Marketing e vendas

É o fim da TV como conhecemos

Em meio à transformação digital e ao mundo multiplataforma, ainda tem gente olhando o mundo como online e offline – e potencialmente perdendo oportunidades de negócio
Diretor de marketing digital e mídia da General Motors da América do Sul. Formado em publicidade e propaganda pela UFRJ e com um MBA em marketing pelo IAG-PUC-RJ, iniciou sua carreira na Infoglobo, foi trainee na C&A e teve sólidas passagens por empresas como Nike e ABInBev. Bruno é mestre em administração de empresas pela EAESP-FGV (MPA) e tem um canal no Youtube, o @MarketingFC, para falar de marketing, mídia e um pouco de futebol.

Compartilhar:

Se você nasceu antes de 1990, deve lembrar, com certa nostalgia, de ir a uma loja de “discos” para comprar um álbum ou CD de sua banda favorita. O problema era que, às vezes, você gostava de uma ou duas músicas de uma banda específica, mas precisava pagar pelo álbum todo mesmo assim. Até que o iTunes foi lançado e permitia que você comprasse músicas individualmente.

Talvez este seja o primeiro grande e palpável exemplo de uma indústria que foi devastada por uma inovação. Nunca mais veremos as gravadoras com o poder dos anos 1980. Nos anos 2000 veio o boom do e-commerce, e com isso, um movimento conhecido como desintermediação, estudado amplamente pelo pesquisador e professor Thales Teixeira, em que a indústria começou a criar verticais “direct to consumer” e [vender ao consumidor sem passar pelo varejo](https://www.revistahsm.com.br/post/a-hora-h-do-sxsw-empatia-e-transparencia).

Empresas aéreas, por exemplo, mudaram totalmente seu modelo de venda e distribuição. Hotéis e pousadas viram surgir marketplaces que reuniam seu inventário e deixaram de ser dependentes de agências de turismo – e passaram a depender do Decolar, Booking e afins.

## Evolua ou morra!
O último movimento, e que está acontecendo até os dias atuais devido à aceleração da inovação e digitalização da economia, é o desacoplamento (ou decoupling, em inglês), que possibilita quebrar completamente as cadeias de serviços. Se antes era o Booking a mudar o mercado de turismo, agora surgiria o Airbnb, provocando uma desintermediação completa ao permitir que qualquer pessoa física criasse um quarto de hotel e competisse com o Hilton ou o Sheraton.

No campo do entretenimento, surgiria a Netflix, que, de longe, não é apenas a algoz da Blockbuster, mas sim a TV aberta e fechada, ao quebrar a cadeia de valor do consumidor, e permitir assistirmos quando e onde quisermos, nosso programa favorito e sem intervalos comerciais. Desta vez, as grandes redes de TV e criadores de conteúdo não demoraram, como a Blockbuster ou a indústria de música, a entender o que estava em jogo.

No início da sua história, a Netflix usava conteúdo dos grandes estúdios de cinema e televisão, quase como um “Inimigo Íntimo”, para fazer uma analogia com um famoso filme que está no catálogo da tech-company americana. Google e Amazon foram rápidos em criar e [posicionar seus serviços de streaming e vídeo para competir com a Netflix](https://www.mitsloanreview.com.br/post/streaming-a-guerra-por-audiencia-ganha-novo-protagonista). Youtube e Amazon Prime Video passaram a ocupar uma lacuna importante, deixada principalmente pelas redes de TV aberta e fechada.

## Mas se conteúdo é rei, quem entende de reino e reinado?
Se um movimento esperado (e feito pelas gravadoras no passado) seria que as grandes produtoras de conteúdo começassem uma guerra por direitos autorais, a fim de proteger seu feudo, desta vez, aparentemente, as redes de conteúdo mudaram a estratégia e decidiram contra-atacar. HBO, Comcast, Disney e até a carioca Rede Globo, resolveram vestir suas armaduras e partir para a guerra, criando seus próprios serviços de streaming. Destaco dois deles neste artigo: Disney+ e Globoplay.

Não deve ser fácil para um colosso como a Disney tomar uma decisão de criar um serviço, que poderia disruptar alguns de seus mais lucrativos negócios: cinema, venda de direitos e canais de televisão. Mas onde o Mickey acertou? Melhor a Disney criar o que vai disruptar seus modelos de negócio e lucrar com isso, do que deixar esta tarefa para uma nova entrante, certo? E a Disney “desceu para o play” para jogar o jogo com um time forte o suficiente para ganhar o jogo. Com um portfólio de conteúdo inigualável e uma habilidade de storytelling ímpar, [soube usar o streaming para ativar todas suas plataformas](https://www.revistahsm.com.br/post/o-estudo-dos-futuros-em-uma-visao-360-graus): cinema, parques, merchandising e muito mais.

O Disney+, em menos de dois anos de vida, conseguiu reposicionar o universo Star Wars com as séries exclusivas *Mandalorian* e *Rebels* – e vem mais em 2021! Mesmo no lucrativo e incontestável universo Marvel, a Disney começou uma nova fase com *WandaVision* e *Falcão & Soldado Universal*, além de preparar um lançamento em paralelo, cinema e streaming, com o filme da Viúva Negra, em que o consumidor poderá escolher comprar o filme via streaming ou assisti-lo no cinema. Nada melhor no meio de uma pandemia, certo? Em dois anos a turma de Darth Vader, Homem de Ferro e Minnie já passou a Netflix em assinantes nos EUA.

## E no Brasil? Onde estamos nesta guerra do streaming x TV?
As terras tupiniquins não ficaram de fora desta guerra. Netflix, embora não divulgue o número, estima-se que tenha [quase 20 milhões de assinantes](https://www.revistahsm.com.br/post/os-novos-ecossistemas-que-influenciam-a-geracao-z). Com média de 3,5 usuários por conta, chegaremos a um alcance de 70 milhões de pessoas, uma penetração muito maior que a TV a cabo e todas as mídias tradicionais (com exceção da TV aberta) juntas. Disney+ chegou em 2020 e já cresce exponencialmente. Porém o Brasil tem um grupo de comunicação dominante, a Rede Globo, e ela não ficou na plateia desta revolução, lançando sua plataforma de streaming no final de 2019: a Globoplay.

Se ficamos encantados com a ousadia do Mickey, devemos dar a mesma “moral” para a turma da Carminha e Boninho. A Globo também partiu para a disrupção. Primeiro ao lançar a Globoplay e depois ao criar planos que incluíam seus canais abertos e fechados por streaming, em planos da Globoplay com os canais ao vivo.

A emissora carioca abraçou a desintermediação e bateu recordes de vendas com a explosão da 21ª edição do Big Brother Brasil (BBB21). A Globoplay hoje, estima-se, compete cabeça a cabeça com a Netflix, com menos assinantes pagos, é verdade, mas sendo um dos poucos players locais e não americanos do mundo, a brigar neste nível com Disney e Netflix.

## Mas a audiência da TV aberta e da Rede Globo está caindo, segundo o IBOPE
Recentemente, o portal UOL, destacou que, em 2021, um ano após a pandemia, que todas as redes de TV perderam audiência. A queda foi menos acentuada na emissora do Jardim Botânico, em muito pelo sucesso estrondoso do BBB21. Algumas redes caíram 21% (é o caso de SBT e Record) e outras, como a Globo, apenas 4%. Mas tudo isso olhando nosso bom e velho Ibope.

Sei que sou um implicante com o Ibope e me frustra que ainda tenhamos uma métrica baseada no “peoplemeter” em pleno ano de 2021. Mas fica uma pergunta: a Rede Globo caiu 4% em audiência ou cresceu em audiência? Se a Globoplay tem aproximadamente 20 milhões de pessoas usando a plataforma (entre pagos e gratuitos), [quantos destes migraram da TV para o streaming](https://www.mitsloanreview.com.br/post/a-guerra-do-streaming-ruptura-ou-multihoming)?

Olhar apenas a audiência do Ibope para mensurar uma Rede Globo hoje, sem Globoplay, é ignorar uma fatia relevante de audiência da emissora. Assim como, por não ser mensurado pelo Ibope, ignora-se Netflix e Youtube, que, provavelmente, só perdem em audiência para a emissora da família Marinho. Se você usa estes [meios para construir planos de mídia](https://www.revistahsm.com.br/post/midia-programatica-awareness-e-performance), melhor começar a se armar de mais análises e ferramentas, ou pode estar comprando com um alto nível de miopia.

Não há como fugir, modelos tradicionais não atendem mais 100% das necessidades de um mercado em que analytics, big data e machine learning são essenciais. Agências e veículos patinam ao tentar manter-se presos aos modelos que trabalharam nos últimos cem anos. Os anunciantes, embora estejam se profissionalizando, ainda querem pagar barato e com a comissão do veículo, os serviços das agências. Mas este é assunto para outro artigo. Até lá, aproveite para assistir algumas séries citadas aqui, que são ótimas, recomendo *The Good Doctor* e *Arcanjo Renegado*, da Globoplay, *Gina e Georgia*, da Netflix, além das mencionadas acima, da Disney+.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Morte: a próxima fronteira do bem-estar

Do SXSW 2026 à realidade brasileira: O luto deixa o silêncio e começa a ocupar o centro do cuidado humano. A morte entrou na agenda do bem-estar e desafia indivíduos, empresas e sociedades a reaprenderem a cuidar.

Os rumos da agenda de diversidade, equidade e inclusão nas empresas brasileiras em 2026

Os números de assédio e a estagnação das carreiras de pessoas com deficiência revelam uma verdade incômoda: a inclusão no Brasil ainda para na porta de entrada. Em 2026, o desafio não é contratar, mas desenvolver, promover e garantir permanência – com método, responsabilidade e decisões que tratem diversidade como estratégia de negócio, e não como discurso.

Quando tudo vira conteúdo, o que ainda forma pensamento?

A inteligência artificial resolveu a escala do conteúdo – e, paradoxalmente, tornou a relevância mais rara. Em um mercado saturado de vozes, o diferencial deixa de ser produzir mais e passa a ser ajudar a pensar melhor, por meio de curadoria, experiências e comunidades que realmente transformam.

User Experience, UX, Marketing & growth
20 de março de 2026 14H00
Entenda como experiências simples, contextualizadas e humanas constroem marcas que duram.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

9 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
20 de março de 2026 08H00
Este artigo provoca uma pergunta incômoda: por que seguimos tratando o novo com lentes velhas? Estamos vivendo a maior revolução tecnológica desde a internet - e, ainda assim, as empresas estão tropeçando exatamente nos mesmos erros da transformação digital.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

6 minutos min de leitura
Lifelong learning
19 de março de 2026 17H00
Entre escuta, repertório e prática, o que conversas com executivos revelam sobre desenvolvimento profissional no novo mercado.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de março de 2026 08H00
Enquanto as empresas correm para adotar IA, pouquíssimas fazem a pergunta que realmente importa: o que somos quando nosso modelo de negócio muda completamente?

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de março de 2026 13H00
Nada destrói uma empresa tão rápido - e tão silenciosamente - quanto um líder mal escolhido. Uma única nomeação equivocada corrói cultura, paralisa times, distorce decisões e drena resultado. Este artigo expõe por que insistir nesse erro não é só imprudência: é um passivo estratégico que nenhuma organização deveria tolerar.

Sylvestre Mergulhão - CEO e fundador da Impulso

3 minutos min de leitura
Estratégia
18 de março de 2026 06H00
Sua estratégia de 3 anos foi desenhada para um ambiente que já virou história. O custo de continuar executando um mapa desatualizado é mais alto do que você imagina.

Atila Persici Filho - COO da Bolder

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
17 de março de 2026 17H15
Direto do SXSW 2026, surge um alerta: E se o maior risco da IA não for errar, mas concordar demais?

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Empreendedorismo
17 de março de 2026 11H00
No SXSW 2026, Lucy Blakiston mostrou como uma ideia criada na faculdade se transformou na SYSCA, um ecossistema de mídia com impacto global.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
17 de março de 2026 08H00
Neste artigo, exploramos por que a capacidade de execução, discernimento aplicado e proximidade com a realidade estão redefinindo o que significa liderar - e por que títulos, discursos sofisticados e metodologias brilhantes já não bastam para garantir relevância em 2026.

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
16 de março de 2026 15H00
Dados apresentados por Kasley Killam no SXSW 2026 mostram que a qualidade das nossas conexões não influencia apenas o bem‑estar emocional - ela afeta longevidade, risco de doenças e mortalidade. Ainda assim, poucas organizações tratam conexão como parte da operação, e não como um efeito colateral da cultura.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...