Saúde Mental
4 min min de leitura

Burnout, “brain rot”: mudam os nomes, seguem os desafios

Desenvolver lideranças e ter ferramentas de suporte são dois dos melhores para caminhos para as empresas lidarem com o desafio que, agora, é também uma obrigação legal
Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios, ingressando no iFood em 2022. Antes, atuou como Head de Aquisição de Talentos na frete.com, foi Líder de Aquisição de Talentos - América Latina na GE, Especialista Sênior em Aquisição de Talentos - LATAM na Johnson & Johnson, entre outras.

Compartilhar:

Nos últimos anos, o debate sobre saúde mental ganhou o espaço que merece na sociedade e também dentro das organizações. Burnout, “brain rot” e outros termos indicam um problema com múltiplas características, mas ainda sem enfrentamento efetivo em muitas empresas. Enquanto sintomas são normalizados, e algumas vezes até ignorados, vidas e carreiras são fortemente impactadas. E como mudar algo que parece estar tão enraizado nas nossas vidas?

A discussão sobre saúde mental ultrapassa as obrigações óbvias de cuidado com seres humanos nos sentidos físico, alimentar, habitacional, entre outros fatores. No ambiente corporativo, ela revela uma conexão fundamental entre o bem-estar dos colaboradores e a performance organizacional.

Desde 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o burnout como uma síndrome causada por estresse crônico no trabalho, fazendo com que o problema seja colocado oficialmente na agenda global de saúde pública. O termo “brain rot”, por sua vez, ganhou força nas redes sociais e aponta para uma sensação contínua de exaustão mental e apatia, muitas vezes alimentada pelo consumo excessivo de informação irrelevante e pela rotina automática. O termo, inclusive, foi eleito a palavra do ano de 2024 pela Oxford e é frequentemente associado às gerações Z e alfa.

Ainda que distintos em origem e significado, ambos conceitos escancaram uma realidade preocupante: o cansaço emocional, quando ignorado, compromete não só o bem-estar individual, mas a produtividade coletiva.

Segundo um estudo da McKinsey & Company, umas das maiores empresas de consultoria de gestão do mundo, as equipes com altos níveis de saúde organizacional, caracterizada por confiança, comunicação eficaz, pensamento inovador e tomada de decisões assertivas, são significativamente mais eficientes, inovadoras e orientadas a resultados.

Por isso, não podemos mais normalizar o cuidado com a saúde mental como um benefício extra ou um diferencial de cultura organizacional. Trata-se de uma urgência, e o desafio, muitas vezes, se encontra na dificuldade de identificar os primeiros sinais e abordar o tema de maneira humana e efetiva.

Aprendendo a ver os sinais

O primeiro passo para lidar com o problema é identificar os sinais. Para isso, é importante a criação de uma cultura corporativa atenta ao colaborador. O burnout, por exemplo, não acontece da noite para o dia. Ele é o acúmulo silencioso de estresse, pressão, falta de reconhecimento e sobrecarga. Quando a liderança não está preparada para identificar mudanças sutis de comportamento, como irritabilidade, ausência em reuniões ou queda de desempenho, perde-se a oportunidade de intervir a tempo.

Além disso, nem sempre os colaboradores conseguem reconhecer o próprio esgotamento ou expressar suas emoções com clareza. Aqui, o papel da empresa é decisivo, pois ao oferecer suporte emocional, como terapia, canais de escuta ativa e programas estruturados de bem-estar, cria um ambiente onde o cuidado é valorizado e incentivado, e não visto como sinal de fraqueza.

A preparação das lideranças também possui um papel determinante nesse cenário.

Esperar que gestores estejam naturalmente preparados para lidar com questões de saúde mental é ingênuo. É necessário treiná-los, desenvolver sua escuta e sensibilizá-los para perceber quando um colaborador está além do limite. Práticas simples, como estabelecer pequenas pausas diárias e incentivar o direito ao “não”, ou seja, respeitar os próprios limites, já fazem uma enorme diferença no dia a dia. Líderes devem ser capazes de reconhecer tanto os comportamentos de seus times quanto os seus próprios limites.

Normalizar sinais de esgotamento ou tratá-los com indiferença é um erro grave. Sem a atenção necessária, esses sinais evoluem para um quadro crítico que afeta não apenas o colaborador, mas todo o ecossistema. 

Tecnologia é importante, mas pessoas são ainda mais

No SxSW 2025, um dos maiores eventos de inovação do mundo, todos notaram que o foco das discussões deixou de ser apenas sobre tecnologia e passou a ser sobre pessoas. A tecnologia continua sendo um pilar da transformação dos negócios, mas o cuidado com quem faz a transformação acontecer se tornou prioridade. A grande pergunta que pairou sobre os debates foi: quem cuida de quem cuida? Em um momento em que a automação avança e a digitalização se impõe, o olhar humanizado se torna ainda mais essencial.

Pessoas, muitas vezes, têm dificuldade para identificar as próprias emoções e traduzi-las, portanto, cabe às empresas garantir ferramentas de suporte, como a terapia subsidiada ou programas de bem-estar, ao mesmo tempo em que criam ambientes seguros para discutir saúde mental sem estigmas ou receios.

Enquanto RHs e lideranças continuam a aprender como enfrentar a crise de saúde mental, os dados científicos e as trocas de experiência são fontes valiosas. Ao participar de um programa de educação executiva em Stanford, pude perceber que existem muitos estudos realizados por especialistas, como Baba Shiv – professor de Marketing especializado em Neuro Economia na Stanford Graduate School of Business – que revelam as complexidades do burnout e a necessidade de adotar práticas inovadoras de enfrentamento.

Além disso, episódios de podcasts como “Desconstruindo o Burnout”, do Papo de Corredor, do qual faço parte como mediadora, trazem reflexões potentes sobre temas como a romantização da rotina workaholic, que por muito tempo foi celebrada como sinônimo de dedicação e sucesso, e a importância de criar limites claros na vida profissional e pessoal. A pandemia, aliás, funcionou como um divisor de águas nesse sentido. Ao nos afastarmos fisicamente dos escritórios, fomos forçados a repensar nossas prioridades.

Empresas precisam fazer parte dessa causa

Algumas já estão entendendo esse movimento. O iFood, por exemplo, investe no desenvolvimento de lideranças e em ferramentas de suporte como o iDoc, uma plataforma que permite que os colaboradores tenham acesso a psicólogos de forma rápida e confidencial. Além disso, a formação de lideranças para identificar potenciais problemas e oferecer suporte direcionado tem sido uma prioridade. Não se trata apenas de reagir a crises, mas de construir uma rede preventiva de cuidados, mas acima de tudo, um ambiente de confiança e segurança psicológica para tratar do tema. É uma estratégia inteligente e alinhada ao futuro do trabalho, cuidando de quem faz o negócio acontecer.

É preciso reconhecer que, embora a consciência sobre o tema tenha avançado, ainda falta coragem para abandonar antigos modelos, para dizer “não” a demandas abusivas, para ouvir sem julgar e para agir com empatia. Acima de tudo, falta maturidade para construir ambientes colaborativos onde o erro é parte do aprendizado e onde o outro é visto como um aliado, não como concorrente.

Nesse cenário, existe ainda um novo elemento. Em maio de 2025, a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora 1) entrou em vigor, representando um marco para o universo corporativo brasileiro. A nova diretriz estabelece que as empresas devem adotar medidas para identificar riscos psicossociais e implementar ações preventivas relacionadas à saúde mental no ambiente de trabalho. Isso significa que o cuidado emocional deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação legal. Para organizações que já possuem uma cultura orientada por dados, é a chance de olhar com ainda mais intencionalidade para o bem-estar. Para aquelas que ainda não começaram, é a oportunidade para adoção de práticas de monitoramento, com ênfase na saúde mental, dando real importância a esse tema.

É fundamental entender que estamos todos em processo de aprendizado. Ainda não temos todas as respostas (e tudo bem), mas o que não podemos mais fazer é ignorar os sinais do burnout, do “brain rot”, ou de qualquer outro termo que possa surgir ao longo dos próximos anos. Seria um erro estratégico, financeiro e, sobretudo, ético.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Se o estagiário lidera a reunião, quem é o líder?

Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
9 de agosto de 2026 08H00
Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

Denilson Shikako - CEO e fundador da Fábrica de Criatividade

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo