TBT HSM Management

Empresas insistem em querer crescer do modo errado

Em 2014, Will Mitchell, professor de estratégia da Rotman School, fazia essa afirmação e propunha um framework substituto. Será que os gestores de hoje aprenderam?
Adriana Salles Gomes é diretora-editorial de HSM Management.

Compartilhar:

Você leu um livro intitulado *Build, Borrow or Buy: Solving the
growth dilemma*. Lançado em 2012, tinha um tema sensível a todo gestor: como financiar o crescimento. O autor, Will Mitchell, professor da Rotman School of Management, da University of Toronto, dizia que as empresas ainda usavam erroneamente o modelo binário “construir em casa x comprar fora” – dito de outro modo, “crescimento orgânico x fusões e aquisições”. E que isso estaria ultrapassado. O autor propunha um novo framework: construir-colaborar-comprar. O verbo “borrow”, acrescentado, significava no caso colaborar com outras organizações, tomando recursos emprestados.

Em 2014, na primeira edição do ano, __HSM Management__ publicou uma entrevista com Mitchell sobre seu framework de crescimento. “Minha tese é que antes de se matar para fazer algo funcionar, é preciso que a empresa tenha certeza de que aquele é o melhor modo de ter acesso à tecnologia, ao modelo de negócio ou ao produto desejados. Se o gestor escolher bem, há grande chance de que a implementação corra bem; já se escolher o método errado, por mais que ele se esforce, a empreitada tende a naufragar”, dizia ele, recomendando especial cuidado com a opção M&A.

Não há dúvida de que o desafio segue posto. Mas o framework tríplice de Mitchell? Segue atual? As colaborações avançaram, em particular com startups em projetos de inovação aberta, mas muitos gestores ainda são reticentes em colaborar.

## O que Mitchell disse em 2014
No caso do crescimento orgânico, a ideia de Mitchell era de que se deve aplicar um modelo de decisão bastante simples, que diz o seguinte: “Sob certas condições, faz sentido agirmos sozinhos”. As condições precisam ser definidas com rigor, como domínio suficiente da tecnologia e técnica envolvidas, e a inexistência de conflito entre a organização e o novo modelo de negócio. Cumpridas tais condições, esse caminho tende a ser mais rápido e barato – e dar mais controle do processo.

E se houver uma distância muito grande entre os recursos que a empresa já possui e os necessários? Ou… e se a distância for curta, mas a mudança no modelo de negócio potencialmente criar muito conflito? Nesses casos, faz mais sentido olhar para fora da organização, cogitando, primeiramente, “colaborar” com outras entidades.

Há duas modalidades de colaboração, disse Mitchell na ocasião: licenciamento e aliança. A primeira serve para coisas simples e básicas. Se ambas as partes conseguem descrever a relação com clareza e se têm segurança suficiente sobre o regime de propriedade intelectual, devem “optar mesmo pela colaboração do tipo licenciamento”. (Terceirização pode se incluir aqui.)

Caso contrário, a aliança é uma alternativa. “No entanto, só faça uma aliança se o número de pontos de contato com a outra organização for pequeno o bastante para não sobrecarregar a sua organização”, alertava o especialista da Rotman School.
Comprar é a opção mais “badalada” no mercado executivo, segundo o professor, o tipo de coisa na qual o CEO e os altos executivos gostam de pensar. A razão? “Gera muita publicidade e envolve muito dinheiro.” E ele admitia não conhecer nenhuma empresa que, a certa altura, não terá de cogitar seriamente a opção de comprar outra empresa se quiser permanecer no mercado.

Mas Mitchell foi bem incisivo ao dizer que M&As só devem ser levadas em conta depois de descartadas as outras duas opções. E mais: somente se a empresa crer que tem um plano de integração viável. “Não caia na armadilha de achar que essa é a única saída”, afirmava, avisando que muitos executivos têm esse tipo de pensamento. Para o professor da Rotman, precisa haver mais do que uma boa oportunidade de aquisição para optar pelo M&A – e não costuma haver.

Um bom exemplo de organização que lida com esse framework tríplice, na visão de Will Mitchell, era (e é) a Apple. Como ele disse, “há um monte de empresas se matando para produzir micros e smartphones caprichados. Enquanto isso, a Apple é uma das melhores integradoras da cadeia de valor do mundo, o que significa, basicamente, que sabe quando construir, quando colaborar e quando comprar”.

A Apple trata cada fase da cadeia de valor de maneira isolada (pesquisa, desenvolvimento, atividades de produção, atividade regulatória, marketing, distribuição, atendimento etc). Avalia se cada uma deve ser dentro de casa ou fora – e como – e administra a transição entre uma fase e outra. Para Mitchell, a Apple prova que a máxima “vamos fazer o que exigir especialização e comprar o que é comoditizado” precisa ser trocada por “vamos comprar o que é comoditizado, mas fazer parte das coisas que exigem especialização e trabalhar com empresas do mundo todo que sejam ainda melhores do que nós na produção de coisas especializadas. E ficaremos com boa parte do valor agregado ao unir todas essas pontas”.

## O que dizemos hoje
A economia de compartilhamento e o contexto de incertezas fazem com que o framework de crescimento de Mitchell se mostre ainda mais adequado. Porém a crise das supply chains provocada pela pandemia de covid-19 aponta falhas de resiliência do modelo. Qual o saldo?

Uma matemática simples parece confirmar a convicção de Mitchell: “as empresas que se tornam viáveis em longo prazo são aquelas que adquirem a capacidade de montar um portfólio de atividades de construir-colaborar-comprar”. Isso é o que viabiliza que se adaptem rápido. E a resiliência das supply chains? Pode ser aumentada.

Além disso, a opção de M&A parece ser ainda mais frequente do que já era. O que realça a importância do modelo na ampliação de caminhos.

Mitchell faleceu subitamente depois de uma corrida em dezembro de 2021.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O mercado não paga esforço

Este artigo provoca uma reflexão central: não é o quanto se trabalha que sustenta uma carreira, mas a capacidade de transformar trabalho em valor e impacto real.

Tecnologia & inteligencia artificial
3 de junho de 2026 15H00
Quando a IA vira solução antes de existir o problema, o resultado tende a ser irrelevante. Este artigo mostra por que o erro das empresas não está na tecnologia, mas na ordem das decisões

Osvaldo Aranha - Chief AI Strategist, Palestrante, Mentor e Conselheiro

5 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança, Marketing & growth
3 de junho de 2026 08H00
Em meio à obsessão por crescimento, este artigo propõe uma mudança de perspectiva: não é o quanto a empresa cresce que define seu sucesso, mas sua capacidade de transformar expansão em valor real e sustentável ao longo do tempo.

Alexandre Costa - Gerente de Estratégia Financeira, Pricing e Revenue Management

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de junho de 2026 13H00
Este artigo mostra como o agronegócio brasileiro precisa evoluir para uma arquitetura integrada de dados e gestão - transformando tecnologia em vantagem competitiva, governança robusta e valor sustentável no longo prazo.

AAdilson Martins - Sócio líder para o setor de agronegócio da Deloitte; André Ferreira - VP Global de Agronegócios da SAP; Lígia Penna - Sócia de Enterprise Technology & Performance da Deloitte e Rafael Okuda - Vice-presidente de Agribusiness & Food da SAP Brasil.

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Empreendedorismo, Inovação & estratégia
2 de junho de 2026 08H00
Por que uma sociedade que partiu de uma base agrária se tornou referência global em execução ágil, iteração contínua e adaptação sistêmica? A resposta não está apenas em políticas industriais ou acesso a capital. Está em um código cultural que transforma simplicidade, memória organizacional e julgamento contextual em vantagem competitiva - e que cabe perfeitamente no radar da gestão brasileira. Este artigo apresenta cinco lições operacionais da China, com cases empresariais, dados de 2025-2026 e reflexões aplicáveis a conselheiros e executivos latino-americanos.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Rael Mairesse - Cofundador e diretor da Luming

13 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de junho de 2026 14H00
A IA não está otimizando empresas, está testando se elas ainda fazem sentido. Este artigo demonstra que bons agentes inteligentes podem reconstruir o que antes exigia uma organização inteira.

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
1º de junho de 2026 09H00
Em um ambiente saturado de narrativas, este artigo revela por que confiança não é construída pela comunicação - mas pela consistência entre discurso, cultura e decisões.

Karen Fontana - CCSO e sócio-diretora da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Estratégia
31 de aio de 2026 15H00
Em um cenário de excesso de informações e alta volatilidade, este artigo questiona a falsa sensação de clareza que os dados oferecem, e mostra por que o verdadeiro desafio das organizações está em transformar volume em leitura qualificada e decisão relevante no tempo certo.

João Roncati - CEO da People+Strategy

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de maio de 2026 09H00
Este artigo revela por que a competitividade no setor automotivo está migrando da produção para a capacidade de prever, integrar e governar dados com precisão.

Lorena França - Account manager da A3Data

4 minutos min de leitura
Estratégia, User Experience, UX
30 de maio de 2026 14H00
Com o avanço do PL 5605/2019, este artigo mostra como a gestão de garantias e o pós-obra ganham nova centralidade no setor imobiliário, exigindo mais organização, rastreabilidade e maturidade operacional para reduzir conflitos e fortalecer a confiança do cliente.

Jean Ferrari - Engenheiro civil e CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de maio de 2026 08H00
Este artigo mostra que o problema não está na tecnologia, mas na manutenção de estruturas organizacionais inchadas e pouco preparadas para extrair valor da nova lógica do trabalho.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão