Inovação & estratégia, Empreendedorismo, Tecnologia & inteligencia artificial
5 minutos min de leitura

Do papel ao mercado: startups, deep techs e o fomento para inovação

Como transformar ciência em inovação? O Brasil produz muito conhecimento, mas ainda engatinha na conversão em soluções de mercado. Deep techs podem ser a ponte - e o caminho já começou.
Formada em administração, especialista em gerenciamento de projetos, gestão de pessoas, captação de recursos e inovação. CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89 empresas que atuam no hub de inovação, com serviços de consultoria, assessoria e treinamentos em captação de recursos para financiamentos e editais de inovação e Open Innovation. Atua há mais de 12 anos no ecossistema de inovação também como advisor de venture capitals, palestrante, podcaster, escritora, professora e mentora, conquistando com seus clientes diversos prêmios de inovação.

Compartilhar:

A materialização do conhecimento científico em produtos ou serviços sempre foi um grande desafio. O meio acadêmico gera pesquisas, teses, grandes avanços científicos significativos que muitas vezes não é aplicado e acabam “não saindo do papel” por falta de estímulos, recursos financeiros e condições para avançar rumo a algo concreto. O Brasil é o 14º país em publicação científica, com as universidades responsáveis por 95% dessa produção. Entretanto ocupa a 80ª posição em interação universidade e indústria segundo o Índice Global de Inovação (IGI) evidenciando essa lacuna entre a pesquisa e o setor produtivo. Fortalecer a conexão entre o meio acadêmico e as empresas é cada vez mais necessário. Startups deep techs podem ser a ponte para essa transição: convertendo ciência em soluções de alto impacto e fomentando a inovação como o elo que alavanca e potencializa o desenvolvimento tecnológico do país.

Startups são empresas de base tecnológica com modelos de negócios escaláveis. As deep techs, são tecnologias baseadas em avanços científicos e inovações complexas, com grandes riscos de desenvolvimento e potencial de liderar mudanças, estabelecer novas indústrias e reinventar as atuais. Seu maior desafio é provar a viabilidade de sua tecnologia. Segundo o relatório da Emerge 2024, existem 875 startups deep techs no Brasil e cerca de 70% delas se encontram em fase de superar o desafio da tecnologia.

Integrar todo esse conhecimento científico com empreendedorismo, segue sendo um caminho longo no país, enquanto Estados Unidos, China, Alemanha e Reino Unido despontam como referências, tanto em número de deep techs quanto em volume de investimentos. No Brasil, a prática de inovação aberta concentra-se na contratação de startups digitais, com menor adesão às deep techs, cujos principais desafios permeiam a incerteza quanto à eficácia da tecnologia e a aceitação pelo mercado.

Por outro lado, o Brasil tem caminhado para a consolidação de instrumentos públicos robustos, como a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), FAPs (Fundações de Amparo a Pesquisa de cada Estado) e o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e muitas outras ações regionais. Ainda assim, muitas startups e empresas não conseguem combinar esses mecanismos com capital privado e parcerias corporativas, perdendo oportunidades de alavancar e escalar suas inovações.

Para ajudar na demonstração de algumas possibilidades, a Finep é um exemplo que conta com diversos instrumentos de apoio como financiamentos reembolsáveis, não reembolsáveis (subvenção ou popularmente conhecido como fundo perdido), investimentos diretos e indiretos. Entre as opções, destacam-se:

  • Programa Centelha: operado em parceiria com agentes estaduais, com recursos via subvenção econômica, bolsas de apoio, capacitações, acesso a incubadoras e potenciais investidores. Podem participar pessoas físicas que tenham uma ideia inovadora e também empresas iniciantes com CNPJ formalizado há menos de 12 meses.
  • Programa Tecnova: executado de forma descentralizada por Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) e Secretarias de Ciência e Tecnologia de cada estado. Cada unidade seleciona parceiros operacionais locais para gerir o programa, aplicando os recursos de subvenção econômica e apoio à inovação e aceleração de empresas dentro de suas respectivas unidades federativas. Por meio de chamadas locais, o Tecnova seleciona negócios com potencial de mercado e financia etapas como P&D aplicado, prototipagem, validação, certificações e preparação para escala, geralmente acompanhadas de ações de aceleração e metas de desempenho. O objetivo central é reduzir o risco tecnológico e de mercado no estágio inicial, fortalecer a competitividade regional e catalisar a atração de investimento privado complementar, encurtando o caminho entre a fase de desenvolvimento e a inserção comercial.
  • Finep Startup é um programa de investimento de risco da Finep voltado a startups de base tecnológica em estágios iniciais, com produto validado ou em validação e alto potencial de escala. Por meio de chamadas públicas, a Finep seleciona empresas inovadoras e realiza aportes de recursos financeiros não reembolsáveis que podem se converter em participação societária, vinculados a metas de desenvolvimento, governança e tração. O propósito é acelerar a evolução tecnológica e a inserção no mercado, reduzindo o “vale da morte” entre P&D e escala comercial.


Vale destacar que o modelo de negócios de deep techs está concentrado no desenvolvimento de tecnologias para venda direta ou licenciamento para grandes indústrias. Nesse contexto, diversas chamadas não reembolsáveis da Finep, organizadas em múltiplas linhas temáticas estão alinhadas ao Plano Nova Indústria Brasil, tendo como premissa que o projeto de inovação seja realizado em parceria com uma ICT (Instituição Científica e Tecnológica) denominado “Arranjo Simples”. Também é possível estruturar propostas denominadas “Arranjo em Rede”, com outras empresas atuando como proponentes e/ou como coexecutoras. Neste sentido, as Startups e deep techs possuem maiores possibilidades de participar destas chamadas com encadeamento tecnológico conjunto.

Transformar a produção de pesquisa científica do país em soluções escaláveis e competitivas exigem uma agenda prática e coordenada entre universidades, empresas, governo e investidores. É um caminho longo, mas já iniciado. Para orientar a discussão e a busca de soluções, seguem alguns pontos relevantes:

  • A desburocratização dos processos e a criação de mecanismos eficazes de conexão entre as empresas e a academia, com uma cultura que engaje as empresas para buscar essa conexão cada vez maior com deep techs, demonstrando resultados práticos.
  • Preparar de forma cada vez mais assertiva as universidades, iniciando pelo fortalecimento da cultura de inovação aberta, preparando e capacitando cientistas e equipes em transferência de tecnologia, propriedade intelectual, gestão de P&D e fomento. Organizando os NIT’s (Núcleos de Inovação Tecnológica) como papel central nesse processo, sendo a ponte entre as universidades e o mercado promovendo a conexão entre os atores do ecossistema.
  • Ampliar cada vez mais o fomento por meio de políticas públicas integradas que abranjam toda a cadeia de inovação e assegurem uma governança eficiente do ecossistema. Mobilizando capital de longo prazo e instrumentos de investimento focalizados, que reduzam riscos, aumentem a previsibilidade e acelerem a conversão de pesquisa em impacto econômico e social.


Com ações estruturadas, integradas, governança efetiva e capital de longo prazo, o Brasil pode cada vez mais converter ciência em resultados concretos. Gerando competitividade, autonomia tecnológica e impacto social sustentado. Consolidando ambientes de estímulos, recursos e condições adequadas para que a pesquisa avance cada vez mais rumo ao mercado. É um caminho sem volta e precisamos estar preparados para ele.

Compartilhar:

Formada em administração, especialista em gerenciamento de projetos, gestão de pessoas, captação de recursos e inovação. CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89 empresas que atuam no hub de inovação, com serviços de consultoria, assessoria e treinamentos em captação de recursos para financiamentos e editais de inovação e Open Innovation. Atua há mais de 12 anos no ecossistema de inovação também como advisor de venture capitals, palestrante, podcaster, escritora, professora e mentora, conquistando com seus clientes diversos prêmios de inovação.

Artigos relacionados

Por que equipes entendem a estratégia e ainda assim não executam?

Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
26 de agosto de 2026 14H00
A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

Claudia Cavallini - Psicóloga, psicanalista e professora convidada da HSM

8 minutos min de leitura
Marketing & growth, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de agosto de 2026 08H00
Freelancers, consultores, creators e pequenas agências estão redesenhando a lógica de crescimento no marketing digital. Em vez de ampliar estruturas, apostam em tecnologia para expandir capacidade, ganhar eficiência e aumentar resultados. O desafio agora não é apenas fazer mais em menos tempo, mas construir operações capazes de escalar com inteligência, previsibilidade e qualidade.

Renan Caixeiro - Cofundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de agosto de 2026 14H00
O artigo mostra que inovação não é um destino nem um grande projeto isolado, mas um processo contínuo de testar hipóteses, aprender com evidências e evoluir com intenção estratégica.

Thomas Rebergue - Chief Business Officer da GINGA

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
25 de agosto de 2026 08H00
O artigo demonstra que a criatividade deixa de ser atributo exclusivo da inovação e passa a ocupar um papel central na capacidade das organizações de compreender problemas complexos e construir soluções que gerem valor no longo prazo.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up, futurista e especialista em sustentabilidade e live marketing.

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, User Experience, UX
24 de agosto de 2026 14H00
A antiga disputa entre e-commerce e lojas físicas perdeu sentido. O consumidor atual transita naturalmente entre ambientes digitais e presenciais, esperando uma experiência única, integrada e sem atritos. O artigo mostra por que o sucesso no varejo já não depende da força de um canal específico, mas da capacidade de conectar dados, tecnologia, atendimento e conveniência para construir jornadas fluidas e relevantes em todos os pontos de contato com a marca.

André Seibel - CEO do Circuito de Compras

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
24 de agosto de 2026 08H00
Existe uma crença silenciosa nas empresas de que profissionais experientes precisam ter opinião sobre tudo e discordar de quase todos. O problema é que posicionamento não é sinônimo de oposição. Neste artigo, o autor provoca uma reflexão sobre como a necessidade de marcar território pode comprometer relacionamentos, confiança e crescimento na carreira, e por que profissionais verdadeiramente influentes são aqueles que contribuem para a qualidade das decisões, independentemente de quem trouxe a ideia para a mesa.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
23 de agosto de 2026 13H00
As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Rui Piranda - Sócio-fundador da ForALL

4 minutos min de leitura
Marketing & growth
23 de agosto de 2026 08H00
Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

Evandro Monteiro - CEO da Origami Marketing e Eventos.

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de agosto de 2026 14H00
Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Caio Navarro - Fundador e CEO da consultoria Hand

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução