Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
5 minutos min de leitura

Como a employee experience (ou a falta dela) aparece no DRE da empresa

Marcela Zaidem, especialista em cultura nas empresas, aponta cinco dicas para empreendedores que querem reduzir turnover e garantir equipes mais qualificadas
Fundadora da Cultura na Prática, Marcela é formada em psicologia e pós-graduada em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral (FDC). Já foi sócia e diretora de pessoas na G4 Educação, ajudou a construir a cultura e o relacionamento em empresas como Disney, Fox Sports, Cosan Lubrificantes e Thyssenkrupp. Possui mais de 18 anos de experiência na área de pessoas e transforma essa bagagem em implementações e consultorias que podem mudar o seu jogo.

Compartilhar:


Investir em employee experience não é um gesto de boa vontade com o time. É uma decisão de gestão que impacta diretamente o DRE, o custo de turnover, o tempo de rampagem e a qualidade da entrega. Empresas com cultura forte e colaboradores produtivos conseguem reter e impulsionar talentos, gerando crescimento de receita até quatro vezes maior, segundo estudo da Harvard Business Review.

Na prática, isso significa que a forma como a empresa estrutura a experiência do colaborador, do primeiro contato ao dia a dia de operação, determina três pontos críticos: quanto ela gasta para manter o quadro, quanto tempo leva para um novo profissional performar e qual é o nível de consistência dos resultados.


Cultura forte como alavanca de performance

Employee experience forte é consequência de cultura forte. Não é sobre frases de efeito na parede, ações pontuais ou um clima “gente boa”. É sobre regras claras, rituais bem definidos e decisões diárias que alinham comportamento com resultado.

Candidatos e colaboradores já entendem isso. Antes de aceitarem uma proposta, analisam avaliações em plataformas de recrutamento, conversam com ex-colegas e checam a reputação da empresa. Ou seja, a cultura impacta diretamente a capacidade de atrair profissionais qualificados e de manter os melhores dentro de casa. Quando a experiência é ruim, o mercado percebe rápido.

Uma employee experience estruturada começa no onboarding, mas não termina na primeira semana. Ela precisa estar refletida nos processos, nas prioridades de negócio, nos critérios de promoção e na forma como as lideranças tomam decisões. Se o discurso é de meritocracia, mas a promoção é baseada em afinidade, o colaborador entende a regra real do jogo. E, a partir daí, ou ele se adapta e entrega menos do que poderia, ou ele sai. Em ambos os casos, a empresa perde.


Onboarding não é kit de boas-vindas, é redução de custo

Onboarding eficaz não é um kit de boas-vindas caprichado nem uma apresentação colorida. É um processo pensado para reduzir o tempo que um novo colaborador leva para gerar resultado. Isso passa por três pilares: clareza de função, acesso às informações certas e alinhamento de expectativas.

Quando o onboarding é bem desenhado, o tempo de rampagem cai, os erros diminuem e a dependência de “apagar incêndio” no dia a dia reduz. Em outras palavras, a empresa torna o time mais produtivo em menos tempo.

Quando ele é malfeito ou inexistente, o que acontece é previsível: profissionais perdidos, retrabalho, desalinhamento de prioridades e, em pouco tempo, pedidos de demissão. Turnover alto não é “problema de RH”. É custo direto para o negócio, seja em rescisão, seja em tempo de vaga aberta, seja em impacto na entrega.


Liderança como mecanismo de execução da cultura

Employee experience não se sustenta em discursos ou campanhas internas. Ela é colocada em prática, ou não, pela liderança. Mas aqui não estamos falando de “liderança humanizada”. Estamos falando de líderes capazes de conectar metas, comportamento e resultado, com comunicação objetiva e critérios claros.

Esse tipo de gestão constrói um ambiente de alta performance, onde as pessoas sabem exatamente o que se espera delas, o que é considerado bom desempenho e quais são as consequências positivas e negativas de suas ações.

O resultado é um time que produz mais, com menos ruído, menos conflito improdutivo e menos gasto de energia com “interpretações” do que a empresa quer. Isso é employee experience aplicado ao negócio, não ao “mimimi”.


Employee experience que gera caixa, não só engajamento

Quando a empresa encara a experiência do colaborador como ferramenta de resultado, começa a medir o que importa. Alguns indicadores que traduzem diretamente essa experiência em números:

  • Taxa de turnover em áreas críticas;
  • Tempo médio de rampagem até o colaborador atingir a meta;
  • Produtividade por pessoa ou por squad;
  • Custo por contratação e por desligamento;
  • Nível de retrabalho ou falhas operacionais ligadas a falhas de processo/cultura.


Cada ponto de melhoria em cultura e experiência impacta pelo menos um desses indicadores. Menos rotatividade gera menos custo de substituição. Mais clareza de metas gera mais entrega por colaborador. Processos claros diminuem erros e, consequentemente, perdas financeiras diretas e indiretas.

As empresas que entenderam isso pararam de tratar employee experience como benefício de bem-estar e passaram a trabalhar o tema na mesma mesa que orçamento, plano de expansão e metas de faturamento.


Por que algumas empresas avançam e outras ficam no discurso

Duas empresas podem investir em “cultura” e “employee experience” ao mesmo tempo, mas chegar em lugares completamente diferentes. As que ficam no lugar-comum focam em ações pontuais, comunicação motivacional e iniciativas de bem-estar descoladas da estratégia de negócio. Isso gera sensação de incoerência e pouco impacto real nos resultados.

Já as empresas que se diferenciam tratam cultura e employee experience como sistema de gestão. Elas: 

  • mapeiam a cultura atual, identificando o que ajuda e o que atrapalha o resultado;
  • definem comportamentos-chave que sustentam as metas do negócio; 
  • constroem rituais, processos e mecanismos de liderança que reforçam esses comportamentos; 
  • e medem o impacto disso em indicadores de turnover, produtividade e performance financeira.


Nesse cenário, o colaborador não fica na empresa porque “se sente acolhido”. Ele fica porque entende o jogo, tem condições de performar e enxerga que quem entrega, cresce. A experiência é boa porque gera resultado para os dois lados: empresa e profissional. Ou seja: employee experience é estratégia, não gentileza.

Employee experience não é sobre agradar o time. É sobre construir um ambiente onde a cultura, os processos e a liderança trabalham na mesma direção: gerar resultado previsível, escalável e sustentável.

Empresas que continuam tratando o tema como algo “fofo”, ligado apenas a bem-estar e clima, acabam caindo no mar do mais do mesmo. Já as que encaram a experiência do colaborador como um pilar de execução da estratégia passam a atrair perfis mais qualificados, reduzir custos de turnover e aumentar a produtividade por cabeça.

No fim do dia, a pergunta não é se sua empresa cuida ou não desse pilar. A pergunta é se a employee experience que você oferece hoje está ajudando ou atrapalhando o resultado financeiro que você quer alcançar. 

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Centauros corporativos: quem está no controle da inteligência?

Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Cláusula de raio: proteção legítima ou barreira à concorrência?

Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
26 de agosto de 2026 14H00
A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

Claudia Cavallini - Psicóloga, psicanalista e professora convidada da HSM

8 minutos min de leitura
Marketing & growth, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de agosto de 2026 08H00
Freelancers, consultores, creators e pequenas agências estão redesenhando a lógica de crescimento no marketing digital. Em vez de ampliar estruturas, apostam em tecnologia para expandir capacidade, ganhar eficiência e aumentar resultados. O desafio agora não é apenas fazer mais em menos tempo, mas construir operações capazes de escalar com inteligência, previsibilidade e qualidade.

Renan Caixeiro - Cofundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de agosto de 2026 14H00
O artigo mostra que inovação não é um destino nem um grande projeto isolado, mas um processo contínuo de testar hipóteses, aprender com evidências e evoluir com intenção estratégica.

Thomas Rebergue - Chief Business Officer da GINGA

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
25 de agosto de 2026 08H00
O artigo demonstra que a criatividade deixa de ser atributo exclusivo da inovação e passa a ocupar um papel central na capacidade das organizações de compreender problemas complexos e construir soluções que gerem valor no longo prazo.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up, futurista e especialista em sustentabilidade e live marketing.

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, User Experience, UX
24 de agosto de 2026 14H00
A antiga disputa entre e-commerce e lojas físicas perdeu sentido. O consumidor atual transita naturalmente entre ambientes digitais e presenciais, esperando uma experiência única, integrada e sem atritos. O artigo mostra por que o sucesso no varejo já não depende da força de um canal específico, mas da capacidade de conectar dados, tecnologia, atendimento e conveniência para construir jornadas fluidas e relevantes em todos os pontos de contato com a marca.

André Seibel - CEO do Circuito de Compras

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
24 de agosto de 2026 08H00
Existe uma crença silenciosa nas empresas de que profissionais experientes precisam ter opinião sobre tudo e discordar de quase todos. O problema é que posicionamento não é sinônimo de oposição. Neste artigo, o autor provoca uma reflexão sobre como a necessidade de marcar território pode comprometer relacionamentos, confiança e crescimento na carreira, e por que profissionais verdadeiramente influentes são aqueles que contribuem para a qualidade das decisões, independentemente de quem trouxe a ideia para a mesa.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo