Inovação & estratégia
7 minutos min de leitura

De MANGOS a DRAGONS: o futuro não está apenas no Vale do Silício, a nova ordem tecnológica é interdependente

Ao contrastar o poder das big techs ocidentais com a força industrial e estrutural do Oriente, este artigo amplia a leitura sobre inovação e revela que o futuro da economia global não será definido por empresas isoladas, mas pela interação entre ecossistemas tecnológicos interdependentes.
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Compartilhar:

Tenho observado com interesse o surgimento de uma nova narrativa nos círculos de tecnologia, investimento e geopolítica. Nos últimos meses, tornou-se cada vez mais comum a utilização da sigla MANGOS para representar aquilo que muitos enxergam como o novo centro de gravidade da economia global. O termo reúne Meta, Anthropic, NVIDIA, Google, OpenAI e SpaceX, organizações que lideram avanços em inteligência artificial, computação, plataformas digitais, semicondutores e exploração espacial.

A popularidade da sigla não é difícil de entender. Essas empresas concentram parte significativa do capital de risco global, atraem os melhores talentos do mundo, influenciam regulações governamentais, moldam mercados inteiros e estão construindo tecnologias que poderão redefinir a produtividade econômica nas próximas décadas. Sob diversos aspectos, elas representam o que o Ocidente considera ser a vanguarda da inovação.

Mas existe uma questão que me incomoda profundamente quando observo essa narrativa, ela parte da premissa de que o futuro está sendo construído apenas a partir do Vale do Silício, mas essa visão não está necessariamente errada. Ela está incompleta.

Ao longo da história, uma das maiores limitações das grandes potências foi acreditar que seu modelo de desenvolvimento representava a totalidade da realidade. O mesmo fenômeno parece estar acontecendo agora. Grande parte das análises sobre inteligência artificial continua concentrada em modelos fundacionais, agentes autônomos, plataformas digitais e investimentos bilionários em startups. Entretanto, quando ampliamos o campo de observação para além das empresas mais visíveis, começamos a perceber que a transformação em curso possui uma dimensão muito maior.

A inteligência artificial não é apenas software, ela é também energia, capacidade computacional, semicondutores, telecomunicações, manufatura avançada, cadeias globais de suprimentos e infraestrutura física e quando observamos esses elementos, o mapa do poder começa a mudar.

É por isso que acredito que precisamos complementar a visão representada pelo MANGOS com aquilo que chamo de DRAGONS, uma representação simbólica do conjunto de organizações e capacidades estratégicas que emergem do Oriente e que estão desempenhando um papel igualmente decisivo na construção da próxima ordem econômica global.

Quando falamos sobre o polo oriental, estamos falando de empresas como Huawei, Alibaba, Tencent, BYD, CATL, DeepSeek e TSMC. À primeira vista, pode parecer apenas uma lista de grandes corporações asiáticas. Na prática, estamos falando de algo muito mais relevante. Estamos falando de organizações que ocupam posições críticas em diferentes camadas da infraestrutura tecnológica mundial.

A Huawei representa um dos casos mais fascinantes de resiliência estratégica da história recente. Durante anos, muitos analistas acreditaram que as restrições impostas pelos Estados Unidos comprometeriam sua capacidade de competir globalmente. O que ocorreu foi exatamente o contrário. A empresa acelerou investimentos em pesquisa, ampliou suas capacidades em semicondutores, fortaleceu suas plataformas de computação e expandiu sua atuação em setores críticos para a transformação digital chinesa. Hoje, a Huawei não deve ser entendida apenas como uma empresa de telecomunicações. Ela representa uma expressão concreta da busca chinesa por autonomia tecnológica.

A Alibaba ocupa uma posição igualmente estratégica. Frequentemente associada ao comércio eletrônico, ela se tornou uma das maiores infraestruturas digitais da Ásia. Sua operação de computação em nuvem fornece a base tecnológica para milhares de organizações que desenvolvem aplicações de inteligência artificial, analytics avançado e serviços digitais. Em um mundo onde capacidade computacional se tornou um ativo estratégico, possuir infraestrutura de nuvem em escala nacional deixa de ser uma vantagem operacional e passa a ser uma questão de soberania.

A Tencent oferece uma perspectiva ainda mais interessante. Enquanto grande parte das empresas ocidentais construiu plataformas especializadas, a Tencent desenvolveu um ecossistema integrado que conecta comunicação, pagamentos, serviços financeiros, comércio eletrônico, entretenimento e dados em uma única experiência digital. O resultado é uma plataforma que funciona não apenas como um produto, mas como uma camada operacional da economia.

Mas talvez os exemplos mais reveladores estejam fora do universo tradicional do software.

A BYD tornou-se uma das maiores fabricantes de veículos elétricos do mundo e vem alterando profundamente o equilíbrio competitivo da indústria automotiva global. O que muitos observadores ainda não perceberam é que veículos elétricos são, na essência, sistemas computacionais móveis. Eles combinam software, sensores, conectividade, inteligência artificial, armazenamento de energia e automação em uma única plataforma. Sob essa perspectiva, a BYD não compete apenas com montadoras. Ela compete na construção da infraestrutura inteligente que conectará mobilidade, energia e dados.

Ao lado dela está a CATL, uma empresa que raramente ocupa manchetes fora dos círculos especializados, mas que controla um dos ativos mais estratégicos do século 21. Em uma economia baseada em eletrificação, armazenamento energético e mobilidade sustentável, as baterias tornam-se tão importantes quanto os motores foram durante a Revolução Industrial. Controlar essa cadeia significa influenciar diretamente a velocidade da transição energética global.

No entanto, existe um ator cuja importância talvez seja ainda maior, Taiwan.

A maior parte das discussões sobre inteligência artificial continua concentrada em modelos como GPT, Claude ou Gemini. Pouco se fala sobre a infraestrutura física que torna esses modelos possíveis. É justamente nesse ponto que a TSMC assume uma posição singular.

A empresa produz a maior parte dos semicondutores avançados utilizados pelas principais organizações de tecnologia do mundo. NVIDIA, Apple, Google, Microsoft e inúmeras outras dependem de sua capacidade produtiva. Isso significa que uma parcela relevante da revolução da inteligência artificial está apoiada em uma empresa localizada em uma ilha que se tornou um dos pontos geopolíticos mais sensíveis do planeta e essa constatação nos leva a uma reflexão mais profunda.

Talvez estejamos interpretando o poder de maneira equivocada. Durante grande parte do século 20, poder era associado a recursos naturais, território, força militar e capacidade industrial. No século 21, essas variáveis continuam importantes, mas passaram a coexistir com uma nova camada de influência. O poder agora está distribuído ao longo de sistemas complexos.

  • Quem controla energia influencia a computação.
  • Quem controla computação influencia a inteligência artificial.
  • Quem controla semicondutores influencia a computação.
  • Quem controla dados influencia os modelos.
  • Quem controla infraestrutura influencia toda a economia digital.


Sob essa ótica, torna-se evidente que a nova ordem mundial não pode ser explicada apenas pelo sucesso de empresas individuais. Ela precisa ser compreendida como a interação entre diferentes ecossistemas de poder.

O MANGOS representa a excelência ocidental em software, pesquisa, modelos fundacionais, plataformas digitais e empreendedorismo tecnológico.

O DRAGONS representa a excelência oriental em manufatura avançada, infraestrutura, escala industrial, integração sistêmica e planejamento de longo prazo.

Separadamente, ambos são impressionantes, juntos, eles definem a arquitetura econômica do século 21. Essa talvez seja a principal mudança que líderes empresariais, conselhos de administração e formuladores de políticas públicas precisam compreender. Estamos deixando para trás uma era em que inovação podia ser analisada exclusivamente pela ótica das empresas mais valiosas ou das startups mais promissoras.

A competição que se desenha não ocorre apenas entre organizações. Ela ocorre entre modelos de desenvolvimento, ecossistemas tecnológicos e capacidades nacionais.

Os Estados Unidos lideram partes fundamentais da inovação em inteligência artificial, a China lidera segmentos críticos de manufatura, energia, infraestrutura e integração tecnológica.

Taiwan ocupa uma posição central na produção dos semicondutores que sustentam ambos os sistemas, o resultado não é uma ordem unipolar nem uma simples disputa entre Oriente e Ocidente.

Estamos assistindo ao surgimento de uma arquitetura multipolar baseada em interdependências tecnológicas profundas, por isso, acredito que a discussão sobre o futuro não deveria ser MANGOS versus DRAGONS.

A questão mais relevante é compreender como esses dois sistemas se complementam, se desafiam e se tornam mutuamente dependentes, porque a inteligência artificial pode ser a tecnologia mais visível da nossa era, mas ela é apenas a superfície de uma transformação muito mais profunda.

A verdadeira disputa não é por modelos, é pelo controle dos sistemas que tornarão esses modelos possíveis e é justamente nessa camada invisível que a próxima ordem mundial está sendo construída.

Compartilhar:

Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Artigos relacionados

A pergunta que todo treinamento deveria responder

Treinamentos costumam ser vistos como solução para desafios de desempenho, cultura e transformação. Mas existe uma pergunta que raramente aparece nas discussões sobre desenvolvimento: o ambiente de trabalho favorece os comportamentos que a organização deseja incentivar? O artigo mostra por que o sucesso de qualquer programa depende menos do conteúdo ensinado e mais da coerência entre estratégia, liderança e mecanismos de gestão.

A IA aumentou a produtividade, mas quem está ganhando tempo?

Se toda hora economizada pela tecnologia é imediatamente preenchida por outra demanda, talvez o problema não esteja nas ferramentas, mas na forma como organizamos o trabalho. O artigo discute por que produtividade e bem-estar não deveriam ser objetivos opostos e como a inteligência artificial está colocando essa contradição em evidência.

A IA não está substituindo os bancos. Está mudando o trabalho dentro deles.

O que realmente importa para quem utiliza serviços financeiros é resolver uma demanda com segurança e agilidade. Em um setor cada vez mais digital, a vantagem competitiva estará menos na tecnologia em si e mais na capacidade de combinar automação e inteligência humana da forma certa em cada etapa da jornada.

A Reforma Tributária já não é um tema fiscal. É um tema de supply chain.

O artigo mostra por que a transição para o novo modelo tributário exige uma visão integrada da cadeia de suprimentos e alerta que a vantagem competitiva poderá estar menos na interpretação da legislação e mais na capacidade de adaptar processos, sistemas e operações antes que as mudanças se tornem obrigatórias.

Futebol feminino: O que mulheres aprendem quando têm espaço para competir?

A conquista histórica do São Paulo no Brasileirão Feminino vai além do esporte e convida a uma reflexão sobre como desenvolvemos competências que costumam ser associadas à liderança. O artigo explora como experiências vividas dentro e fora das organizações ajudam a construir confiança, influência, resiliência e capacidade de disputar espaços de forma saudável, preparando novas gerações para desafios que começam muito antes do primeiro cargo de liderança.

Liderança
14 de setembro de 2026 08H00
Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

11 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 17H00
Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
13 de setembro de 2026 14h00
Os movimentos recentes de Art’G e Belmont Emeralds revelam estratégias de geração e captura de valor

Adriana Salles Gomes

0 min de leitura
Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 08H00
Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Andréia Rengel - CEO e sócia da AMcom

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
12 de setembro de 2026 14H00
Em um ambiente empresarial cada vez mais orientado por dados, o people analytics permite que o RH amplie sua influência nas decisões corporativas.

Gabriela Resende - Diretora de Operações de Recursos Humanos da Propay

5 minutos min de leitura
User Experience, UX
12 de setembro de 2026 09H00
Uma experiência ruim não gera apenas insatisfação. Ela aumenta custos operacionais, compromete a reputação da marca, reduz receitas futuras e pode encerrar relacionamentos construídos ao longo de anos.

Tâmara Lira - CFO da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
11 de setembro de 2026 14H00
Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Marta Ferreira

7 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
11 de setembro de 2026 08H00
Mais do que dominar ferramentas, o desafio da liderança passou a ser tomar decisões, engajar pessoas e construir crescimento em um ambiente de incerteza permanente.

Eduardo Raffaini - Sócio-líder de Soluções de Strategy da Deloitte

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
10 de setembro de 2026 18H00
Discordâncias fazem parte de qualquer equipe diversa, mas nem sempre encontram espaço para serem expressas. O verdadeiro risco para as organizações não está no excesso de conflitos, mas na ausência deles.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão

2 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
10 de setembro de 2026 12H00
Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução