Cultura organizacional
5 minutos min de leitura

O jogo de Rouba-Monte, a “diversity washing” e a diversidade corporativa: como empresas que abraçam a diversidade e a inclusão crescem mais, e melhor

Diversidade não é jogo de aparências nem disputa por cargos. Empresas que transformam discurso em prática - com inclusão real e estruturas consistentes - não apenas crescem mais, crescem melhor
Graduada em psicologia pela PUC-Campinas, com MBA em gerenciamento de projetos pela FGV, Giovanna Gregori Pinto é fundadora da People Leap e referência em estruturar áreas de RH em startups de tecnologia em crescimento. Com duas décadas de experiência em empresas de cultura acelerada, construiu uma trajetória sólida em gigantes como iFood e AB InBev (Ambev). No iFood, como Head de People - Tech, liderou a expansão do time de tecnologia de 150 para 1.000 pessoas em menos de quatro anos, acompanhando o salto de 10 para 50 milhões de pedidos mensais. Já na AB InBev, como Diretora Global de RH, triplicou o time antes do prazo, elevou o NPS de People em 670%, aumentou o engajamento em 21% e

Compartilhar:


Ao olhar para as transformações dos últimos anos, reconheço o quanto nós, enquanto mercado, aprendemos no caminho. Saímos de um ambiente corporativo historicamente masculino, passamos por fases em que diversidade e inclusão foram tratadas como tendência, testamos iniciativas que não funcionaram e descobrimos, na prática, que mudar estruturas exige consistência e não gera retorno imediato. Hoje, temos mais clareza sobre o que realmente move o ponteiro e a importância de fazer parte da solução, não no sentido de competir, mas de construir. O ponto central é que organizações com visão de médio e longo prazo entendem que espaços mais plurais fortalecem pessoas, processos e resultados, mesmo que o impacto leve algum tempo para aparecer. Muitas empresas ainda se perdem por falta de estrutura ou por esperar efeitos rápidos, mas é justamente a continuidade que transforma boas intenções em práticas reais.

A discussão sobre diversidade e inclusão ganhou força, impulsionada não só por demandas sociais, mas também pela clara compreensão de que equipes diversas produzem mais inovação, criatividade e resultados. Quando reunimos pessoas com histórias, formações, perspectivas e repertórios diferentes, ampliamos a capacidade de enxergar problemas sob diversos ângulos e de encontrar soluções que dificilmente surgiriam em ambientes homogêneos. A inovação nasce justamente desse encontro de visões que se complementam e se desafiam. Em culturas verdadeiramente inclusivas, onde todos se sentem seguros para propor ideias e questionar padrões, a criatividade também flui com naturalidade, abrindo espaço para experimentação e construção de novos projetos.

O estudo “Panorama da diversidade nas organizações”, realizado pela to.gather, mostra que em 44,6% das empresas brasileiras o trabalho de diversidade, equidade e inclusão ainda é conduzido pela área de RH. Por outro lado, 32,1% já contam com uma área ou profissional dedicado exclusivamente ao tema. Quando olhamos para a participação feminina no mercado de trabalho, por exemplo, percebemos que o caminho ainda é desafiador. A 19a edição do Global Gender Gap Report, divulgada pelo Fórum Econômico Mundial, indica que, em 2025, no cenário econômico, as mulheres representam 41,2% da força de trabalho mundial, mas ocupam apenas 28,8% dos cargos de liderança, mesmo apresentando níveis educacionais mais elevados do que os homens. Além disso, o relatório aponta que elas são 55,2% mais propensas a interromper a carreira e permanecem, em média, um ano e meio a mais fora do mercado de trabalho.

Mesmo com progressos, alguns desafios permanecem evidentes. Eu mesma vivi situações em que era a única mulher em uma sala cheia de líderes homens. Sempre consegui me posicionar, talvez porque cresci como a filha caçula entre três irmãos e aprendi desde criança a defender minhas ideias, negociar limites e ocupar meu espaço. Mas tenho plena consciência de que essa vivência não é universal. Nem todas as mulheres foram incentivadas a se impor desde cedo, e por isso ambientes majoritariamente masculinos podem ser intimidadores e até paralisantes para muitas profissionais talentosas.

Além disso, vejo que várias empresas ainda seguem “brincando de rouba-monte”, disputando diretoras de outras instituições para preencher cargos de liderança como se isso, sozinho, fosse suficiente para resolver a falta de diversidade. Essa prática não corrige desigualdades internas e tampouco amplia o número de mulheres no setor. Criar ambientes realmente diversos exige repensar critérios de contratação, fortalecer a base e o meio da pirâmide organizacional e promover talentos de forma equitativa. É um trabalho contínuo, que passa por programas de entrada, desenvolvimento e mentoria e não apenas por contratações pontuais.


Ações práticas e o “diversity washing”

A Gupy, por exemplo, destaca práticas essenciais para fortalecer diversidade e inclusão dentro das empresas, como criar políticas de valorização que conscientizem colaboradores e acolham pessoas de grupos minorizados; promover equidade garantindo acesso a recursos adequados, incluindo ferramentas de acessibilidade; oferecer lugar de fala para que essas pessoas possam se engajar, caso desejem; e manter gestores atentos para intervir imediatamente diante de qualquer situação de preconceito, assegurando um ambiente verdadeiramente seguro.

Outros indicadores, porém, mostram que ainda existe um longo caminho a percorrer quando o assunto é representatividade real. Esse descompasso entre discurso e prática também aparece na percepção dos próprios profissionais. Uma pesquisa da Infojobs mostra que 59% das pessoas acreditam que as ações de diversidade e inclusão das empresas ficam restritas ao discurso de marketing, o famoso “diversidade de fachada – diversity washing”, que aparece em campanhas bem produzidas, mas não se traduz em políticas internas efetivas. Outros 38% reconhecem uma combinação entre discurso e intenção genuína, o que indica que há empresas tentando avançar, porém ainda sem a consistência necessária para que essas iniciativas tenham impacto real.

Nesse contexto, diversidade e inclusão não se resumem a políticas formais. Elas se manifestam, principalmente, na linguagem adotada pelos líderes, na forma como as reuniões são conduzidas, na disponibilidade real de espaços de escuta, na coragem de rever processos enviesados e na disposição para enfrentar conversas difíceis.

Ao longo dos anos, aprendi que meu trabalho não é apenas construir processos de RH ou apoiar líderes em suas decisões. É, sobretudo, contribuir para que cada pessoa dentro de uma empresa tenha espaço para mostrar quem é e para desenvolver todo o seu potencial. E isso só acontece quando diversidade e inclusão deixam de ser discursos e passam a fazer parte da prática cotidiana. Continuo acreditando que marcas que abraçam essa visão não só crescem mais, elas crescem melhor. E, no fim, é isso que transforma negócios, equipes e pessoas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A decisão mais difícil do roadmap de IA não é técnica

Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de junho de 2026 15H00
Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo, professor de MBA na USP/ESALQ e FIAP, palestrante e especialista em Inteligência Artificial, Transformação Digital e Produtos Digitais

9 minutos min de leitura
Liderança
24 de junho de 2026 08H00
Este artigo propõe um deslocamento essencial: mais do que acumular informação, a liderança precisa desenvolver discernimento - a capacidade de interpretar com clareza quando a pressão empurra para decisões automáticas.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Liderança
23 de junho de 2026 14H00
Uma meta mal definida não impulsiona, trava. Este artigo revela como metas mal calibradas podem desconectar equipes e comprometer resultados, mostrando que o verdadeiro desafio da liderança está em equilibrar ambição e viabilidade para sustentar desempenho ao longo do tempo.

Denise Joaquim Marques -Consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
23 de junho de 2026 08H00
Em organizações que cobram inovação, mas penalizam o erro, este artigo revela um paradoxo central: sem espaço para frustração e aprendizado, equipes deixam de evoluir, e a transformação que se busca nunca acontece de fato.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 15H00
Talvez o maior erro da inovação seja tentar adivinhar o futuro, em vez de entender o que já está diante de nós.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 09H00
Este artigo mostra como o avanço da IA e da computação em nuvem está redesenhando a eficiência operacional, e por que uma nova geração de gestão de custos se tornou estratégica.

Paulo Laurentys - Chief Commercial Officer (CCO) da A3Data

4 minutos min de leitura
Liderança
21 de junho de 2026 15H00
A partir de uma experiência em meio a mudanças estruturais no setor financeiro, este artigo mostra que, em cenários de alta complexidade, o papel da liderança vai além da operação, exigindo capacidade de sustentar cultura, alinhar expectativas e manter a confiança em meio à incerteza.

Victor Papi - General Manager da Transfeera

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
21 de junho de 2026 08H00
Pagar mais já não basta, médicos estão escolhendo onde trabalhar pelo “como”, não pelo “quanto”. Este artigo revela como a disputa por médicos qualificados está sendo redefinida por fatores estruturais, organizacionais e de experiência profissional.

Rafael Duarte - CEO e fundador do Grupo RD Medicine

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Tecnologia & inteligencia artificial
20 de junho de 2026 14H00
Se mais gente não significa mais resultado, o que ainda justifica equipes gigantes? Este artigo revela como a inteligência artificial está redefinindo estruturas, papéis e critérios de eficiência nas áreas de marketing e growth.

Brian Bittencourt - VP de Growth & Marketing da Woba

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
20 de junho de 2026 08H00
Mais de 92 mil pessoas foram demitidas em tech só nos primeiros meses de 2026, ao mesmo tempo em que big techs reportavam resultados recordes. O Gartner mostra que esses cortes não estão entregando ROI. O problema não é a tecnologia, é a intenção por trás dela.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

12 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão