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Confiança demais, conhecimento de menos

Pior do que não saber é achar que já sabe. Este artigo expõe um risco silencioso nas organizações: não é a falta de conhecimento que mais compromete decisões, mas a combinação perigosa entre entendimento superficial e confiança excessiva.
Sócio-diretor da empresa LEADERS LAB Treinamento e Consultoria. Tem como grande diferencial ter sido Executivo de empresas, vivendo o “outro lado” da mesa, além de sólida formação acadêmica. Consultor e Palestrante da HSM e Professor do MBA da FIA e da FGV Educação Executiva. Professor Convidado do MBA USP. Foi diretor de Consultoria da PwC, do Grupo Carrefour, Gerente de Marketing da Abinee-FIESP e analista financeiro do GPA. Sociólogo formado pela USP, com pós-graduação em Economia (PUC-SP), Administração (Insper) e Psicanálise (NPP). Possui diversos cursos sobre Gestão e Estratégia de Consumo, com destaque para os obtidos na NRF (National Retail Federation) junto à Columbia University e Harvard Club.

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Nelson Rodrigues dizia: “Os idiotas vão dominar o mundo. Não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”

A frase é provocativa e, talvez, até injusta em alguns contextos. Mas ela me veio imediatamente à cabeça quando li uma pesquisa global recém-divulgada pelo Grupo Santander, conduzida pela Ipsos UK com quase 20 mil pessoas em 10 países.

O dado é simples e, ao mesmo tempo, assustador:

61% das pessoas afirmam ter conhecimento financeiro.
Mas apenas 32% acertam uma pergunta básica sobre inflação.

Ao ler esse dado, tive a sensação de que o problema talvez não seja exatamente a falta de conhecimento. Na verdade, o problema maior é outro: a sensação de que já sabemos o suficiente.

E isso muda completamente o jogo.

Porque ignorância, por si só, costuma ser administrável. “Quem sabe que não sabe” geralmente pergunta, procura ajuda, escuta alguém. O pensamento socrático “Só sei que nada sei” é uma das maiores provas de sabedoria.

O problema começa quando o conhecimento é parcial – mas a autoconfiança é inteira.

Aí nasce um fenômeno perigosíssimo: a ilusão de competência. Isso ajuda a explicar uma das grandes contradições do nosso tempo.

Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ainda assim, convivemos com interpretações cada vez mais superficiais da realidade.

O excesso de conteúdo cria uma curiosa ilusão de profundidade. Pois ler manchetes e reels começa a parecer estudo, assim como assistir vídeos curtos parece pós-graduação. Repetir conceitos passa a soar como domínio, o hype parece triunfar sobre os fundamentos.

Mas informação não é compreensão.

E compreensão não nasce apenas da exposição ao conteúdo, mas da capacidade de interpretar, conectar, questionar, relacionar, relativizar e sustentar uma análise diante da complexidade.

Talvez seja exatamente por isso que profissionais brilhantes, experientes e inteligentes também caiam nessa armadilha. O problema não está na falta de capacidade intelectual. Está na velocidade com que passamos a acreditar que compreendemos algo.

E acho que isso vai muito além da educação financeira. Aliás, olhando bem, talvez esse seja um dos fenômenos (e alertas) mais presentes dentro de muitas empresas.

Ele aparece quando alguém defende uma decisão com enorme convicção… mas sem compreender profundamente seus impactos econômicos.

Aparece quando metas ignoram limitações operacionais.
Quando descontos parecem ótimos para vender, mas péssimos para a margem.
Quando crescimento não se converte em geração de caixa.

Há algo especialmente perigoso no “quase”: quase entender, quase dominar, quase saber.

Porque não tropeçamos apenas no escuro. Muitas vezes, tropeçamos na meia-luz. Há um provérbio japonês que diz que tropeçamos nas pequenas pedras, porque as grandes todos logo vêem. Essa meia-luz, esse quase saber, somente nos permitem desviar de grandes rochas.

Você lê o DRE da empresa à luz de velas ou com LED?

Eu gosto de olhar para o DRE não apenas como um relatório financeiro, mas como uma espécie de mapa da realidade da empresa.

O DRE mostra:
— como a empresa realmente ganha dinheiro,
— onde destrói valor,
— quais margens são sustentáveis,
— onde a operação sufoca o resultado,
— e quanto da estratégia sobrevive quando confrontada pela realidade dos números.

Mas aqui reside uma verdade desconfortável: muita gente acredita entender um DRE. Pouca gente realmente o entende.

E essa diferença, que eu chamo de Gap Cognitivo, custa caro.

Com a experiência de dezenas de projetos entregues e a interação com o C-level, posso afirmar que decisões ruins raramente nascem de má intenção. Na maior parte das vezes, elas nascem de uma compreensão superficial acompanhada de confiança excessiva.

No fim, talvez o maior problema das organizações modernas não seja falta de inteligência.
As empresas estão cheias de gente inteligente em seus quadros.
Estamos excessivamente preocupados com a IA como Inteligência Artificial… enquanto convivemos diariamente com outras IAs muito mais silenciosas e perigosas: a Inteligência Aparente, a Inteligência Apressada, a Inteligência Arrogante e a Inteligência Autoconfiante.

O problema é quando a confiança cresce num ritmo maior do que a profundidade.
Nesse contexto, surge um dos custos invisíveis mais perigosos de uma organização: o custo da ilusão.

Porque pior do que não saber… é achar que já sabe.

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