Cultura organizacional, Foresight, Tecnologia & inteligencia artificial
23 minutos min de leitura

Como promptar a realidade

Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento - e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.
Antropólogo cognitivo e futurista. Chico é empreendedor, consultor e palestratante. É Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University. É uma referência em Strategic Foresight e Amplificação Hunana.

Compartilhar:

Parte I – Futuros em disputa: sobre como o mundo passou a ser promptável

Este texto é, entre outras coisas, uma tentativa de criar uma linguagem de inovação que volte a ser funcional. O léxico de inovação que usávamos sofreu dois golpes simultâneos: foi cooptada pelo uso repetido sem consequência real, até que as palavras foram esvaziadas- e envelheceu, porque o ciclo de inovação que a gerou está chegando ao final.

Apresentação

O mundo está ficando estranho mais rápido do que nossa linguagem consegue se atualizar. Uma imagem falsa do Papa usando um casaco Balenciaga enganou milhões. Influenciadores virtuais acumulam seguidores sem jamais terem existido. Memecoins criadas como piada movimentam bilhões. Deepfakes aparecem em campanhas eleitorais. Comunidades inteiras vivem economias paralelas dentro de videogames. E bilhões de pessoas conversam diariamente com máquinas que agem como terapeutas, amigos ou parceiros românticos.

Este texto tem uma tese única: contexto é poder. Quem define o que parece possível – antes de qualquer debate começar – ganha a disputa. Não quem tem o melhor argumento dentro do debate. Tudo que se segue é desdobramento disso.

E, no entanto, o vocabulário que usamos para falar de inovação e futuros continua surpreendentemente previsível – cheio de frameworks bem-comportados, projeções lineares e um tipo de pensamento gerencial que parece cada vez mais deslocado diante da crescente estranheza do mundo. Continuamos tratando o futuro como problema de antecipação, quando uma parte crescente dele já está sendo produzida por loops narrativos, plataformas, comunidades de crença e infraestruturas de coordenação que operam em tempo quase real.

Parte do problema é que estamos usando o vocabulário do ciclo que terminou para navegar o ciclo que começa. O ciclo que termina foi impulsionado pela Lei de Moore puxada pelo processo de miniaturização: à medida que bits ficavam exponencialmente mais baratos, digitalizar, total ou parcialmente, produtos, serviços e processos tornava-se inevitavelmente rentável. Em 2011, Marc Andreessen diagnosticou o momento com precisão lapidar num ensaio no Wall Street Journal: ‘software is eating the world’. Estava certo. O software devorou varejo, mídia, música, transporte, hotelaria e finanças – e nisso floresceu todo o léxico que conhecemos: agilidade, MVP, cultura do erro, startups, plataformas, transformação digital. O Covid acelerou o ritmo final dessa digitalização – e a saturou. Vencidas as resistências de adoção, digitalizou-se quase tudo o que podia dar retornos vultosos. O desfecho, porém, tem uma ironia: os disruptores viraram gigantescos incumbentes e donos de toda a infraestrutura. Uma meia dúzia de gigantes de silício concentrou tanto poder de plataforma, dados e distribuição que se tornou o oligopólio que hoje torna impossível exatamente o tipo de disrupção que os originou. O ciclo se fechou sobre si mesmo.

O novo ciclo é diferente em natureza, não apenas em grau. A miniaturização bateu no teto físico. Moore pediu socorro para o desenvolvimento de deep techs e para a indústria. Sustentar o avanço passou a exigir investimentos massivos em hardware, energia, minerais raros e infraestrutura industrial: litografia avançada, chips neuromórficos, arquitetura 3D de microprocessadores. Não é mais apenas sobre startups ágeis e tentativa e erro: é sobre grandes apostas de longo prazo em caminhos de desenvolvimento tecnológico, cadeias logísticas complexas, geopolítica de chips e ecossistemas de inovação que incorporam pesquisas científicas de ponta. Em paralelo, a explosão da IA generativa passa a obrigar as organizações a um novo processo de transformação, transformação inteligente ou AI First, que não substitui a transformação digital, mas a pressupõe. Todas essas transformações, em um espaço mais ou menos curto de tempo, convertem o problema central de inovação.

No centro do novo ciclo está uma escassez que o ciclo anterior nunca enfrentou: processamento. IA pode fazer quase qualquer coisa, mas não pode fazer tudo. Cada operação custa tokens – no sentido literal, e no sentido mais amplo que este texto vai construir: atenção, capital, energia psíquica. Processamento é o recurso escasso em todas essas dimensões ao mesmo tempo. Há necessidade de investir em trajetórias críticas de longo prazo – caminhos de arquitetura cognitiva de agentes, desenvolvimento tecnológico, implementação de infraestrutura, upgrade organizacional e também na criação de novas formas de vida, novas maneiras de trabalhar, estruturar organizações, consumir, se comunicar e se relacionar.

Nesse cenário, agilidade e adaptabilidade cedem lugar a capacidade de mobilizar atenção, recursos e processamento a partir de visões de futuro. Processamento computacional, social e mental simultaneamente. Em outros termos, futuros passam a disputar, em ambientes de baixa latência, o direito de se tornarem reais buscando capturar imaginação, para coordenar comunidades, atrair capital, e, conforme o caso, materializar infraestrutura. Quem não consegue atenção não consegue processamento. Quem não consegue processamento não consegue futuro. É nesse contexto que a disputa pelo contexto – que chamo aqui de share of context – deixa de ser vantagem competitiva e vira campo estratégico primário. O lugar onde se decide quais dos futuros em disputa são considerados plausíveis, possíveis, desejáveis, absurdos ou inevitáveis e quais nem chegam a ser pensados.

O que este texto descreve não é necessariamente uma característica permanente do ciclo que se abre. É uma característica do momento em que estamos – um estado liminar, o estágio betwixt and between que van Gennep e Turner identificaram nos grandes ritos de passagem: a dobra entre dois ciclos, quando as regras do anterior já não organizam o campo e as do próximo ainda não cristalizaram. Estados liminares têm uma propriedade que os torna simultaneamente perigosos e raros: a plasticidade está no máximo. As estruturas que normalmente resistem à reconfiguração ficam temporariamente abertas.

É exatamente nessa janela que prompts de realidade têm seu maior poder de instalação – porque o sistema ainda não sabe ao certo o que é. Quando o novo ciclo consolidar seus próprios incumbentes, suas próprias infraestruturas, modelos de disrupção e suas próprias narrativas dominantes, a liminaridade se fecha. Ou os “futuros em disputa” vão ser uma característica permanente do novo ciclo? Ainda é cedo para dizer. De todo modo, o que está em jogo agora não é apenas vencer uma disputa competitiva qualquer. É participar da rodada em que as regras do próximo ciclo estão sendo escritas – e estados liminares são raros, costumam durar pouco e não avisam quando terminam. O ciclo de inovação que se inicia tem, é claro, ainda muitas outras facetas que já podem ser entrevistas ou inferidas – que apresentaremos nas próximas colunas.

É com espírito de provocação intelectual – e de experimentação prática – que começo esta coluna na HSM Management. Quero usar esta coluna como espaço de experimentação pública: um lugar onde conceitos em construção possam ser testados, disputados e refinados antes da chegada da convicção – ou descartados quando não aguentarem o tranco. Aqui vão aparecer nano-teses, memes conceituais, prompts sociotécnicos, thought-hacks e outros artefatos experimentais. Alguns vão envelhecer mal. Outros vão morrer rápido. E alguns, espero, vão hackear discretamente nossa cultura e abrir oportunidades concretas de inovação no ciclo que se abre.

Nossa primeira microtese: é possível, e cada vez mais necessário, usar técnicas de exploração de futuros, tais como foresight, design de futuros e envisioning, associados a técnicas narrativas e semióticas para promptar a realidade.

O que segue opera numa linguagem em formulação – e isso é parte da proposta. Uma microtese que cruza filosofia da linguagem, psicologia, teoria dos sistemas, administração de empresas e estudos de futuro para conceituar um campo estratégico que a gestão clássica ainda trata como periférico: a disputa pelo contexto. Pelo espaço que seleciona futuros. Quem governa esse espaço governa as premissas de todas as outras decisões.

Futuros disputam processamento. Processamento vai para quem governa contexto. E contexto é instalado por narrativas – memes, hyperstitions, traumas, visões – que operam antes de qualquer decisão consciente. Quem entende esse ciclo pode governá-lo. Quem não entende executa o prompt de quem entendeu. O argumento que se segue tem três camadas que se constroem em sequência. A primeira: futuros disputam processamento – psíquico, cultural, econômico e computacional – e quem não consegue processamento não consegue futuro. A segunda: esse processamento não é conquistado por visões mais ambiciosas ou tecnologias mais avançadas, mas por instalação – o prompt de um futuro precisa ser instalado no contexto certo para operar. Prompt instalado no contexto errado é ruído que consome processamento sem produzir realidade. A terceira: contexto não é o ambiente onde as decisões acontecem – é a decisão mais importante que qualquer agente pode tomar, porque define o que é pensável. Promptar a realidade, nesse sentido, é instalar prompts de futuros no contexto certo – e conquistar o processamento necessário para torná-los reais.

Cada seção deste texto encerra com três camadas de compressão: Cache (compressão formal dos conceitos-chave), Compressão micronarrativa (o argumento em formato de tweet) e Compressão viral (o meme – a unidade mínima de contágio). São artefatos do próprio texto: demonstração metalinguística da tese enquanto ela é construída.

1.  O mundo passou a ser promptável

Continuamos tratando o futuro como problema de antecipação, quando uma parte crescente dele já está sendo fabricada em tempo real por quem melhor consegue modular a cadeia de produção do real: capturar percepção, atrair atenção, enquadrar interpretação, organizar coordenação, condicionar decisão e normalizar formas de vida.

O resultado tem uma característica que deveria nos preocupar mais do que preocupa: ele aparece sob a aparência enganosa do inevitável. Não como escolha, não como construção, mas com a gravidade de destino auto evidente. Como se o processo natural das coisas tivesse decidido assim, sem delimitação de contexto, sem instrução e sem disputa.

No novo ciclo, isso tem consequência direta: quando processamento é o recurso escasso, quem governa o que recebe atenção, governa o que recebe recursos – e, portanto, o que tem chance de se tornar real. Promptar é operação central deste momento de transição.

A palavra prompt costuma remeter imediatamente a inteligência artificial. Mas aqui ela será usada em sentido mais amplo e, talvez, mais importante. Um prompt sociotécnico é uma instrução contextual que altera a distribuição de saliência – do que aparece como mais ou menos relevante – em determinado sistema: uma organização, um mercado, uma comunidade. Ele não determina o resultado. Ele reorganiza o campo do possível a partir do qual o resultado emerge. Narrativas funcionam assim. LLMs também. Crises, também. Austin e Searle mostraram que linguagem não apenas descreve, ela performa. Austin mostrou que falar não é apenas descrever a realidade, mas também agir sobre ela – por exemplo, quando alguém diz “prometo”, não relata uma promessa: realiza o ato de prometer.

Searle sistematizou essa ideia ao mostrar como atos de fala, sob regras e instituições, ajudam a criar e sustentar o próprio mundo social, por exemplo, quando um sacerdote diz “eu vos declaro marido e mulher”, a fala não comenta um fato: produz uma mudança de status social.  Gregory Bateson, antropólogo e pioneiro da teoria dos sistemas, mostrou algo ainda mais radical: contexto não é o pano de fundo onde a comunicação acontece, é, em última análise, o que decide o que qualquer mensagem significa. Um sorriso num velório e um sorriso numa festa de aniversario não são o mesmo sorriso. A palavra ‘perigo’ gritada num teatro e num incêndio real não é a mesma palavra. O contexto não emoldura a mensagem, ele constitui o seu sentido. Mude o contexto e você muda o que qualquer coisa significa, sem tocar em nenhuma palavra.

Com a IA generativa, engenheiros sistematizaram como o prompt atua na delimitação de contexto. Peça a um modelo que responda ‘como especialista em segurança’ e depois ‘como advogado de defesa’: a pergunta é idêntica, o campo do possível é outro. Um prompt bem construído não apenas instrui, ele delimita as condições de contorno dentro das quais qualquer resposta vai emergir. A metáfora transborda o técnico: promptar a realidade é fazer exatamente isso no mundo social, instalar as condições de contorno dentro das quais organizações, mercados, comunidades e pessoas decidem o que é pensável.

Mas há uma distinção que a metáfora exige, e que muda tudo. No ecossistema de LLMs, há dois tipos de prompt radicalmente diferentes. O prompt comum é input: entra, e processado, produz output, desaparece. O system prompt é outra coisa: é o contexto persistente que condiciona como todos os prompts subsequentes serão interpretados. Ele não responde – ele enquadra todas as respostas. Define o que é pensável antes que qualquer comando seja dado. E, crucialmente: system prompts são instalados por quem tem acesso de operador – a camada acima do usuário, com controle sobre o contexto antes de qualquer conversa começar.

Futuros disputam processamento exatamente nessa diferença de camadas. Alguns competem no nível do usuário – tentam ser ouvidos, considerados, financiados dentro de um contexto que outra pessoa definiu. Outros são instalados no nível do operador – chegam antes da conversa começar e definem as condições dentro das quais todos os outros futuros precisarão se justificar. Os prompts de futuros imputados nessa camada são chamados, retrospectivamente, de inevitáveis. Não porque fossem mais verdadeiros, mas porque foram competentemente instalados na camada do contexto. A pergunta estratégica que raramente é feita com essa nitidez: em que nível você está jogando?

↗ compressão MICRONARRATIVA O futuro deixou de ser apenas algo a antecipar. Em baixa latência, ele é disputado, iterado e fabricado em tempo real por quem melhor consegue promptar psiques, algoritmos e ecologias sociotécnicas.

compressão viral
O inevitável é o futuro que alguém instalou como contexto antes de você entrar na conversa.
  • Ricardo operava no nível do usuário de um contexto que o conselho havia instalado anos antes.


As formas de interferir no contexto são por vezes as mais insuspeitas. Um tweet de madrugada. Um meme sem autoria. Uma frase que ninguém sabe de onde veio, mas todo mundo repete. O trivial vem se tornando o avatar preferido do estratégico.

2.  Quem controla o meme controla o universo

Às 03h35 da manhã de 26 de junho de 2020, Elon Musk publicou uma frase com cara de piadinha de tiozão e estrutura de axioma: “Who controls the memes, controls the Universe”. É tentador ler isso como mais uma zoeira de bilionário com excesso de cafeína – ou sabe-se lá o que mais – e ausência de supervisão. Seria um erro.

Congele esse frame e de play no resto do mundo. O tweet vira screenshot. O screenshot vira meme. O meme vira cobertura. A cobertura vira clima. O clima vira coordenação. E coordenação, no fim, vira mercado, política e reputação. Musk não estava apenas comentando a internet – estava fazendo uma demonstração prática e metalinguística do poder de configurar contextos. Uma apresentação de slides sem slides e super comprimida, publicada de madrugada para uma audiência de milhões.

Dois anos depois, ele não apenas refinou a arte de usar tweets como elementos de complexos prompts de realidade, como acabou promptando um mundo no qual valia a pena comprar o próprio canal, o Twitter, atual X. A frase muda de estatuto: deixa de ser descritiva e passa a ser operativa. A tese atravessa a tela e transforma o contexto. O meme treina a imaginação. A imaginação prepara a ação.

É aqui que nossa intuição moderna falha. Ainda tratamos linguagem como representação. Em ambientes de baixa latência, linguagem produz continuamente novas configurações de coordenação. Atenção mobiliza energia. Energia mobiliza processamento coletivo. E processamento coletivo produz futuros. Agentes conscientes lançam prompts – mas os loops que se seguem têm propriedades emergentes que nenhum agente controla inteiramente.

As plataformas aceleram isso com elegância imoral: o algoritmo não acredita em nada – ele acelera o contágio e premia tração. E, ao premiar tração, seleciona narrativas capazes de coordenar comportamentos e comandar ação. Memes deixaram de ser ruído cultural. Tornaram-se unidades mínimas de configuração de contexto e coordenação de agentes.

Um meme é uma unidade de significado comprimido com portabilidade entre contextos – e ao viajar entre contextos diferentes, não apenas os atravessa: os conecta e ao conectá-los os transforma. Não chega neutro. Chega carregando a tensão semântica do contexto de origem – e ao pousar no contexto de destino produz um curto-circuito que nenhum dos dois havia autorizado. É exatamente aí que a transformação da nossa percepção acontece: não na criação ex nihilo, mas no encontro não previsto entre contextos distintos.

Os casos ajudam a iluminar o mecanismo, mas com mais mediações do que a formulação original sugere. Em janeiro de 2021, a GameStop tornou-se o epicentro de uma disputa porque era uma das ações mais vendidas a descoberto do mercado: estimativas amplamente citadas indicavam que o volume de posições short superava 100% das ações disponíveis para negociação, chegando a cerca de 109% das ações em circulação em algumas medições e a aproximadamente 140% do free float em outras. Nesse contexto, o Reddit – em especial o fórum WallStreetBets – não criou sozinho o movimento, mas funcionou como catalisador de uma coordenação difusa entre investidores de varejo, traders oportunistas, influenciadores e uma ecologia mais ampla de mídia social, todos atentos à possibilidade de um short squeeze.

O resultado foi extraordinário: ao longo de janeiro, a ação acumulou alta de mais de 1.600%, enquanto a Melvin Capital, um dos fundos mais expostos, encerrou o mês com perda de 53%. O bordão “to the moon”, já circulava antes como linguagem de euforia especulativa em comunidades de internet e universo gamer, e ganhou força sobretudo no universo cripto, antes de ser absorvido pelo Reddit financeiro. Mais do que coordenar mecanicamente uma multidão, esse repertório memético ajudou a condensar atenção, antagonismo difuso contra hedge funds e imaginação especulativa em uma linguagem comum, ao modo de um jogo, capaz de ampliar, ao menos temporariamente, o campo do possível financeiro.

O mesmo mecanismo, em escala nacional e sem liderança central, apareceu na greve dos caminhoneiros brasileiros de 2018. Grupos de WhatsApp funcionaram como infraestrutura de coordenação narrativa – distribuindo áudios, slogans, imagens, vídeos, correntes e memes, amplificando adesão, coordenando ação e sincronizando agentes dispersos por um país continental. Em dias, o Brasil parou. Não havia um líder, mas agência distribuída. Prompts de realidade entrando em loops em comunidades virtuais.

Isso explica por que memes são mais poderosos do que propaganda: propaganda instala contexto por repetição e autoridade. Memes instalam contexto por conexão e contágio, sem que ninguém precise autorizar a operação. A pergunta estratégica muda completamente: não ‘como faço um meme viral’,  mas ‘que contextos quero conectar, e que realidade nova emerge dessa conexão?’ E, talvez mais importante, ‘que decisões venho tomando com base em contágio de memes?’

↗ compressão MICRONARRATIVA Em ambientes de baixa latência, memes passam a operar como reconfiguradores de contexto: capturam atenção, coordenam ação e, ao fazê-lo, ajudam a fabricar realidades.

compressão viral
O meme que você acha graça pode estar definindo o que conta como real enquanto você ri.
  • Na empresa de Ricardo, memes circulavam nos grupos de WhatsApp – instalando cultura real enquanto a visão declarada vivia nos slides do board.


Os memes não são o único mecanismo de engenharia de contexto em operação. Há outras formas de criação de contexto que merecem ser observadas. Uma delas é particularmente interessante e para entendê-la vamos mergulhar num campo folklore digital pouco explorado na gestão tradicional, mas ainda assim muito influente.

3.  O que as teorias da conspiração têm a nos ensinar?

Uma pista vem de um território que pessoas inteligentes tendem a evitar com certo esnobismo: o das teorias da conspiração. Não porque devam ser interpretadas ou subscritas em sua literalidade, mas porque frequentemente funcionam como linguagem popular para descrever um fenômeno real. Às vezes é preciso ir ao folclore para encontrar o mecanismo que a academia ainda não nomeou direito.

No ecossistema digital, circula o conceito de predictive programming: a ideia de que mídia e cultura expõem o público, de forma repetida, a imagens e narrativas destinadas a aclimatar psicologicamente a sociedade a futuros que ainda não chegaram. A versão forte exige um centro onisciente roteirizando o mundo – uma hipótese, em princípio, implausível. Prefiro, aqui, recolher-me a segurança do afastamento antropológico. Dito isso, seria desonesto fingir que a versão intencional não existe em alguma medida. Guerras hibridas, operações psicológicas, publicidade comportamental, técnicas de persuasão, dark patterns digitais, gatilhos de venda, nudge architecture, engenharia de consentimento – há um continuum vasto e bem documentado de práticas que buscam ativamente pré-formatar percepção, desejo e comportamento. O mapa do mecanismo é o mapa da intenção se sobrepõem com frequência suficiente para que nenhum dos dois possa ser ignorado. De todo modo, a versão fraca desses mecanismos e quase banal: cultura, mídia, plataformas e instituições podem, sim, reduzir resistência a certos futuros, normalizar enquadramentos e coordenar decisões em massa. Independentemente do grau de intencionalidade ou orquestração que lhe atribuamos. Apenas pelo efeito acumulado de loops.

Os mecanismos não são misteriosos. Repetição gera familiaridade. Familiaridade reduz atrito. A janela de Overton desloca o aceitável. Profecias autorrealizáveis – que Robert Merton descreveu com precisão ainda em 1948 – convertem expectativa em fato antes da verificação. Algoritmos amplificam por tração emocional, não por veracidade. O caso dos Simpsons e seus aparentes acertos não prova que a série previu o futuro; prova que ajudou a treinar o imaginário coletivo para aceitar como pensáveis certas possibilidades que pareciam absurdas antes de se materializarem. Há uma diferença. Ela importa.


Há um precedente histórico que ajuda a calibrar a escala disso. Se o capitalismo de consumo do século XX nasceu quando o mercado aprendeu a operar o inconsciente individual – como documentou Adam Curtis em The Century of the Self -, o arquiteto dessa operação foi Edward Bernays, sobrinho de Freud, pai das relações públicas, que pegou as teorias do tio sobre desejos inconscientes e as converteu em técnica de manipulação de mercados. Ele chamava o que fazia de ‘engenharia do consentimento’. O capitalismo emergente parece nascer quando governos, empresas e influenciadores aprendem a produzir comunidades, mimetizando as suas estruturas profundas, sobre a base de plataformas de conexão. Já não basta ativar desejo. É preciso modular contexto, sincronizar percepção, organizar pertencimento e coordenar imaginações coletivas. O objeto mudou: do inconsciente individual para a ecologia narrativa coletiva. O capitalismo de consumo nasceu com a engenharia do consentimento. O capitalismo de plataformas nasce com a engenharia de contexto.

Economia da atenção, o conceito que Simon esboçou nos anos 1970 e Goldhaber sistematizou no alvorecer da internet, já havia diagnosticado que informação abundante cria escassez de atenção, e que plataformas competem por capturá-la. Esse diagnóstico continua correto. Mas capturar atenção e governar contexto são operações diferentes em natureza, não apenas em grau. Atenção é fluxo: pode ser capturada, desviada, fragmentada. Contexto é arquitetura: determina como toda atenção capturada será interpretada e o que ela será capaz de coordenar. Quem vence a disputa de atenção entra no campo de visão do usuário. Quem instala o contexto decide as regras dentro das quais qualquer atenção, inclusive a do concorrente, vai operar. A economia da atenção descreve a corrida pelo rio. Share of context é a disputa pelo leito que define para onde o rio corre.

O mundo corporativo tem seus próprios casos de predictive programming – só que sem a estética nerd, paranoide ou ne0-mística. A narrativa da transformação digital, construída entre 2015 e 2020, é o exemplo mais limpo: consultoras, plataformas e conferências ao redor do mundo repetiram com urgência moral crescente que quem não se transformar digitalmente vai morrer. A repetição foi tão eficaz que a resistência a qualquer investimento em tecnologia tornou-se moralmente insustentável antes de qualquer análise inteligente sobre retorno e adequação. O futuro chegou pré-normalizado, a janela de debate havia fechado antes de abrir. Sem maestro – apenas loops com urgência suficiente para substituir o raciocínio. É claro que a maioria das iniciativas de transformação digital falhou.

O Brasil tem seu próprio caso de descontamento popular catalisado por memes: as manifestações de junho de 2013. Não é sobre os vinte centavos, mas é sobre o quê? Viralização máxima, coordenação sem precedentes, senso de inevitabilidade histórica – e nenhum endpoint capaz de converter energia em capacidade. O loop se alimentou até exaurir o hospedeiro. O que sobrou foi fragmentação, captura por agendas incompatíveis e uma retrojustificação que cada grupo ainda descreve de maneira diferente. Prompt sem API é processamento sem finalidade.

A pesquisa organizacional chegou perto disso por caminhos diferentes. DiMaggio e Powell mostraram que organizações competem por legitimidade tanto quanto por recursos. Weick mostrou que sensemaking – a interpretação coletiva do ambiente – é operação estratégica, e não apenas suporte. Garud, Schildt e Lant mostraram que narrativas constituem estratégias, não apenas as comunicam. O que plataformas de baixa latência fizeram foi acelerar e dinamizar esse processo até o ponto em que o ignorar virou risco existencial.

No capitalismo industrial, o campo de batalha era market share. No capitalismo de consumo, mind share. No capitalismo de plataformas – onde comunidades produzem narrativas em tempo real e algoritmos selecionam por tração – o campo primário e share of context. A diferença não é de grau: é de natureza. Plataformas não distribuem apenas informação. Distribuem enquadramentos. Comunidades não consomem apenas conteúdo. Constroem ontologias. GameStop, memecoins, cancelamentos, guerras culturais e boicotes corporativas tem isso em comum: são disputas de share of context travadas em velocidade de plataforma.

No novo ciclo, ganham papel central a disputa por share of context e a disputa por processamento. Um futuro que não captura atenção não consegue comunidade. Sem comunidade, não consegue capital. Sem capital, não consegue infraestrutura. Sem infraestrutura, não existe. A seleção acontece aqui – no campo narrativo – antes de qualquer investimento ser feito.

Mas há algo que a análise anterior ainda não captura. Futuros não disputam processamento apenas como narrativas que convencem ou coordenam. Em certos casos, ficções fazem algo mais perturbador: agem sobre o mundo recrutando crença, mobilizando capital, instalando infraestrutura. Esse mecanismo tem nome, e entendê-lo muda o que você consegue ver. É esse mecanismo que a segunda coluna da série vai dissecar.


↗ compressão micro-narrativa O conspiracionismo pode até errar nos fatos, mas acerta no mecanismo: cultura, repetição e plataformas podem pré-carregar percepção e reação, fazendo certos futuros chegarem ao mundo já parcialmente normalizados.

compressão viral
Os futuros já estão entre nós, para virarem realidade precisam de enquadramento, atenção e processamento.
  • A narrativa de inovação na empresa de Ricardo era Tipo 3: intenção estratégica visível, nenhuma consequência real instalada.


Mas há algo que a análise anterior ainda não captura. Futuros não disputam processamento apenas como narrativas que convencem ou coordenam. Em certos casos, ficções fazem algo mais perturbador: agem sobre o mundo recrutando crença, mobilizando capital, instalando infraestrutura. Esse mecanismo tem nome, e entendê-lo muda o que você consegue ver. É esse mecanismo que a segunda coluna da série vai dissecar.

Compartilhar:

Antropólogo cognitivo e futurista. Chico é empreendedor, consultor e palestratante. É Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University. É uma referência em Strategic Foresight e Amplificação Hunana.

Artigos relacionados

Como promptar a realidade

Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento – e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Na era da AI, o melhor talento pode ser o maior risco

Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais- introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Por que os melhores líderes não lutam para vencer

Este é o primeiro artigo da nova coluna “Liderança & Aikidô” e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

De UX para AX: como a era dos agentes autônomos redefine o design, os negócios e o papel humano

Com a ascensão dos agentes de IA, nos deparamos com uma profunda mudança no papel do designer, de executor para curador, estrategista e catalisador de experiências complexas. A discussão de UX evolui para o território do AX (Agent Experience), onde o foco deixa de ser somente a interação humano-máquina em interfaces e passa a considerar como agentes autônomos agem, decidem e colaboram com pessoas em sistemas inteligentes

O álibi perfeito: a IA não demitiu ninguém

Quando “estamos investindo em inteligência artificial” virou a forma mais elegante de não explicar por que o planejamento de headcount falhou. E o que acontece quando os dados mostram que as empresas demitem por uma eficiência que, para 95% delas, ainda não existe.

Cultura organizacional, Foresight, Tecnologia & inteligencia artificial
15 de abril de 2026 08H00
Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento - e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

23 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de abril de 2026 18H00
Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais- introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Marta Ferreira

4 minutos min de leitura
Liderança
14 de abril de 2026 14H00
Este é o primeiro artigo da nova coluna "Liderança & Aikidô" e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

7 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
14 de abril de 2026 07H00
Com a ascensão dos agentes de IA, nos deparamos com uma profunda mudança no papel do designer, de executor para curador, estrategista e catalisador de experiências complexas. A discussão de UX evolui para o território do AX (Agent Experience), onde o foco deixa de ser somente a interação humano-máquina em interfaces e passa a considerar como agentes autônomos agem, decidem e colaboram com pessoas em sistemas inteligentes

Victor Ximenes - Senior Design Manager do CESAR

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
13 de abril de 2026 14H00
A aceleração da destruição criativa deixou de ser um conceito abstrato e passou a atravessar o cotidiano profissional, exigindo menos apego à estabilidade e mais capacidade de adaptação, recombinação e reinvenção contínua.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
13 de abril de 2026 07H00
Quando "estamos investindo em inteligência artificial" virou a forma mais elegante de não explicar por que o planejamento de headcount falhou. E o que acontece quando os dados mostram que as empresas demitem por uma eficiência que, para 95% delas, ainda não existe.

Atila Persici Filho - COO da Bolder

11 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
12 de abril de 2026 14H00
Entre intenção e espontaneidade, a comunicação organizacional revela camadas inconscientes que moldam vínculos, culturas e resultados. Este artigo propõe o Design Relacional como ponte entre teoria profunda e prática concreta para construir ambientes de trabalho mais seguros, autênticos e sustentáveis.

Daniela Cais - TEDx Speake e Designer de Relações Profissionais

9 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
12 de abril de 2026 09H00
Na montanha, aprender a reconhecer os próprios limites não é opcional - é questão de sobrevivência. No ambiente corporativo deveria ser parecido. Identificar sinais precoces de sobrecarga, entender como reagimos sob pressão e criar espaços seguros de diálogo são medidas preventivas muito eficazes.

Aretha Duarte - Primeira mulher negra latino-americana a escalar o Everest

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de abril de 2026 13H00
A adoção de novas tecnologias está avançando mais rápido do que a capacidade das lideranças de repensar o trabalho. Este artigo mostra que a IA promete ganho de performance, mas expõe lideranças que já operam no limite.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de abril de 2026 08H00
Quando a empresa cresce, o modelo mental do fundador precisa crescer junto - ou vira obstáculo. Este artigo demonstra que criar uma empresa exige um tipo de liderança. Escalá‑la exige outro.

Gustavo Mota - CEO do Lance

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...