Há algumas décadas, a agenda de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho significava, quase sempre, discutir acesso. O desafio estava em abrir portas. Hoje, embora o acesso continue sendo relevante, sabemos que a verdadeira medida do sucesso de uma política de inclusão está em garantir permanência, desenvolvimento, pertencimento e oportunidades reais de crescimento de carreira.
É justamente por isso que pesquisas como a Radar da Inclusão se tornaram tão importantes. Em sua terceira edição, o estudo realizado pela Talento Incluir em parceria com o Pacto Global da ONU – Rede Brasil e conduzido pelo Instituto Locomotiva apurou respostas de 2.526 pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes em todo o país, registrando um aumento de mais de 100% no total de participantes, a maior participação desde sua criação (em 2024). Mais do que um levantamento estatístico, a Radar da Inclusão é uma ferramenta de análise coletiva que transforma experiências individuais em evidências concretas sobre os desafios que ainda permeiam o mundo do trabalho.
Os dados revelam uma realidade que muitas pessoas com deficiência já conhecem na prática, mas que parte do mercado ainda insiste em minimizar: o capacitismo continua profundamente presente nas organizações. Segundo a pesquisa, 76% das pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes que integram a força de trabalho já vivenciaram ao menos uma situação de capacitismo, seja por meio de comentários preconceituosos, discriminação por colegas e lideranças, desqualificação profissional ou perda de oportunidades de crescimento. São três em cada quatro pessoas.
Esse cenário se torna ainda mais preocupante em grupos que enfrentam múltiplas camadas de exclusão. Entre mulheres cis com deficiência, alcança 81%. Entre pessoas com deficiência que também se identificam como LGBTQIAPN+, esse mesmo índice chega a 84%. Frequentemente, quando apresentamos esses números, encontramos resistência. Muitas empresas acreditam que, por realizarem programas de diversidade, ter canais de denúncia ou processos de contratação voltados à inclusão, o problema está resolvido. O capacitismo não desaparece apenas porque foi incorporado ao discurso corporativo.
Os impactos do capacitismo nas carreiras e na saúde
Essa opressão se manifesta nas pequenas decisões do cotidiano, nos vieses que limitam oportunidades, na falta de confiança nas capacidades profissionais de uma pessoa, na ausência de acessibilidade, na dificuldade de promoção de cargos e na baixa representatividade em posições de liderança.
A pesquisa mostra que 53% das pessoas participantes relatam ter sofrido preconceito ou discriminação por parte de gestores. Outros 52% apontam colegas da própria equipe e 46% mencionam profissionais de outras áreas. Esses números também se refletem nas questões de saúde mental, autoestima, pertencimento e qualidade de vida.
Quando uma pessoa precisa provar diariamente sua competência, quando sua capacidade é constantemente questionada ou quando acredita que terá menos oportunidades de desenvolvimento por causa de sua deficiência, os impactos ultrapassam as fronteiras da empresa. Afetam a saúde emocional, os relacionamentos, a vida social e a própria perspectiva de futuro.
Outro dado revelador é que 49% dos participantes acreditam que ter uma deficiência e/ou neurodivergência reduz suas chances de conseguir um bom emprego. Além disso, para 68% nenhuma ou apenas uma minoria das empresas está preparada para receber esses profissionais. Isso demonstra que o problema não está restrito à contratação. Ele atravessa toda a trajetória profissional.
Encontramos barreiras desde a etapa de recrutamento, desenvolvimento de carreira, promoção e até mesmo na recolocação profissional. Entre as pessoas pesquisadas, 78% acreditam que as empresas contratam pessoas com deficiência principalmente para cargos de entrada. Entre aquelas que trabalham há mais de três anos em uma organização, 44% nunca foram promovidas.
A verdade é que avanços nessa pauta só acontecem quando há disposição para a transformação de fato. É por isso que a Radar da Inclusão existe, pois o que não podemos medir, não podemos mudar.
Reconhecimento às boas práticas de inclusão
Ao chegarmos à terceira edição da pesquisa, percebemos um movimento importante de amadurecimento. Mais pessoas participam, mais experiências são compartilhadas e mais organizações compreendem que dados são fundamentais para orientar decisões, investimentos e mudanças culturais.
Outra informação relevante desta edição foi a identificação espontânea das empresas reconhecidas pelas pessoas participantes como referências em inclusão de pessoas com deficiência e/ou neurodivergentes. Bradesco, Coca-Cola Company, Coca-Cola FEMSA, Globo, Google, Grupo Boticário, Itaú, Mercado Livre, Natura, Santander e Vivo foram as marcas mais lembradas.
É importante compreender o significado desse reconhecimento. É uma percepção genuína das próprias pessoas com deficiência e neurodivergentes sobre quais organizações têm demonstrado esforços consistentes em inclusão. Ao mesmo tempo, essa lembrança espontânea aumenta a responsabilidade das empresas citadas.
Ser reconhecida não significa que o trabalho terminou e sim que essas organizações passam a ter um papel ainda mais relevante na manutenção e evolução de suas práticas, servindo de exemplo para o mercado e demonstrando que inclusão é um processo contínuo.
As empresas que se destacam nessa agenda costumam compartilhar uma característica em comum: entendem que a inclusão não é um projeto com data para terminar. É um compromisso orgânico e permanente.
Elas investem no letramento de lideranças, fortalecem sua cultura organizacional, revisam processos, promovem acessibilidade, criam indicadores e, principalmente, reconhecem que o capacitismo ainda existe. Compreendem que somente ao admitir a existência dessa opressão é que será possível enfrentá-la de forma estruturada.
Negar o capacitismo não o elimina, é preciso medi-lo para remediá-lo
A Radar da Inclusão nasceu com essa missão: produzir inteligência de mercado, evidências, ampliar o debate e contribuir para a construção de estratégias mais efetivas de inclusão, a partir de um diagnóstico detalhado sobre as barreiras que ainda precisam ser superadas. Os resultados desta edição mostram que estamos avançando em algumas frentes, porém ainda estamos longe de construir ambientes verdadeiramente equitativos para pessoas com deficiência e neurodivergentes.
Mais do que medir indicadores de empregabilidade, a pesquisa Radar da Inclusão busca compreender a qualidade da inclusão no ambiente corporativo brasileiro e oferecer subsídios para a transformação das organizações.
A transformação é possível! Ela começa quando deixamos de tratar inclusão como uma obrigação legal ou uma ação pontual e passamos a assumi-la como uma estratégia de negócios. Uma empresa realmente inclusiva é aquela que tem coragem de reconhecer a persistência do capacitismo, porém que trabalha e investe para desconstruí-lo e formar organizações menos desiguais para todas as pessoas.




