Reportagem

Em busca da harmonia com o intangível

A história mostra que o ser humano está sempre à procura de se harmonizar com aquilo que o social lhe provoca. Agora, pela primeira vez, a horizontalidade trazida pelas redes e pela tecnologia nos obriga a buscar harmonia com a incerteza
Colaboradora de HSM Management.

Compartilhar:

Ao longo de sua colaboração com __HSM Management__, o psicanalista Jorge Forbes provocou nossos leitores com suas reflexões contraintuitivas sobre o que ele chama de “TerraDois”. De maneira bem simples, TerraDois é o mundo em que vivemos hoje, aquele que foi instituído depois da criação da internet e que trouxe uma visão muito mais horizontal do que a verticalidade hierárquica que marcou a história nos últimos 28 séculos, o que Forbes chama de “arquitetura vertical do laço social”.

Ainda na pré-história, a humanidade tentava se harmonizar com a natureza – uma questão de vida ou morte. Depois, surgiram as religiões monoteístas patriarcais e a busca se voltou para a harmonia com Deus. Com o Iluminismo, no século 18, veio a busca da harmonia com a razão. Freud, Nietzsche e Darwin, com seus questionamentos dos valores mais arraigados no Ocidente, no fim do século 19 e início do 20, trouxeram a busca da harmonia do indivíduo consigo mesmo. E, enfim, chegamos à nossa batalha atual: a busca da harmonia com o intangível, em um mundo marcado pelas redes. Surge aí TerraDois.

Em TerraUm, a ideologia mudava, mas havia um padrão a ser seguido. Era sempre para o norte que a bússola apontava. Em TerraDois, estamos desnorteados, “desbussolados”. Passamos a conviver com muito mais frequência com o que o filósofo alemão Hegel, aquele da dialética, chama de questão trágica, remetendo à tragédia grega. “Uma questão trágica ocorre quando opiniões divergem entre si, com igual valor de verdade”, diz Forbes. No mundo atual, as certezas não são absolutas, pelo contrário: dois ou mais lados podem estar certos. Forbes exemplifica: existe o hotel e o quarto no Airbnb, existe o táxi e existe o Uber.

Em TerraDois, muitos diferentes podem ter razão, e aí surge o mal-estar. Sentimos que o chão escapa dos nossos pés, que estamos sempre pisando em areia movediça – essa metáfora tão improvável que os filmes do século 20 nos legaram. Segundo o psicanalista, “de todas as harmonias, essa é a mais frágil, móvel, flexível e instável”.

## Saúde mental em xeque
Os reflexos dessa incerteza atingem em cheio nossa saúde mental, porque passamos a viver eternamente em dívida. As demandas são muitas, e estamos sempre negociando com o que não conseguimos realizar. “A pessoa só sabe que deve e, por isso, se estressa. Estressando, só piora. No corpo, o sono falha, a azia queima, os músculos doem, a pressão aumenta, o coração dispara, a memória esquece. Na relação com o outro vem a impaciência, a irritação agressiva, a briga, o desgaste, o afastamento, a solidão. Cada um desses fatores retroage sobre a pessoa, aumentando o estresse, abrindo caminho para a depressão.”

Buscar o consenso ou o senso comum, segundo ele, não só não é suficiente: simplesmente não adianta. “Pensa-se com insistência que ontem era melhor. Não era, não. Além do mais, o presente é inexorável. Melhor legitimá-lo, captá-lo em sua nova forma, perceber a imensa chance de viver uma humanidade em uma nova clave. A música mudou”, afirma, e não há como querer que todos cantem juntos a mesma canção.

Como viver nessa realidade? A saída mais fácil tem sido a medicação, a tentativa de educar o desejo e fazer a assepsia das emoções, nas palavras do psicanalista. Mas, segundo ele próprio, é impossível tratar com remédios a incômoda subjetividade humana – e haja subjetividade em TerraDois!

Se a saída não está na medicação, Forbes aponta outros caminhos, que passam pela responsabilidade. Sem um padrão rígido a seguir, cada um precisa buscar respostas, mas assumindo as consequências que as escolhas possam trazer. Em vez de diálogos compreensíveis, estamos no tempo dos monólogos articulados, diz ele.

Um passo importante no sentido de aliviar o estresse e de bancar as próprias escolhas é baixar a ansiedade de reconhecimento. Guarde o mote proposto pelo psicanalista: não se explique nem se justifique. Especialmente nas redes sociais… Não se trata de uma questão de arrogância, mas de humildade, aceitando que “não há um outro a se oferecer compreensão e pedir aplauso”. A única chance de acontecer a validação é na lógica do encontro, da articulação de desejos e escolhas.

Forbes, defendendo a própria classe, afirma que “temos que aprender com a psicanálise a articular as diferenças, na desistência de um senso comum”. Enquanto isso, a cientista Natália Pasternak, uma importante voz em prol da ciência e das vacinas durante a pandemia, lança um livro em que coloca a psicanálise, a homeopatia e a acupuntura na categoria de crenças não científicas.

E agora, dr. Forbes? Sendo a psicanálise ciência ou não, cabe a nós bancarmos nossas escolhas, fazendo a síntese não mais entre dois opostos, como ensinou Hegel, mas entre todas as certezas em oferta. Ninguém falou que ia ser fácil, mas, cá entre nós, não é fascinante?

Artigo publicado na HSM Management nº 159.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Fomento para inovação: Alavanca estratégica de crescimento para as empresas

O volume e a previsibilidade dos instrumentos de fomento à inovação como financiamentos, recursos de subvenção econômica e incentivos fiscais aumentaram consideravelmente nos últimos anos e em 2026 a perspectiva é de novos recordes de liberações e projetos aprovados.  Fomento para inovação é uma estratégia que, quando bem utilizada, reduz o custo da inovação, viabiliza iniciativas de maior risco tecnológico, ajuda a escalar e encurtar o tempo para geração de valor dos projetos.

Bem-estar & saúde, Tecnologia & inteligencia artificial
16 de outubro de 2025
A saúde corporativa está em colapso silencioso - e quem não usar dados para antecipar vai continuar apagando incêndios.

Murilo Wadt - Cofundador e diretor geral da HealthBit

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
15 de outubro de 2025
Cuidar da saúde mental virou pauta urgente - nas empresas, nas escolas, nas nossas casas. Em um mundo acelerado e hiperexposto, desacelerar virou ato de coragem.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
14 de outubro de 2025
Se 90% da decisão de compra acontece antes do primeiro contato, por que seu time ainda espera o cliente bater na porta?

Mari Genovez - CEO da Matchez

3 minutos min de leitura
ESG
13 de outubro de 2025
ESG não é tendência nem filantropia - é estratégia de negócios. E quando o impacto social é parte da cultura, empresas crescem junto com a sociedade.

Ana Fontes - Empreendeedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME) e do Instituto RME

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
10 de outubro de 2025
Com mais de um século de história, a Drogaria Araujo mostra que longevidade empresarial se constrói com visão estratégica, cultura forte e design como motor de inovação.

Rodrigo Magnago

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
9 de outubro de 2025
Em tempos de alta performance e tecnologia, o verdadeiro diferencial está na empatia: um ativo invisível que transforma vínculos em resultados.

Laís Macedo, Presidente do Future is Now

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Bem-estar & saúde, Finanças
8 de outubro de 2025
Aos 40, a estabilidade virou exceção - mas também pode ser o início de um novo roteiro, mais consciente, humano e possível.

Lisia Prado, sócia da House of Feelings

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
7 de outubro de 2025
O trabalho flexível deixou de ser tendência - é uma estratégia de RH para atrair talentos, fortalecer a cultura e impulsionar o desempenho em um mundo que já mudou.

Natalia Ubilla, Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

7 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 de outubro de 2025
Como a evolução regulatória pode redefinir a gestão de pessoas no Brasil

Tatiana Pimenta, CEO da Vittude

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
3 de outubro de 2025
Ser CEO é mais que ocupar o topo - para mulheres, é desafiar estereótipos e transformar a liderança em espaço de pertencimento e impacto.

Giovana Pacini, Country Manager da Merz Aesthetics® Brasil

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança