Anos eleitorais costumam amplificar discursos, acelerar decisões e reduzir a paciência coletiva. O foco se desloca para o curto prazo, para promessas de impacto imediato e para a busca quase ansiosa por figuras que simbolizem mudança. Curiosamente esse mesmo movimento aparece com frequência dentro das organizações quando entram em ciclos de transição de liderança.
Não se trata de política. Trata-se de maturidade institucional.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que momentos de troca no comando, reestruturações ou sucessões expõem muito mais sobre a qualidade das instituições do que sobre as pessoas que ocupam cargos. Assim como países são testados em anos eleitorais, empresas são testadas quando precisam lidar com sua própria agenda de gente e gestão.
O erro mais comum nesses ciclos é tratar liderança como evento, não como processo. Quando isso acontece, a organização passa a operar em modo eleitoral permanente: discursos bem articulados, expectativas infladas e pouco espaço para conversas difíceis. Troca-se o nome na porta, mas preservam-se os mesmos dilemas, porém agora mais caros, mais urgentes e mais complexos.
Vejo com frequência empresas apostando que a substituição de um líder resolverá problemas que são, na verdade, estruturais. Cultura frágil, papéis mal definidos, conselhos pouco claros sobre seu lugar, times que cresceram sem o devido desenvolvimento. A liderança vira símbolo, quando deveria ser consequência de um sistema saudável.
A agenda de pessoas sofre diretamente nesse contexto. Desenvolvimento de lideranças é adiado em nome da entrega imediata. Planos de sucessão ficam no papel, aguardando “o momento certo”, que nunca chega.
Conversas sobre performance, valores e futuro são postergadas até que o custo da omissão se torne alto demais.
Organizações maduras fazem o oposto. Elas entendem que ciclos de transição exigem ainda mais disciplina, não menos. Tratam sucessão como processo contínuo, não como resposta a crises. Investem tempo em preparar pessoas para funções que talvez nunca ocupem e é justamente isso que as torna prontas quando precisam.
Há algo profundamente revelador na forma como uma empresa lida com suas escolhas de liderança. Empresas imaturas procuram o grande salvador da pátria. Empresas maduras constroem sistemas. As primeiras dependem de indivíduos extraordinários. As segundas criam contextos nos quais pessoas boas conseguem tomar decisões consistentes, mesmo sob pressão.
Isso exige clareza de governança, rituais bem estabelecidos e, sobretudo, coragem. Coragem para aceitar que nem toda mudança precisa ser ruptura. Que estabilidade não é sinônimo de estagnação. E que o verdadeiro teste da liderança não acontece nos momentos de crescimento, mas nas transições silenciosas, quando ninguém está olhando.
Em anos eleitorais, aprendemos – e às vezes de forma dura – que instituições fortes importam mais do que discursos inspiradores. No mundo corporativo, a lógica é a mesma. A agenda de pessoas revela se a organização está preparada para atravessar ciclos ou se depende excessivamente de nomes, carismas ou soluções rápidas.
No fim, toda eleição é um teste de instituições. Toda sucessão é um teste de cultura. E, em ambos os casos, a pergunta mais importante não é quem ocupará o cargo amanhã, mas se o sistema que sustenta as decisões está pronto para o dia seguinte. Seu ciclo de gente para 2026 já está acontecendo ou sua organização vai acompanhar o processo eleitoral do país?




