Cultura organizacional, Liderança
4 minutos min de leitura

Empresa familiar sem governança é refém do fundador; com governança, vira legado

O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.
Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

Compartilhar:

Recentemente, em uma reportagem sobre o avanço das fusões e aquisições no Brasil, destaquei que o movimento de M&A no middle market é, em grande parte, uma forma de “comprar tempo e deixar de ser solitário”. Essa frase resume uma realidade que tenho acompanhado de perto: o empresário brasileiro constrói muito sozinho, mas cresce de forma exponencial quando estrutura sua empresa para atrair parceiros, investidores ou compradores estratégicos. E expande, mais ainda, quando percebe que as ferramentas de M&A, no buy side por exemplo, são formas extremamente relevantes de ganhar espaço e acelerar a execução da estratégia – qualquer que ela seja – por parte de quem compra.

E é justamente nesse ponto que a Governança Corporativa passa a ser prática.

O tripé formado por inovação, governança e resiliência tem se mostrado essencial para médias empresas que desejam atrair capital e crescer com consistência. Na prática, vejo esse tripé como um sistema interdependente, mas com um detalhe importante: a governança é a engrenagem que organiza e viabiliza os demais pilares.

No middle market, empresas com faturamento relevante e grande potencial de expansão, a governança ainda é, frequentemente, subestimada. Porém, quando analisamos os deals que avançam versus aqueles que travam na due diligence por exemplo, a diferença quase sempre está na qualidade da estrutura de gestão, nos controles, nos acordos societários pré-existentes (e não aqueles celebrados “na calada da noite”, simplesmente pra tentar viabilizar a transação), clareza estratégica e capacidade de reporte.

Governança não é burocracia, é previsibilidade. E previsibilidade reduz risco, e risco é o principal fator que impacta valuation.

Atuando há anos com assessoria em M&A para empresas do middle market, tenho observado um padrão muito claro: empresas que estruturam governança antes de ir ao mercado capturam mais valor, financeiro e estratégico. E, por vezes, não apenas aumentam o seu valuation, mas claramente a governança – muitas vezes –  simplesmente viabiliza que a transação aconteça.

Quando falamos em governança prática, estamos falando de colegiados ativos e realmente operantes no apoio à gestão: conselho consultivo ou de administração; comitês temáticos de acordo com o momento e a estratégia do negócio; acordo de sócios bem estruturado; separação clara entre patrimônio pessoal e empresarial; indicadores financeiros consistentes e auditáveis; planejamento estratégico formalizado; política clara de distribuição de resultados e reinvestimento, entre outros temas.

Uma base importante para estruturar este processo parte de John Davis (dos maiores especialistas mundiais em empresas familiares e governança, foi professor da Harvard Business School por mais de 30 anos), que criou um dos frameworks mais importantes para compreender a dinâmica de empresas familiares e sua governança:


No círculo da Família, navega-se em temas como: sucessão, valores e cultura familiar, educação das gerações, conflitos, legado e dividendos – podendo estabelecer um Protocolo de Família e muitas vezes um Conselho de Família também. No círculo da Propriedade, trabalha-se com os temas de: acordos societários, políticas de distribuição de lucro, estratégias de longo prazo, geração de liquidez e entrada e saída de acionistas, entre outros temas. Já no círculo Empresa, trata-se os assuntos da gestão & metas, time executivo, performance do negócio, compliance e a própria governança e constituição de conselho (consultivo ou de administração, por exemplo).

Em processos de venda parcial ou integral, esses elementos reduzem incertezas, encurtam negociações e ampliam o interesse de investidores financeiros e estratégicos, tanto nacionais quanto internacionais.

Sem governança, a empresa depende do fundador, com governança, a empresa passa a ser um ativo escalável.

Muito se fala sobre ESG, mas há uma inversão silenciosa acontecendo: o “G”, apesar de ser o último da sigla, é o primeiro na prática.

É a governança que define como métricas ambientais serão acompanhadas; como políticas sociais serão implementadas; como riscos reputacionais serão mitigados; e como decisões estratégicas serão tomadas com responsabilidade.

Sem estrutura decisória clara, sem prestação de contas e sem alinhamento entre sócios, qualquer agenda ambiental ou social se fragiliza.

No middle market, especialmente em empresas familiares ou de primeira geração, a profissionalização da governança é o divisor entre negócios que se perpetuam e negócios que se estagnam.

O mercado brasileiro de M&A demonstra que o movimento de consolidação é estrutural. Empresas médias estão sendo cada vez mais procuradas porque carregam conhecimento técnico, relevância regional e nichos consolidados. Porém, apenas aquelas que combinam inovação, governança e resiliência conseguem converter interesse em transação efetiva.

Governança, no fundo, é um exercício de visão de longo prazo. Ela permite atrair capital, preparar sucessão, reduzir dependência do(a) fundador(a), organizar crescimento não-orgânico e, principalmente, garantir continuidade.

Tenho defendido que o empresário brasileiro precisa deixar de ver governança como custo e passar a enxergá-la como investimento estratégico. Não apenas para vender – mas para valer mais, crescer melhor e durar mais.

E, para o middle market que deseja acelerar expansão, acessar novos sócios ou estruturar um futuro sustentável, ela é o ponto de partida.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O futuro do trabalho será criativo, conectado e escalável

A IA vai tirar empregos ou reinventar o trabalho? A pergunta mais comum sobre inteligência artificial ainda gira em torno da substituição de empregos. O artigo propõe uma reflexão sobre o futuro das carreiras, questionando a estrutura tradicional das organizações e defendendo um modelo em que pessoas se concentram cada vez mais em criar, conectar, verificar e escalar, enquanto a IA assume grande parte das atividades operacionais.

Criatividade deixou de ser campanha. Tornou-se estratégia.

O artigo defende que a criatividade deixou de ser um recurso pontual para se tornar uma capacidade organizacional capaz de conectar tecnologia, inovação, cultura e estratégia, sustentando o crescimento contínuo e a relevância das empresas no longo prazo.

O que os lugares ensinam sobre controle

Marca de empresa é criada, marca de lugar é descoberta. Os gestores corporativos têm muito o que aprender com o “place branding” sobre gerir algo que não tem dono

Circulando pelo mundo, com sotaque brasileiro

Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
28 de setembro de 2026 08H00
Conversar com um assistente para resolver uma demanda parece simples para o usuário. Para as organizações, porém, isso exige uma transformação muito mais profunda: explicitar processos, organizar capacidades de negócio e construir uma arquitetura capaz de conectar intenção, decisão e execução de forma confiável. É nesse encontro entre inteligência artificial e arquitetura headless que surge uma nova lógica para o futuro das operações empresariais.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

12 minutos min de leitura
Cultura organizacional
27 de setembro de 2026 14H00
O artigo mostra como o recuo estratégico do ego, a escuta hospitaleira e a responsabilidade pelo vínculo podem transformar relações em uma poderosa infraestrutura de alta performance.

Daniela Cais - Designer de Relações Profissionais, TEDx Speaker, Mentora de Comunicação para Carreiras e Negócios

6 minutos min de leitura
Diversidade, ESG, Gestão de pessoas
27 de setembro de 2026 08H00
Inovação não garante inclusão por si só. Para que a inteligência artificial amplie oportunidades para pessoas com deficiência, será necessário combinar tecnologia, governança, acessibilidade e mediação humana qualificada.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
26 de setembro de 2026 18H00
Mais do que uma questão tecnológica, o crescimento do Shadow AI evidencia a necessidade de fortalecer políticas internas, educação digital e governança para proteger um dos ativos mais valiosos das empresas: seus dados.

Adriano Pinhal - Superintendente de Inteligência Artificial da Mapfre

3 minutos min de leitura
Educação
26 de setembro de 2026 12H00
Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Vinicius Tondolo - Diretor executivo da Fundação Sagres

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de setembro de 2026 07H00
Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

Ana Luiza Oliveira e Ellen Couto - Integrantes do LabJornalismo, projeto da HSM Management em parceria com a Anhembi Morumbi

6 minutos min de leitura
ESG
25 de setembro de 2026 15H00
Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Luiz Martha - Diretor de Conhecimento e Impacto do IBGC- Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e Rodolfo Fücher - Líder do Grupo Curador do 27º Congresso IBGC.

3 minutos min de leitura
Estratégia, Direito, Regulação & Compliance, Finanças
25 de setembro de 2026 08H00
Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

Rodolfo Takahashi - CEO da Gooroo Crédito

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
24 de setembro de 2026 19H00
Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Jorge Inafuco - Sócio-diretor da empresa LEADERS LAB Treinamento e Consultoria, Professor e Consultor HSM

7 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Estratégia
24 de setembro de 2026 14H00
Enquanto grupos como Casas Bahia, Americanas e Braskem recorrem abertamente a processos de reestruturação para preservar suas operações, muitos empresários de médio porte ainda enxergam a Recuperação Judicial como um sinal de fracasso. O artigo questiona essa percepção e mostra por que, em muitos casos, o verdadeiro risco não está na recuperação em si, mas em esperar tempo demais para enfrentar a crise.

Aislan Campos Rocco - Advogado, Sócio na Barroso Advogados Associados

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução