Uncategorized
4 minutos min de leitura

Feedback: um tema que não se esgota

Feedback não é um discurso final - é uma construção contínua que exige escuta, contexto e vínculo para gerar evolução real.
Doutora em Linguística pela Unicamp, com pós-doutorado pela PUC-SP. Idealizadora, professora e curadora da VRS Academy. Professora da Aberje, da Fundação Dom Cabral, Fundação Cásper Libero. Atua há 20 anos em aprendizagem corporativa, já atendeu mais de 150 empresas de diferentes segmentos. Autora dos livros "Comunicação Eficiente" (Aberje, 2020), "Redação Acadêmica" (Humanitas, 2018), "Referenciação e Contexto" (Contexto, 2005).
É sócia-diretora da RESCH RH, empresa especializada na captação de talentos e desenvolvimento humano e organizacional, que trabalha com a abordagem COMversas, cujo objetivo é promover o diálogo e acessar a inteligência coletiva nas organizações. Jacqueline atua há mais de 40 anos como consultora, coach, facilitadora de diálogos, professora e palestrante.Co autora dos livros “Colaboração e Diálogo: aportes teóricos e possibilidades práticas” (CRV, 2018) e Marcas, Memória e Representação (ESPM-Rio/ Topbooks, 2017). Foi professora no MBA de RH da PUC durante 15 anos.

Compartilhar:

O feedback está entre os temas mais recorrentes do ambiente corporativo. Figura entre os treinamentos mais solicitados, pauta constante nas reuniões de RH e presença frequente em artigos especializados. Ainda assim, as queixas persistem – e, em muitos casos, se repetem.

Quem dá o feedback costuma sentir que cumpriu sua missão  ao transmitir o que pensa. Ocorre, porém, que a forma como essa entrega acontece muitas vezes se assemelha a um “toma lá que o filho é seu”: está dito, agora mude. Espera-se que a mensagem provoque mudanças, sem necessariamente haver diálogo, escuta ou acolhimento. Não raro, quem fala supõe que o outro apenas ouça e aceite, sem espaço para perguntas, discordâncias ou nuance. A consequência é um processo unilateral, pouco construtivo e frequentemente frustrante.


Feedback não é só o que se diz – é o que se constrói

Essa frustração não é superficial: compromete o desenvolvimento profissional e afeta o clima organizacional. Uma pesquisa da Universidade de Yale, divulgada pela Fundação Dom Cabral, mostra que avaliações mal conduzidas, atravessadas por vieses inconscientes e impressões subjetivas, causam impactos severos na trajetória das pessoas. Falta de critérios, julgamentos baseados em estilo pessoal e invisibilidade de entregas comprometem a qualidade do processo avaliativo – e, por consequência, a credibilidade do feedback.

Apesar disso, muitos treinamentos ainda tratam o feedback como uma técnica de comunicação – como o clássico modelo do “sanduíche” (elogio-crítica-elogio) – ou como um pacote de frases prontas. O resultado é uma abordagem reducionista, que desconsidera a complexidade das conversas difíceis.


Todo feedback contém múltiplos diálogos

Como mostram Douglas Stone, Bruce Patton e Sheila Heen no livro “Conversas Difíceis”, todo diálogo de feedback envolve, na verdade, três conversas simultâneas:

  1. A conversa dos fatos: trata do que aconteceu, quem fez o quê, quem está certo, quem deve ser responsabilizado.
     
  2. A conversa dos sentimentos: envolve emoções como raiva, frustração, medo ou vergonha, que frequentemente são ignoradas, mas influenciam profundamente a escuta e a reação.
     
  3. A conversa da identidade: ativa questões sobre como nos vemos e como somos vistos. “Sou competente ou não?”, “Mereço respeito?” Quando nossa identidade se sente ameaçada, tendemos a reagir de forma defensiva.
     
     

Focar apenas nos fatos é ignorar que as pessoas não escutam em silêncio. Elas interpretam, sentem, reagem. E é aí que moram as maiores oportunidades – ou os maiores ruídos.

Brené Brown, autora de Coragem para Liderar, compartilha um episódio emblemático em que sua equipe lhe deu um feedback sobre sua dificuldade em estimar prazos realistas, o que gerava sobrecarga e tensão. Ao narrar o episódio, Brené explicita os sentimentos envolvidos, o impacto na sua autopercepção e, por fim, a decisão de delegar a gestão dos prazos – um exemplo claro de como os três níveis do diálogo estavam em jogo.


É possível fazer diferente

A maioria dos erros já é conhecida: atrasar a conversa, ser genérico, focar só no negativo, não escutar, não pactuar ações. Mas o mais grave talvez seja tratar o feedback como um discurso final, e não como o início de uma construção conjunta.

Propomos uma abordagem relacional e dialógica. Isso significa tratar o feedback não apenas como uma entrega de informação, mas como uma construção de sentido, que considera contexto, emoção, relação e escuta.

Compare os exemplos a seguir:

Frase tradicional: “Você precisa ser mais estratégico.”
Reformulação: “Creio que teríamos ganhos se você assumisse mais protagonismo em temas que envolvem outras áreas. Que tal trazer essas pautas para nossas reuniões semanais? O que pensa sobre isso?”

Frase tradicional: “Você precisa ser mais confiante.”
Reformulação: “Percebo que, em reuniões com clientes, você costuma abrir mão da fala, mesmo tendo bons insights. Você já notou isso? Sua visão é importante, e queria muito ver você trazendo-a com mais frequência.”

Frase tradicional: “Você não é confiável.”
Reformulação: “Alguns prazos foram perdidos nas últimas semanas, sem aviso. Vamos conversar sobre o que tem dificultado isso e como podemos nos organizar melhor?”

Essas reformulações não são sobre suavizar a mensagem, mas sobre criar condições para que ela seja realmente compreendida e gere movimento. Isso exige mais do que trocar palavras: exige intenção de escuta, disposição para o diálogo e pactuação de responsabilidades.


Do evento à prática viva

Em nossa atuação, temos proposto caminhos diferentes: envolver times inteiros na construção de critérios, realizar conversas abertas sobre o que é e o que não é um bom feedback e pactuar acordos coletivos sobre como o tema será tratado. Essa abordagem reconhece o feedback como prática viva, contínua e relacional – e não como um evento isolado.

Ao ampliar o entendimento do feedback, deixamos de tratá-lo como uma avaliação pontual para vê-lo como parte do tecido das relações no trabalho. Um tecido que, quando bem costurado, sustenta vínculos de confiança, aprendizado e evolução mútua.


Para seguir conversando

Feedback não é apenas sobre dizer o que precisa melhorar. É sobre criar, juntos, as condições para que pessoas e equipes possam evoluir com clareza, dignidade e pertencimento.

E que bom que este texto também é uma conversa. Porque, assim como as relações, as boas conversas não se encerram. Elas continuam.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando tudo vira conteúdo, o que ainda forma pensamento?

A inteligência artificial resolveu a escala do conteúdo – e, paradoxalmente, tornou a relevância mais rara. Em um mercado saturado de vozes, o diferencial deixa de ser produzir mais e passa a ser ajudar a pensar melhor, por meio de curadoria, experiências e comunidades que realmente transformam.

Fornecedores, riscos e resultados: a nova equação da competitividade

Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência – e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.

Apartheid climático: Quando a estratégia ESG vira geopolítica

A capitulação da SEC diante das regras climáticas criou dois mundos corporativos: um onde ESG é obrigatório e outro onde é opcional. Para CEOs de multinacionais, isso não é apenas questão regulatória, é o maior dilema estratégico da década. Como liderar empresas globais quando as regras do jogo mudam conforme a geografia?

Inovação & estratégia
26 de fevereiro de 2026
Diante dos desafios crescentes da mobilidade, conectar corporações, startups, parceiros e especialistas em um ambiente colaborativo pode ser o caminho para acelerar soluções, transformar ideias em projetos concretos e impulsionar a inovação nesse setor.

Juliana Burza - Gerente de Novos Negócios & Produtos de Inovação no Learning Village

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de fevereiro de 2026
No novo jogo do trabalho, talento não é ativo para reter - é inteligência para circular.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
25 de fevereiro de 2026
Enquanto o discurso corporativo vende inovação, o backoffice fiscal segue preso em planilhas - e pagando a conta

Isis Abbud - co-CEO e cofundadora da Qive

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
24 de fevereiro de 2026
Estudos recentes indicam: a IA pode fragmentar equipes - mas, usada com propósito, pode ser exatamente o que reconecta pessoas e reduz ruídos organizacionais.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

9 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de fevereiro de 2026
Com bilhões em recursos não reembolsáveis na mesa, o diferencial não é ter projeto - é saber estruturá‑lo sem tropeçar no processo.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

5 minutos min de leitura
ESG
22 de fevereiro de 2026
Depois do Carnaval, março nos convida a ir além das flores e mimos: o Dia Internacional da Mulher nos lembra que celebrar mulheres é importante, mas abrir portas é essencial - com coragem, escuta e propósito.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
21 de fevereiro de 2026
A autêntica transformação cultural emerge quando intenção e espontaneidade deixam de ser opostas e passam a operar em tensão criativa

Daniela Cais – TEDx Speaker, Design de Relações Profissionais

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de fevereiro de 2026
A verdadeira vantagem competitiva agora é a capacidade de realocar competências na velocidade das transformações

Cristiane Mendes - CEO da Chiefs.Group

4 minutos min de leitura
Liderança, Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de fevereiro de 2026
A crise silenciosa das organizações não é técnica, é emocional - e está nos cargos de poder.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
18 de fevereiro de 2026
Quando 80% não se sentem realizados, o problema não é individual - é sistêmico.

Tatiana Pimenta - CEO da Vittude

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...