Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
7 minutos min de leitura

Design Organizacional e Job Crafting (Redesenho do Trabalho): Uma ponte entre números, estrutura e o potencial humano.

Números não executam estratégia sozinhos - pessoas mal posicionadas também a sabotam. O verdadeiro ganho de eficiência nasce quando estrutura, dados e pessoas operam como um único sistema.
Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor convidado em Masters de Liderança na Espanha e Mexico. Miguel é apaixonado e estudioso da Psicologia Positiva, convencido de que existe uma forma mais sustentável de fazer negócios e gerir empresas. No centro de sua atuação está a conexão de desafios estratégicos nas organizações com metodologias centradas nas pessoas. Com um Master Executivo em Liderança Positiva e Estratégia pelo IE - Instituto de Empresas - Madrid. Consultor implementando projetos de Identificação e Desenvolvimento de Talentos, formação e reestruturação de equipes através de Job Crafting, Team Crafting e mapeamento de Redes de Colaboração. Atendeu clientes de diferentes setores – financeiro, engenharia, indústria alimentícia, comércio, serviços e tecnologia.

Compartilhar:

Me dei um desafio grande ao escrever este artigo, buscando sintetizar de forma prática a necessidade de conectar mundos que normalmente não conversam entre si ou tem ruídos de comunicação, números, estrutura e potencial humano.

Para isso convidei para me apoiar nesta reflexão Lucas Dian, especialista em Design Organizacional e executivo da Comp empresa que trabalha com Org Design apoiada por IA.

Já a minha escola é da psicologia positiva organizacional e tenho trabalhado temas como talentos e potencial, complementaridade/ colaboração e significado no trabalho.

Sempre tive essa inquietação de fazer a ponte entre a estratégia da organização, o potencial e interesses, valores dos times e uma estrutura/ ambiente que permitisse esse alinhamento.

Das conversas com Lucas também percebi a inquietação de um olhar sistêmico, afinal o melhor desenho de estrutura não funciona se o potencial das pessoas é  mal aproveitado ou existem  questões comportamentais/culturais  a serem resolvidas. Isso afeta o sucesso da organização e o bem-estar das pessoas.

Da mesma forma comportamentos e potencial e valores alinhados com a estratégia em uma estrutura ruim também afetam o sucesso da organização e nosso bem-estar.

A área de pessoas ainda tem enxergado as suas disciplinas e projetos como silos DHO, Talent Acquisition, Rewards e de alguma forma os provedores também estão olhando isso de forma isolada. Com o nível de complexidade e dinamismo  que estamos vivendo ainda que cada um seja especialista em um subsistema, a visão sistêmica é um tema a ser exercitado coletivamente a todos os níveis do time e ouso dizer entre quem provê soluções para o RH.

E agora que temos dados e IA para apoiar nossa análise podemos correlacionar e identificar se os problemas de produtividade e resultados vem de aspectos comportamentais (capital humano e capital social), de processos ou de questões estruturais com mais agilidade.

A evolução do Design Organizacional

A conversa com Lucas foi muito interessante pois na minha mente existiam 2 abordagens, uma que é herança da Era industrial onde as pessoas eram engrenagens de uma estrutura relativamente previsível, estável e vertical, então o foco era redução de custo e eficiência, já a segunda abordagem olhando para outro extremo com foco em autogestão, trabalho em rede, descentralizado, centrado nas pessoas.

Enquanto o 1º modelo já não atende o nível de complexidade e dinamismo em que estamos vivendo, a 2ª demanda um grau de maturidade da organização e das pessoas que fazem parte dela para ser adotado. (E quero dizer que sou fã da autogestão e modelos mais descentralizados, quando bem implementados).

Precisa existir um caminho do meio e é justamente o que Lucas comenta em sua definição de Design ORG – “É o arranjo estruturado para levar valor ao cliente final através  de pessoas”.


Dentro deste arranjo também entra o Workforce Planning – que indo além do HeadCount – deve olhar a capacidade atual e capacidade futura da organização.

Existe uma conexão fundamental com indicadores financeiros como Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização ), P&L ( lucros e perdas), a Estratégia da organização e movimentos de mercado.

Algumas coisas que precisamos responder sobre o desenho organizacional:

  • Ele proporciona uma operação atual saudável,
  • É adequado conforme nossa receita,
  • Ajuda a promover a ambidestria ( inovação vs. operação atual) e
  • Nos dá agilidade para responder a movimentos internos (estratégia) e externos ( mercado).


Um pilar importante neste processo é o “Span of control”  traduzindo de forma simples o tamanho ideal de um time considerando proporção líder/liderados. De longe, esse é um número fixo que segundo Lucas existem algumas variáveis a considerar.

  1. Complexidade – A natureza das atividades
  2. Similaridade – O quanto as funções se parecem em um time.
  3. Dispersão geográfica – Time presencial, híbrido, atuando em projeto ou em outra região.
  4. Planejamento – o quanto precisamos colocar energia na organização das atividades.
  5. Coordenação – Nível de interação adequado entre os membros do time.
  6. Supervisão – A frequência de acompanhamento necessária


Eu coincido com a afirmação de Lucas, que a área de pessoas para ter credibilidade estratégica precisa “Falar a linguagem do negócio, entender de finanças, porque no final do dia o design impacta lá”

Se a estrutura é o “hardware”, as pessoas são o “software” que permitem que a estrutura funcione.

Encontrei pontos comuns onde os números e aspectos de potencial humano precisam trabalhar de mãos dadas, como apoiar na clareza de papéis, adaptação a inovação, reskilling, desenho de novos modelos de gestão e expansão.

Job Crafting – Redesenhando o trabalho com significado.

E é aí que metodologias como o Job Crafting entram em jogo, ela permite com que as pessoas de maneira estruturada definam suas contribuições alinhando potencial, interesses, valores com desafios estratégicos da organização e times.

A metodologia surgiu após uma pesquisa realizada por Amy Wreniewski (Yale) e Jane Duton (Michigan Business School) sobre significado no trabalho e seu impacto positivo no engajamento, produtividade e bem-estar.

O que as pesquisas descobriram é que as pessoas encontravam sentido ampliando a percepção do propósito e impacto do trabalho, redesenhando suas atividades, e redesenhando seus relacionamentos.

A partir da observação desses comportamentos foi criado um método para promover esse redesenho de forma consciente.

O método combina “Psicologia positiva” com “Design thinking” deixando um registro visual/digital das mudanças propostas pelos colaboradores.

Redesenho de Tarefas – Rever onde concentramos tempo, energia e atenção. Revisar escopo de atividades, modificando intensidade, a forma de fazer e inclusive se podemos delegar ou automatizar.

Redesenho de Relacionamentos – Alterar com quem e como nos relacionamos. Considerando rede de apoio, mentores, time.

Redesenho cognitivo – Ampliar a percepção sobre o propósito e impacto que queremos gerar no trabalho.


A pesquisa feita pelos autores Adam Grant e Amy Wreniewski,  revelou que quando o indivíduo acredita que tanto ele, como a sua circunstância podem mudar, existe um efeito duradouro de até 6 meses nos índices de felicidade no trabalho.

Em resumo, essa percepção que consigo agir na minha evolução e na evolução do meu trabalho é o que ajuda a gerar sentido e contribui para um incremento no engajamento.

Como acontece na prática

Em um contexto organizacional essa mudança é negociada de modo que haja um alinhamento entre as possibilidades existentes na estrutura e desafios estratégicos da empresa e o potencial e interesses das pessoas.

O que vi em mais de 600 job craftings foram propostas de geração de valor, revisão de papel e contribuição dentro do próprio cargo ou colaboradores pensando em uma preparação para transições laterais.

Um exemplo de ponte entre desenho organizacional e job crafting

Vivi um case na Atlas Contabilidade, onde houve uma combinação feliz entre um redesenho de estrutura de times para squads e job crafting onde os colaboradores foram agentes ativos da mudança revendo seus papéis na nova estrutura e inclusive o reskilling necessário. Como resultado, as tensões emocionais naturais de uma mudança se transformaram em tensões criativas, reduzindo o atrito com a nova estrutura.

Conclusão

Um olhar integrado entre número de negócios e o potencial das pessoas faz da organização uma arquitetura viva. Esse equilíbrio é fundamental para a sustentabilidade e prosperidade das organizações e das pessoas que fazem parte dela.


Reforço esse convite para um olhar sistêmico, onde um bom design organizacional permite construir a estrutura adequada que gere valor para o negócio, para os clientes e para as pessoas. Metodologias como o job crafting permitem dar voz aos colaboradores e ajudam para que eles encontrem significado no ambiente, nas relações e nas atividades que realizam.

Os dados oriundos tanto dos indicadores de negócio como das contribuições dos indivíduos fazem com que novas estruturas, processos e modelos de gestão surjam com uma conexão consciente entre potencial individual, contribuição real e sucesso organizacional.

Quero agradecer mais uma vez ao Lucas Dian pela sua contribuição, não só com a entrevista, mas compartilhando conteúdo relevante sobre Design Organizacional.

Acredito que esse “desconforto” de buscar sinergias, e complementaridade entre áreas de conhecimento diferentes é fundamental para o sucesso sustentável das pessoas e organizações.

Compartilhar:

Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor convidado em Masters de Liderança na Espanha e Mexico. Miguel é apaixonado e estudioso da Psicologia Positiva, convencido de que existe uma forma mais sustentável de fazer negócios e gerir empresas. No centro de sua atuação está a conexão de desafios estratégicos nas organizações com metodologias centradas nas pessoas. Com um Master Executivo em Liderança Positiva e Estratégia pelo IE - Instituto de Empresas - Madrid. Consultor implementando projetos de Identificação e Desenvolvimento de Talentos, formação e reestruturação de equipes através de Job Crafting, Team Crafting e mapeamento de Redes de Colaboração. Atendeu clientes de diferentes setores – financeiro, engenharia, indústria alimentícia, comércio, serviços e tecnologia.

Artigos relacionados

Autonomia não é fazer sozinho

Empresas querem profissionais protagonistas, capazes de decidir e agir com independência. As pessoas querem mais confiança, voz e espaço para fazer escolhas. O desafio é que autonomia costuma significar coisas diferentes para cada lado dessa relação.

Quando pessoas inteligentes discordam, o problema pode não ser a informação

Em reuniões de conselho, comitês executivos e equipes de alta gestão, é comum que profissionais experientes analisem os mesmos dados e cheguem a conclusões completamente diferentes. Nem sempre isso é sinal de desalinhamento ou falta de informação. Muitas vezes, a divergência revela algo mais profundo: critérios distintos para avaliar riscos, oportunidades, prioridades e sucesso.

2027 começa em outubro: o que os CEOs já estão decidindo agora

Embora o calendário ainda indique os últimos meses de 2026, as principais decisões que definirão o desempenho das empresas no próximo ciclo já estão sendo tomadas agora. A questão não é prever o que acontecerá em 2027, mas construir antecipadamente as capacidades que permitirão responder melhor ao que vier.

Plataformização da educação: 3 pontos para refletir antes de levar tecnologia para a sala de aula

Plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial estão chegando às salas de aula em ritmo acelerado. Mas a transformação educacional não depende apenas da disponibilidade de novas soluções. Ela exige clareza sobre os problemas que se pretende resolver, participação de quem vive o cotidiano escolar e condições reais para que a tecnologia faça sentido no processo de aprendizagem.

O que Guimarães Rosa pode ensinar sobre liderança na era da IA

Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

O caso Abril não foi uma crise da mídia. Foi uma crise de adaptação

Empresas raramente entram em declínio de forma repentina. Primeiro perdem capacidade de adaptação, depois relevância e, por fim, espaço para investir na própria transformação. A partir do caso Abril, o artigo analisa como decisões sobre inovação, sucessão, crescimento e alocação de recursos influenciam a capacidade de uma organização sobreviver em ciclos de disrupção cada vez mais rápidos.

Direito, Regulação & Compliance
22 de setembro de 2026 14H00
Ao eliminar distorções fiscais e reduzir a antecipação do recolhimento do ICMS em determinados produtos, as novas regras trazem mais equilíbrio tributário para fabricantes e distribuidores. A mudança não reduz necessariamente a carga tributária, mas pode melhorar o fluxo de caixa, simplificar operações e impulsionar a competitividade do setor.

Alexandro Ferreira de Souza - Superintendente de Planejamento Econômico e Financeiro da Termomecanica

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de setembro de 2026 08H00
Durante anos, as empresas disputaram espaço na tela dos usuários por meio de aplicativos, portais e plataformas digitais. Agora, a ascensão das interfaces de inteligência artificial inaugura uma nova lógica: em vez de buscar atenção, os softwares passam a competir para estar presentes no momento exato em que uma decisão é tomada.

Fulvio Mascara - Head global de inovação da Foursys

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
21 de setembro de 2026 14H00
Da carta assinada por milhares de pesquisadores aos recentes pedidos de desaceleração feitos por líderes da OpenAI, Anthropic e DeepMind, cresce o debate sobre os riscos e os limites da inteligência artificial. O desafio talvez não seja decidir se devemos continuar avançando, mas descobrir como fazê-lo sem perder o controle do rumo que estamos escolhendo.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
21 de setembro de 2026 08H00
Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

8 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de setembro de 2026 14H00
Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

5 minutos min de leitura
Geopolítica
20 de setembro de 2026 08H00
A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos - energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva - que pode transformar sua posição internacional.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de setembro de 2026 14H00
A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

Matheus Fonseca - Fundador da Leapy

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de setembro de 2026 08H00
Profissionais de alto impacto já conseguem pesquisar, analisar, testar hipóteses e executar entregas com um nível de autonomia impensável há poucos anos. O problema é que muitas organizações ainda operam com estruturas, processos e planos de carreira desenhados para limitar exatamente esse potencial.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

8 minutos min de leitura
Liderança
18 de setembro de 2026 14H00
A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de setembro de 2026 08H00
Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

Marcus Granadeiro - Membro do RICS - Royal Institution of Chartered Surveyors (MRICS) e sócio-diretor do Construtivo

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução