Liderança, Cultura organizacional, Estratégia
3 minutos min de leitura

Ano de eleição, ano de escolhas: o que a agenda de pessoas revela sobre a maturidade das organizações

Empresas que tratam sucessão como evento, e não como processo, vivem em campanha eleitoral permanente: discursos inflados, pouca estrutura e dependência de salvadores. Em 2026, sua organização vai escolher maturidade ou improviso?
CEO da FESA Group. Executivo experiente com mais de 25 anos de atuação no mercado de recrutamento e seleção de executivos, Bagnolesi está na FESA há nove anos, onde anteriormente atuava como Managing Partner. Graduado em Administração pela FAAP com MBA Internacional pela FIA-USP, possui sólida especialização em projetos de C-level, Board Advisory e Governança Corporativa. Atualmente, lidera a estratégia da FESA na transformação de ambientes corporativos e gestão de pessoas para todos os setores do mercado.

Compartilhar:


Anos eleitorais costumam amplificar discursos, acelerar decisões e reduzir a paciência coletiva. O foco se desloca para o curto prazo, para promessas de impacto imediato e para a busca quase ansiosa por figuras que simbolizem mudança. Curiosamente esse mesmo movimento aparece com frequência dentro das organizações quando entram em ciclos de transição de liderança.

Não se trata de política. Trata-se de maturidade institucional.

Ao longo da minha trajetória, aprendi que momentos de troca no comando, reestruturações ou sucessões expõem muito mais sobre a qualidade das instituições do que sobre as pessoas que ocupam cargos. Assim como países são testados em anos eleitorais, empresas são testadas quando precisam lidar com sua própria agenda de gente e gestão.

O erro mais comum nesses ciclos é tratar liderança como evento, não como processo. Quando isso acontece, a organização passa a operar em modo eleitoral permanente: discursos bem articulados, expectativas infladas e pouco espaço para conversas difíceis. Troca-se o nome na porta, mas preservam-se os mesmos dilemas, porém agora mais caros, mais urgentes e mais complexos.

Vejo com frequência empresas apostando que a substituição de um líder resolverá problemas que são, na verdade, estruturais. Cultura frágil, papéis mal definidos, conselhos pouco claros sobre seu lugar, times que cresceram sem o devido desenvolvimento. A liderança vira símbolo, quando deveria ser consequência de um sistema saudável.

A agenda de pessoas sofre diretamente nesse contexto. Desenvolvimento de lideranças é adiado em nome da entrega imediata. Planos de sucessão ficam no papel, aguardando “o momento certo”, que nunca chega.

Conversas sobre performance, valores e futuro são postergadas até que o custo da omissão se torne alto demais.

Organizações maduras fazem o oposto. Elas entendem que ciclos de transição exigem ainda mais disciplina, não menos. Tratam sucessão como processo contínuo, não como resposta a crises. Investem tempo em preparar pessoas para funções que talvez nunca ocupem e é justamente isso que as torna prontas quando precisam.

Há algo profundamente revelador na forma como uma empresa lida com suas escolhas de liderança. Empresas imaturas procuram o grande salvador da pátria. Empresas maduras constroem sistemas. As primeiras dependem de indivíduos extraordinários. As segundas criam contextos nos quais pessoas boas conseguem tomar decisões consistentes, mesmo sob pressão.

Isso exige clareza de governança, rituais bem estabelecidos e, sobretudo, coragem. Coragem para aceitar que nem toda mudança precisa ser ruptura. Que estabilidade não é sinônimo de estagnação. E que o verdadeiro teste da liderança não acontece nos momentos de crescimento, mas nas transições silenciosas, quando ninguém está olhando.

Em anos eleitorais, aprendemos – e às vezes de forma dura – que instituições fortes importam mais do que discursos inspiradores. No mundo corporativo, a lógica é a mesma. A agenda de pessoas revela se a organização está preparada para atravessar ciclos ou se depende excessivamente de nomes, carismas ou soluções rápidas.

No fim, toda eleição é um teste de instituições. Toda sucessão é um teste de cultura. E, em ambos os casos, a pergunta mais importante não é quem ocupará o cargo amanhã, mas se o sistema que sustenta as decisões está pronto para o dia seguinte. Seu ciclo de gente para 2026 já está acontecendo ou sua organização vai acompanhar o processo eleitoral do país?

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Centauros corporativos: quem está no controle da inteligência?

Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Cláusula de raio: proteção legítima ou barreira à concorrência?

Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Estratégia, Ecossistema
15 de agosto de 2026 08H00
Embora a maioria das empresas reconheça o potencial dos ecossistemas de parceiros para gerar receita e ampliar mercados, poucas conseguem transformar essa ambição em resultados consistentes. O artigo explora por que a construção de um ecossistema eficaz vai muito além da criação de um canal comercial, exigindo arquitetura, governança, ativação e uma estratégia capaz de conectar parceiros aos objetivos de crescimento do negócio.

Juliana Tubino e Nara Vaz Guimarães - Cofundadoras do Ecossistema Octo e coautoras do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing
14 de agosto de 2026 13H00
Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Antonio Carlos Matos da Silva - Conselheiro independente associado ao IBGC

5 minutos min de leitura
Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Vendas
13 de agosto de 2026 08H00
Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo