anseios estavam estimulando aquele comportamento. Se fosse fome, uma maçã ou outro alimento resolveriam. Se fosse necessidade de mais energia, um café substituiria o cookie. Se fosse vontade de socializar, um bate-papo seria mais indicado. Depois de testar várias recompensas, ele descobriu que esquecia totalmente o cookie ao voltar ao trabalho depois de 15 minutos de conversa com um amigo na redação.

solada a recompensa, era hora então de identificar o gatilho. Geralmente, há muito ruído envolvendo esse disparo. A ciência explica que as deixas mais comuns se encaixam em uma entre cinco categorias: lugar, hora, estado emocional, outras pessoas e ação imediatamente anterior.

Duhigg mapeou então essas categorias em relação ao hábito de comer seus cookies vespertinos e percebeu que a vontade de fazer um lanche (na verdade, de dar uma pausa) acontecia sempre no mesmo horário. Então, passou a dar uma voltinha e bater um papo rápido nesse momento e assim venceu o hábito de comer os biscoitos.

Hábito – e repetição de comportamentos – é crucial. Tanto que, como Bob Bowman disse a **HSM Management**, se você se distanciar das rotinas que o levaram ao sucesso, as coisas voltarão a dar errado. “Com certeza, menos tempo de dedicação, menos energia e menos paixão revertem qualquer êxito.”

**Você aplica quando…**

… aprende a canalizar a própria energia, buscando metas de longo prazo e pequenas conquistas diárias, treina muito e aprende a visualizar o sucesso e a focar.
… cria hábitos saudáveis e constrói uma relação duradoura com um coach – formal ou não.

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