Inovação & estratégia
5 minutos min de leitura

Enquanto sua empresa decide sobre IA, seus funcionários já decidiram

O artigo mostra por que a pergunta mais importante já não é qual solução de IA adotar, mas quem está definindo os limites, os objetivos e as regras de uso dessa tecnologia dentro da organização.
Especialista em Estratégia pela Harvard Business School, com MBA em Gestão Estratégica de Negócios pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e graduação em Sistemas de Informação. Possui mais de 15 anos de experiência em liderança de Estratégia, Operações e Transformação Digital nos setores de Tecnologia, Varejo, Consultoria e Indústria. É Diretor de Delivery na Cognitivo AI, onde lidera portfólios multissetoriais de projetos de Ciência de Dados e Inteligência Artificial.

Compartilhar:

O PPT que você recebeu esta manhã com o fechamento do mês anterior foi feito por uma IA que agora tem seus números, suas margens e tudo que você não colocaria num e-mail. Seus funcionários já têm contas particulares no ChatGPT, alguns assinaram o plano Pro do Claude com o próprio cartão de crédito. Já existe uma dúzia de agentes no seu departamento processando planilhas e gerando Dashboards com números confusos e sem lastro. Por que a sua empresa, assim como tantas outras, ainda não assumiu o controle?

A resposta é simples: as pessoas parecem mais eficientes.

O mercado está se dividindo em duas categorias. As empresas que utilizam IA de forma estruturada e com estratégia e as que permitem o uso da IA para fazer as mesmas coisas um pouco mais rápido e com menos pessoas. Apenas uma está construindo vantagem competitiva. A outra está ganhando eficiência enquanto perde controle.

Ter acesso à IA e saber usá-la são coisas totalmente diferentes.

Uma empresa que desenvolve um modelo preditivo para o plano mestre de produção vai tomar decisões ruins se os dados de estoque divergem no ERP e os pedidos do CRM não conversam com a logística. O modelo não vai identificar o problema, vai automatizá-lo. Isso vale para crédito, churn, vendas, produção, onde quer que a IA oriente uma decisão real.

A pergunta não é qual ferramenta de IA comprar. É se a sua organização está pronta para usar qualquer uma delas.

Como a IA entrou na sua organização?

A maioria dos líderes acredita que a adoção de IA na sua empresa começa quando eles decidem. Não começa. Ela já começou, nos celulares e navegadores dos funcionários, meses ou anos antes de qualquer iniciativa formal.

A adoção de IA nas organizações segue um caminho previsível. Entender este caminho é importante para estar no controle.

Fase 1 – A exploração individual

Tudo começa abaixo do radar. Um analista descobre que o ChatGPT escreve melhor que ele em metade do tempo. Conta para o colega. O colega testa. Em semanas, metade do time está usando.

O resultado imediato é produtividade real. E-mails mais rápidos, apresentações melhores, análises que antes levavam horas, passam a ser feitas em minutos. O funcionário descobre que pode entregar mais com menos esforço. Esse ganho é individual, não documentado e invisível para a empresa. A organização não captura o valor, o colaborador captura para si.

Enquanto a produtividade individual sobe, o risco corporativo cresce sem ninguém ver.

Quando um time inteiro descobre que pode fazer mais com menos, alguém inevitavelmente faz a próxima pergunta: e se a gente automatizasse tudo?

Fase 2 – A euforia dos agentes

O analista que passou semanas explorando LLMs chega num momento de virada, percebe que dá para conectar a IA a sistemas reais e criar fluxos automáticos. O primeiro agente funciona. O segundo também. O analista percebe que o maior ganho não é velocidade, é liberação. Trabalho que antes consumia 2h (coletar dados, organizar, formatar, distribuir) passa a acontecer sem ele estar presente. A sensação é de que tudo pode ser automatizado.

O agente que funcionou em ambiente controlado começa a falhar no mundo real. A IA muda de versão, a API quebra, o dado de entrada vem diferente, o prompt que funcionava ontem entrega algo errado hoje.

E enquanto os times debatem qual o melhor agente, alguém que nunca escreveu uma linha de código decide ir além, criar o próprio sistema.

Fase 3 – O desenvolvedor acidental

Por décadas, construir software exigiu saber programar. A IA mudou o jogo. O analista de marketing descreve o que quer em português e o Claude escreve o código. O gerente comercial monta um dashboard sem nunca ter aberto um editor de código. O que um engenheiro de software demorava semanas pra fazer, um não-desenvolvedor com IA faz em horas.

O analista de RH que criou um sistema para triagem de currículos com o ChatGPT resolveu um problema real. Mas não escreveu um teste, não documentou nada, não pensou em segurança. Quando o volume dobrar ou o contexto mudar, o sistema vai falhar e ninguém vai saber por quê.

Em algum momento, alguém na organização percebe que tem dezenas de soluções rodando que ninguém mapeou, ninguém documenta e ninguém consegue manter.

Essa jornada não é exceção. É a regra. E cada fase não gerenciada gera exposição estratégica.

Reconhecer a situação

Cada fase da jornada que você acabou de ler deixa um rastro. Esse rastro tem custo e aparece no resultado, às vezes como linha no balanço, às vezes como vantagem competitiva que foi embora e às vezes como um passivo jurídico.

A produtividade subiu e as entregas aumentaram. O que ninguém está vendo, dezenas de soluções rodando sem documentação, orçamento fragmentado, riscos técnicos acumulando. Isso é o que eu costumo chamar de Caos Produtivo.

O caos produtivo é o único tipo de caos que recebe aplauso antes de apresentar a conta.

Bancos globais que permitiram o desenvolvimento não supervisionado de modelos de IA enfrentaram o mesmo problema. Quando os modelos geraram recomendações incorretas em momentos de volatilidade, a instituição não conseguia explicar a origem da decisão.

O problema não foi ter usado a IA. Foi não ter percebido que ela exigia decisões que nunca foram tomadas. As organizações que chegam ao outro lado fizeram uma coisa diferente, decidiram antes de precisar.

O que os melhores fazem?

As organizações que conseguiram ter retornos mensuráveis com a IA não começaram com a tecnologia. Elas começaram com uma pergunta: onde a IA muda nossa forma de competir? A resposta para essa pergunta define o que comprar, onde implementar e como governar. Quem começa pela ferramenta está escalando riscos.

Empresas de tecnologia que permitiram o uso de IA para gerar código não mudaram seu modelo operacional, apenas deram mais tempo livre para o desenvolvedor. Já as que implementaram agentes em todo o ciclo de desenvolvimento, mudaram a velocidade e a escala com que entregam produto.

As melhores organizações entenderam que o uso descentralizado da IA pode gerar ganhos individuais no curto prazo, mas raramente aparece no resultado final.

Neste momento, deixo uma reflexão ao leitor: sua organização está permitindo a adoção da IA ou está no controle dela?

Compartilhar:

Artigos relacionados

Eleitor 70+: o valor do repertório em uma sociedade que envelhece

À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

A publicidade não disputa mais audiência. Disputa atenção.

O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

O benefício existe. Mas as pessoas têm tempo para usá-lo?

Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

ESG, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 14H00
Rampas, tecnologias assistivas e conformidade regulatória são apenas o ponto de partida da inclusão. Entre a conformidade técnica e a adoção real existe um elemento frequentemente negligenciado: a cultura. Este artigo explora como a Inteligência Cultural pode determinar o sucesso ou o fracasso de estratégias globais de inclusão.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Clara Choen - Fundadora da Savant Consulting

12 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 08H00
Inspirado pelo legado de Oscar Motomura, o artigo questiona uma das crenças mais difundidas da gestão contemporânea: a ideia de que a transformação acontece apenas por meio das pessoas. A verdadeira mudança, argumenta o autor, depende da capacidade de revisar as estruturas invisíveis que moldam comportamentos, decisões e culturas organizacionais.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
27 de julho de 2026 14H00
Após anos de perda de passageiros e desafios financeiros, o transporte coletivo brasileiro ganha um novo marco regulatório que busca ampliar fontes de financiamento, reduzir desequilíbrios tarifários e criar condições para mais investimentos em qualidade, eficiência e experiência do usuário.

Vinicius Ladeira - Diretor Adjunto Nacional do SEST SENAT

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
27 de julho de 2026 08H00
Enquanto o debate sobre inteligência artificial continua concentrado em modelos, automação e produtividade, uma outra transformação acontece nos bastidores: a tensão gerada entre a democratização e a concentração de poder que pode definir a próxima fase da economia global.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

8 minutos min de leitura
Liderança
26 de julho de 2026 13H00
Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional - planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente - são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

Caio Fontenelle - Fundador dos restaurantes Figueira, Oliv e Pepper Jack

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de julho de 2026 07H00
A IA pode economizar horas em atividades operacionais, mas seu maior valor talvez esteja em outro lugar: ampliar perspectivas, conectar ideias e elevar a qualidade das decisões. O desafio é entender quando estamos ganhando velocidade e quando estamos construindo algo melhor.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
25 de julho de 2026 14H00
Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

3 minutos min de leitura
Liderança
25 de julho de 2026 08H00
Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Chieko Aoki - Fundadora e presidente da Blue Tree Hotels

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, User Experience, UX
24 de julho de 2026 14H00
Impulsionado pelo avanço do wellness e pela busca crescente por experiências com significado, o setor de turismo enfrenta um novo desafio: deixar de vender viagens para entregar transformação, criando vínculos de longo prazo e novas vantagens competitivas.

João Biancardi - Diretor de Marketing e Experiencia do Cliente do Grupo Mabu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
24 de julho de 2026 08H00
A preocupação com dinheiro já impacta produtividade, saúde mental e permanência no emprego. Diante desse cenário, organizações começam a repensar seu papel e a buscar formas de apoiar colaboradores sem invadir sua autonomia financeira.

Vivian Pardini - Coordenadora de compliance da Biz

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo