Inovação & estratégia
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De MANGOS a DRAGONS: o futuro não está apenas no Vale do Silício, a nova ordem tecnológica é interdependente

Ao contrastar o poder das big techs ocidentais com a força industrial e estrutural do Oriente, este artigo amplia a leitura sobre inovação e revela que o futuro da economia global não será definido por empresas isoladas, mas pela interação entre ecossistemas tecnológicos interdependentes.
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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Tenho observado com interesse o surgimento de uma nova narrativa nos círculos de tecnologia, investimento e geopolítica. Nos últimos meses, tornou-se cada vez mais comum a utilização da sigla MANGOS para representar aquilo que muitos enxergam como o novo centro de gravidade da economia global. O termo reúne Meta, Anthropic, NVIDIA, Google, OpenAI e SpaceX, organizações que lideram avanços em inteligência artificial, computação, plataformas digitais, semicondutores e exploração espacial.

A popularidade da sigla não é difícil de entender. Essas empresas concentram parte significativa do capital de risco global, atraem os melhores talentos do mundo, influenciam regulações governamentais, moldam mercados inteiros e estão construindo tecnologias que poderão redefinir a produtividade econômica nas próximas décadas. Sob diversos aspectos, elas representam o que o Ocidente considera ser a vanguarda da inovação.

Mas existe uma questão que me incomoda profundamente quando observo essa narrativa, ela parte da premissa de que o futuro está sendo construído apenas a partir do Vale do Silício, mas essa visão não está necessariamente errada. Ela está incompleta.

Ao longo da história, uma das maiores limitações das grandes potências foi acreditar que seu modelo de desenvolvimento representava a totalidade da realidade. O mesmo fenômeno parece estar acontecendo agora. Grande parte das análises sobre inteligência artificial continua concentrada em modelos fundacionais, agentes autônomos, plataformas digitais e investimentos bilionários em startups. Entretanto, quando ampliamos o campo de observação para além das empresas mais visíveis, começamos a perceber que a transformação em curso possui uma dimensão muito maior.

A inteligência artificial não é apenas software, ela é também energia, capacidade computacional, semicondutores, telecomunicações, manufatura avançada, cadeias globais de suprimentos e infraestrutura física e quando observamos esses elementos, o mapa do poder começa a mudar.

É por isso que acredito que precisamos complementar a visão representada pelo MANGOS com aquilo que chamo de DRAGONS, uma representação simbólica do conjunto de organizações e capacidades estratégicas que emergem do Oriente e que estão desempenhando um papel igualmente decisivo na construção da próxima ordem econômica global.

Quando falamos sobre o polo oriental, estamos falando de empresas como Huawei, Alibaba, Tencent, BYD, CATL, DeepSeek e TSMC. À primeira vista, pode parecer apenas uma lista de grandes corporações asiáticas. Na prática, estamos falando de algo muito mais relevante. Estamos falando de organizações que ocupam posições críticas em diferentes camadas da infraestrutura tecnológica mundial.

A Huawei representa um dos casos mais fascinantes de resiliência estratégica da história recente. Durante anos, muitos analistas acreditaram que as restrições impostas pelos Estados Unidos comprometeriam sua capacidade de competir globalmente. O que ocorreu foi exatamente o contrário. A empresa acelerou investimentos em pesquisa, ampliou suas capacidades em semicondutores, fortaleceu suas plataformas de computação e expandiu sua atuação em setores críticos para a transformação digital chinesa. Hoje, a Huawei não deve ser entendida apenas como uma empresa de telecomunicações. Ela representa uma expressão concreta da busca chinesa por autonomia tecnológica.

A Alibaba ocupa uma posição igualmente estratégica. Frequentemente associada ao comércio eletrônico, ela se tornou uma das maiores infraestruturas digitais da Ásia. Sua operação de computação em nuvem fornece a base tecnológica para milhares de organizações que desenvolvem aplicações de inteligência artificial, analytics avançado e serviços digitais. Em um mundo onde capacidade computacional se tornou um ativo estratégico, possuir infraestrutura de nuvem em escala nacional deixa de ser uma vantagem operacional e passa a ser uma questão de soberania.

A Tencent oferece uma perspectiva ainda mais interessante. Enquanto grande parte das empresas ocidentais construiu plataformas especializadas, a Tencent desenvolveu um ecossistema integrado que conecta comunicação, pagamentos, serviços financeiros, comércio eletrônico, entretenimento e dados em uma única experiência digital. O resultado é uma plataforma que funciona não apenas como um produto, mas como uma camada operacional da economia.

Mas talvez os exemplos mais reveladores estejam fora do universo tradicional do software.

A BYD tornou-se uma das maiores fabricantes de veículos elétricos do mundo e vem alterando profundamente o equilíbrio competitivo da indústria automotiva global. O que muitos observadores ainda não perceberam é que veículos elétricos são, na essência, sistemas computacionais móveis. Eles combinam software, sensores, conectividade, inteligência artificial, armazenamento de energia e automação em uma única plataforma. Sob essa perspectiva, a BYD não compete apenas com montadoras. Ela compete na construção da infraestrutura inteligente que conectará mobilidade, energia e dados.

Ao lado dela está a CATL, uma empresa que raramente ocupa manchetes fora dos círculos especializados, mas que controla um dos ativos mais estratégicos do século 21. Em uma economia baseada em eletrificação, armazenamento energético e mobilidade sustentável, as baterias tornam-se tão importantes quanto os motores foram durante a Revolução Industrial. Controlar essa cadeia significa influenciar diretamente a velocidade da transição energética global.

No entanto, existe um ator cuja importância talvez seja ainda maior, Taiwan.

A maior parte das discussões sobre inteligência artificial continua concentrada em modelos como GPT, Claude ou Gemini. Pouco se fala sobre a infraestrutura física que torna esses modelos possíveis. É justamente nesse ponto que a TSMC assume uma posição singular.

A empresa produz a maior parte dos semicondutores avançados utilizados pelas principais organizações de tecnologia do mundo. NVIDIA, Apple, Google, Microsoft e inúmeras outras dependem de sua capacidade produtiva. Isso significa que uma parcela relevante da revolução da inteligência artificial está apoiada em uma empresa localizada em uma ilha que se tornou um dos pontos geopolíticos mais sensíveis do planeta e essa constatação nos leva a uma reflexão mais profunda.

Talvez estejamos interpretando o poder de maneira equivocada. Durante grande parte do século 20, poder era associado a recursos naturais, território, força militar e capacidade industrial. No século 21, essas variáveis continuam importantes, mas passaram a coexistir com uma nova camada de influência. O poder agora está distribuído ao longo de sistemas complexos.

  • Quem controla energia influencia a computação.
  • Quem controla computação influencia a inteligência artificial.
  • Quem controla semicondutores influencia a computação.
  • Quem controla dados influencia os modelos.
  • Quem controla infraestrutura influencia toda a economia digital.


Sob essa ótica, torna-se evidente que a nova ordem mundial não pode ser explicada apenas pelo sucesso de empresas individuais. Ela precisa ser compreendida como a interação entre diferentes ecossistemas de poder.

O MANGOS representa a excelência ocidental em software, pesquisa, modelos fundacionais, plataformas digitais e empreendedorismo tecnológico.

O DRAGONS representa a excelência oriental em manufatura avançada, infraestrutura, escala industrial, integração sistêmica e planejamento de longo prazo.

Separadamente, ambos são impressionantes, juntos, eles definem a arquitetura econômica do século 21. Essa talvez seja a principal mudança que líderes empresariais, conselhos de administração e formuladores de políticas públicas precisam compreender. Estamos deixando para trás uma era em que inovação podia ser analisada exclusivamente pela ótica das empresas mais valiosas ou das startups mais promissoras.

A competição que se desenha não ocorre apenas entre organizações. Ela ocorre entre modelos de desenvolvimento, ecossistemas tecnológicos e capacidades nacionais.

Os Estados Unidos lideram partes fundamentais da inovação em inteligência artificial, a China lidera segmentos críticos de manufatura, energia, infraestrutura e integração tecnológica.

Taiwan ocupa uma posição central na produção dos semicondutores que sustentam ambos os sistemas, o resultado não é uma ordem unipolar nem uma simples disputa entre Oriente e Ocidente.

Estamos assistindo ao surgimento de uma arquitetura multipolar baseada em interdependências tecnológicas profundas, por isso, acredito que a discussão sobre o futuro não deveria ser MANGOS versus DRAGONS.

A questão mais relevante é compreender como esses dois sistemas se complementam, se desafiam e se tornam mutuamente dependentes, porque a inteligência artificial pode ser a tecnologia mais visível da nossa era, mas ela é apenas a superfície de uma transformação muito mais profunda.

A verdadeira disputa não é por modelos, é pelo controle dos sistemas que tornarão esses modelos possíveis e é justamente nessa camada invisível que a próxima ordem mundial está sendo construída.

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Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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