Artigo

É preciso construir startup cities

O futuro do Brasil, e de qualquer país, passa por empresas de base tecnológica. O melhor caminho para isso é o da descentralização das políticas públicas de fomento para as cidades. Veja alguns casos promissores, no Rio Grande do Sul, e conheça os passos necessários que os municípios brasileiros devem dar para se chegar lá
Paulo Renato Ardenghi, considerado um dos principais líderes inovadores do setor público no Brasil, é fundador e CEO da Wise Innovation, consultoria que vem trabalhando projetos de inovação com diversas cidades brasileiras. Como líder de inovação da prefeitura de Porto Alegre, coordenou mais de 30 projetos de altíssimo impacto, incluindo o movimento Pacto Alegre. É professor convidado dos MBAs de gestão da inovação da Unisinos, de ecossistemas de inovação da Aliança para a Inovação (articulação UFRGS, PUCRS e Unisinos).

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Fala-se muito em smart cities, mas as cidades inteligentes mais necessárias ao Brasil no momento talvez atendam por outro nome em inglês: startup cities. O potencial do país para fazer florescer um ecossistema poderoso de startups contrasta com a ausência de uma estratégia de descentralização e articulação de políticas municipais de fomento ao empreendedorismo inovador. Cidades como Tel Aviv, Boston, Estocolmo e Shenzen investem em inovação com recursos para o surgimento de startups, enquanto o Brasil segue com ações centralizadas e distantes do volume de investimento internacional.

Mas existem incentivos acontecendo. O Programa Startup Brasil já aportou mais de R$ 40 milhões em cinco ciclos de aceleração, que apoiaram 229 startups. Eles são capazes ainda de alavancar quase dez vezes esse valor em recursos privados: R$ 392 milhões em investimentos externos. O BNDES atua como agente financiador via programas de investimento em Inovação e aceleração de startups, como Criatec, Fundo Anjo, BNDES Garagem e Funtec. O Sebrae, em parceria com a Finep e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, está disponibilizando até R$ 1 bilhão para financiamento de projetos relacionados a inovação, tanto para pequenos negócios tradicionais quanto os que nascem inovadores.

Ainda assim, sinto falta de uma estratégia em comum, que articule essas ações e defina as cidades como o lugar onde o desenvolvimento acontece. Só dessa forma o Brasil estaria entre os países que mais se destacam, graças à nossa diversidade, ao tamanho do mercado e ao talento e à vontade dos brasileiros das diferentes regiões. Mas como fazer isso?

## A necessidade do olhar descentralizado
Estamos vivendo um momento positivo e repleto de incertezas, o que , para a inovação, é um prato cheio de oportunidades. Como todo evento que propõe mudanças radicais nos modelos produtivos, educacionais e governamentais, as dúvidas surgem e se materializam com visões pessimistas sobre os avanços tecnológicos.

Esse momento merece uma reflexão estratégica e uma ação direta, que se inicia pelo desenho de políticas públicas de inovação e fomento de startups. Poder público, universidades, sociedade civil e empresas devem trabalhar juntos na compreensão de que há grandes oportunidades e, por óbvio, alguns riscos. Aliás, o maior risco é não estar preparado para a transformação.

Precisamos de uma estratégia de médio e longo prazo que ultrapasse governos e reconheça nas cidades o lugar onde as políticas públicas de fomento de startups acontecerão. É lá que estão os empreendedores, as incubadoras, as universidades, os investidores, os problemas e as soluções.

## Startup cities – desafios e oportunidades
Com um mundo em transformação, as startups e empresas de base tecnológica estão desempenhando um papel essencial na economia global. Apple, Google, Meta, Amazon, Uber, que nasceram como startups, transformaram setores tradicionais, mas isso é apenas a ponta do iceberg. Tecnologias revolucionárias estão modificando profundamente o modelo produtivo, o formato de educação e de governo. A inteligência artificial tem potencial para aumentar em até 14% o PIB global até 2030. Parte disso é resultado do impacto no volume de dados gerado pela internet das coisas, uma evolução do cenário atual em que estamos vivendo, a internet das pessoas.

O ecossistema empreendedor brasileiro tem se destacado com o crescimento de empresas inovadoras e comprovado o potencial nacional. O Nubank se tornou em 2021 a primeira startup brasileira a ultrapassar valor de mercado acima de US$ 10 bilhões de dólares. O Quinto Andar, atualmente, é avaliado em mais de R$ 5 bilhões e revolucionou o mercado imobiliário ao desburocratizar e digitalizar os processos de venda e locação de imóveis. O Ifood é uma empresa nacional que possui uma fatia de 72% do mercado e compete com plataformas internacionais de entrega. A Gympass recebeu recentemente aporte de US$ 220 milhões e já tem valor de mercado acima de US$ 2 bilhões de dólares. Ou seja, há uma porção de avanços acontecendo, mas ainda falta muito.

Porto Alegre
Uma virada em 2017
A criação do Pacto Alegre, envolvendo diferentes atores, pode servir de inspiração
Porto Alegre enfrentou um momento decisivo em 2017. Com dilemas econômicos, ambiente de negócios não favorável e baixa autoestima, a capital do Rio Grande do Sul precisava se reinventar. Uma aliança inédita constituída pelas maiores universidades do estado (UFRGS, PUCRS e Unisinos) levou a uma série de acontecimentos, como a criação do Pacto Alegre, inspirado em Barcelona e Medellín, que reúne 90 instituições do poder público, iniciativa privada, sociedade civil e universidades para tornar a cidade uma referência internacional em inovação tecnológica.

A mudança da cultura e a criação de um ambiente favorável merecem destaque. Em quatro anos, Porto Alegre inaugurou o Instituto Caldeira (um hub de inovação com mais de 2 mil pessoas, startups, 60 corporações, instituições públicas e privadas) e realizou o South Summit, um dos maiores eventos de inovação da América Latina, com mais de 1.000 startups do mundo todo e 20 mil participantes. Recentemente, a capital gaúcha sediou a primeira edição na América Latina do Startup Guide, principal guia mundial de startups.

Porto Alegre está colhendo resultados: foi considerada uma das cidades com melhor ambiente para o surgimento de startups no Brasil. Mesmo com mudança de governo municipal, o Pacto se fortaleceu, e seu coordenador foi indicado secretário municipal de inovação, com as ações expandidas para projetos de impacto social.

Efeito borboleta estadual

Em uma estratégia de descentralização, não faz sentido concentrar nas grandes cidades o desdobramento das políticas de inovação. Ao contrário, elas viram referência e ponto de partida para que as demais avancem. Em 2020, o governo do Rio Grande do Sul iniciou a implementação do Programa Inova-RS, que compartilha da metodologia do Pacto Alegre, porém numa perspectiva regional. Diversas cidades gaúchas já possuíam a sua cena de inovação, mas faltava impulsioná-las por meio das universidades, unindo o poder público e demais instituições regionais com a participação da Rede Gaúcha de Ambientes de Inovação, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul e da Associação Gaúcha de Startups. Agora, municípios do interior estão realizando eventos e fomentando o empreendedorismo. Confira alguns casos abaixo.

Gravataí
Em busca do efeito bola de neve
A Casa das Startups, primeira fase do Parque Tecnológico Pradotech, está prestes a nascer
Gravataí, munícipio da região metropolitana com 265 mil habitantes e a quarta economia do estado, criou a Secretaria Municipal de Inovação, Ciência e Tecnologia em 2021, nomeando como secretária uma agente de inovação local, Selma Fraga. Em menos de dois anos, a cidade aprovou uma das melhores leis de inovação do Brasil e criou programas como a política pública “Startup Gravataí” junto ao Sebrae, que em cinco ciclos já acelerou mais de 40 startups locais. Gravataí ainda implantou uma incubadora com o Tecnosinos, que irá inaugurar em breve o primeiro hub de inovação da cidade, a Casa das Startups, primeira fase de funcionamento do Parque Tecnológico Pradotech, localizado no novo bairro-conceito Prado. Como resultado, atraiu grandes empresas de logística e de tecnologia. Agora, Gravataí prepara um fundo de coinvestimento em conjunto com a iniciativa privada para investir até R$ 4 milhões nas startups que já estão em fase de tração e escala.

Caxias do Sul
Uma escola de inovação para formar líderes inovadores
a cidade também criou uma lei de incentivos fiscais para fomentar a inovação
A cidade é a segunda economia do estado, com PIB anual acima de R$ 27 bilhões, tendo como principal atividade econômica a indústria metalmecânica. Por lá, a iniciativa privada se organizou para atuar junto ao ecossistema de inovação da Serra Gaúcha por meio do Instituto Hélice. Grandes empresas da região têm realizado investimentos no sentido de redefinir seus conjuntos de serviços e produtos, com foco no digital. Reconhecidas instituições cientificas e tecnológicas habitam o espaço, assim como movimentos da sociedade civil.
Em 2021, em uma ação articulada, a prefeitura aprovou a primeira lei de incentivos fiscais da história de Caxias, com o objetivo de fomentar a inovação. Recentemente, as três maiores instituições de ensino superior locais lançaram a Escola da Inovação, que está formando líderes inovadores. Resultado: o munícipio criou, conjuntamente com Joinville, Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis, a Techroad, com o intuito de compartilhar
boas práticas.

Rio Grande
Uma protagonista da economia dos oceanos
O objetivo é transformar o município numa referência internacional em economia azul
Munícipio da região sul gaúcha, sétima economia do estado, Rio Grande decidiu colocar a inovação no centro de sua estratégia. Reuniu a Universidade Federal do Rio Grande, a prefeitura, a câmara do comércio, o Sebrae e a Portos RS, em um movimento semelhante ao Pacto de Porto Alegre, lançando o Grande Pacto. O objetivo é transformar o município numa referência internacional em economia azul. A economia dos oceanos é avaliada em cerca de US$ 1,5 trilhão ao ano, com potencial de dobrar o valor até 2030. O total de ativos dos oceanos é estimado atualmente em US$ 24 trilhões. Inteligência e inovação para os portos, fomento às startups ligadas ao mar, educação empreendedora nas escolas e fundo de inovação para garantir acesso a capital estão sendo implementados.

Encantado
Foco na educação
A cidade que ficou famosa pelo cristo gigante quer investir em inovação na escola
Com 25 mil habitantes, localizada no Vale do Taquari, Encantado ganhou uma nova matriz econômica graças à construção de uma atração turística que nos últimos dois anos levou mais de 150 mil visitantes à cidade, o Cristo Protetor de Encantado, maior até mesmo que o Cristo Redentor, no Rio. A prefeitura decidiu investir em inovação e educação para ser um polo de geração de talentos e turismo sustentável. Lançará em breve o Edulab, ambiente de testes de soluções inovadoras, exclusivo para a educação. Está desenvolvendo, junto a algumas startups, a transformação digital dos serviços educacionais, com trilhas inovadoras de aprendizagem.

Proponho colocar no centro da estratégia de desenvolvimento econômico do país a descentralização da política de inovação e fazer das cidades ambientes propícios para o surgimento de startups. Contudo, há inúmeros desafios.

No Brasil, nove de cada dez prefeitos enfrentam dilemas como a queda de arrecadação, aumento de desemprego, falta de mão de obra, fuga de talentos, excesso de burocracia, desigualdade social e baixos índices de aprendizagem nas escolas. Há uma série de dilemas que precisam ser resolvidos, e isso inúmeras vezes justifica não ampliar investirmos no ecossistema empreendedor.

A inovação nas cidades é uma oportunidade para novas formas de agir e solucionar problemas, sendo o empreendedorismo o motor dessa transformação. A união entre todos os atores sociais torna-se chave na criação de um ambiente adequado para as empresas nascerem e crescerem. Teremos de superar a falta de infraestrutura tecnológica, o distanciamento do setor público dos desafios da inovação, a dificuldade de acesso a capital financeiro, o ambiente regulatório, a falta de fluência em inglês e a qualidade da educação para geração de talentos inovadores.

Ao fortalecer o surgimento de uma nova matriz econômica alicerçada pela transformação digital e fomento ao empreendedorismo, as condições de superar os desafios se ampliam e os benefícios são inúmeros:

● Crescimento econômico: startups inovadoras têm o potencial de gerar empregos, atrair investimentos e impulsionar setores específicos
da economia.
● Estímulo à inovação: as startups são conhecidas por sua capacidade de introduzir inovação e tecnologias avançadas, permitindo que governos e empresas consumam e absorvam tecnologias.
● Atração, geração e retenção de talentos e fortalecimento da cultura empreendedora: cidades que fomentam startups tornam-se mais atrativas para os talentos e os empreendedores.
● Geração de empregos de alto valor agregado: startups em crescimento têm o potencial de criar empregos de alta qualidade e com perspectivas de carreira promissoras.
● Branding e posicionamento: cidades com estratégias de fomento para startups tornam-se reconhecidas nacional e internacionalmente como centros de inovação e empreendedorismo, atraindo investidores e fortalecendo sua marca.

### Como fazer das cidades o ambiente para o fomento e atração de startups e empresas de base tecnológica?
Os modelos que mais prosperam no mundo estruturam as ações em torno de seus ecossistemas, que reúnem todos os atores da sociedade, como já citei. A criação de uma visão de futuro em comum e de uma governança são fundamentais para esses avanços.

O caminho para a mudança pode ser percorrido a partir de dez passos:

__Ambiente regulatório:__ leis e decretos de inovação acessíveis com potencial de gerar efeitos reais para os empreendedores.

__Incentivos fiscais e financeiros:__ redução de impostos, linhas de crédito com taxas atrativas, fundos de investimento específicos e programas de subvenção.

__Cultura empreendedora:__ fortalecimento de projetos de educação empreendedora, estímulo ao pensamento criativo e o conhecimento sobre negócios.

__Infraestrutura e ecossistema:__ disponibilizar coworkings, centros de inovação, hubs, conexão com incubadoras, parques tecnológicos e rede de mentores.

__Poder público investidor e consumidor de tecnologia:__ criar mecanismos de compras governamentais inovadoras e fundos de investimento público-privados.

__Investimento em pesquisa e desenvolvimento:__ investir na colaboração entre empresas, universidades e centros de pesquisa, fomentando a pesquisa e a transferência de tecnologia/conhecimento.

__Visão global:__ estimular a internacionalização das startups com foco na ampliação de oportunidades de negócios e acesso a mercados globais.

__Networking e colaboração:__ promover a interação entre startups, investidores, corporações, instituições de ensino e setor público com eventos, encontros, programas de conexão e redes de mentoria.

__Comunicação:__ desenho e implementação da estratégia de comunicação para estimular empreendedores locais e a estratégia de branding da cidade.

__Programas de aceleração:__ desenho de trilhas de capacitação para todos os estágios, da ideia até a expansão das empresas.

Artigo publicado na HSM Management nº 158.

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