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Felicidade tem gênero? O que o adoecimento emocional das mulheres líderes revela sobre nossas empresas

Felicidade não é benefício: é condição de sustentabilidade para mulheres em cargos de liderança.
Vanda Lohn é Mentora e Consultora Sistêmica de Negócios. Especialista em administração, desenvolvimento de pessoas e liderança sistêmica. Doutora em Engenharia de Produção com a temática em Ética e Sustentabilidade e Mestre em Gestão do Conhecimento pela UFSC. Tem a formação em Responsabilidade Socioambiental e Gestão do Terceiro Setor. Atuou no Hospital Universitário da UFSC e na UNIVALI, onde, por 17 anos, liderou projetos em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e o PNUD. Autora de ‘A felicidade não procura por vítima – Do eu soterrado ao arqueólogo do ser’, criou o Mapa do Comportamento Sistêmico, metodologia voltada ao autoconhecimento e transformação de padrões. Através do Instituto Vanda Lohn, compartilha conteúdos sobre desenvolvimento de liderança; Mentoria de Alta Performance

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O avanço feminino em cargos de liderança é uma das transformações mais marcantes no mundo do trabalho nas últimas décadas. Mas os dados mostram que, enquanto elas chegam ao topo, também adoecem em ritmo acelerado. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546.254 afastamentos do trabalho por questões de saúde mental, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Desse total, mais de 60% correspondem a mulheres, o que evidencia o impacto desproporcional do adoecimento mental sobre elas no ambiente profissional.

Levantamento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) aponta ainda que a maior parte desses afastamentos ocorre entre trabalhadoras com idade média de 41 anos, faixa etária em que muitas estão assumindo ou prestes a assumir posições estratégicas.

A liderança feminina e a sobrecarga que ninguém vê

À medida em que avança na carreira, muitas mulheres passam a acumular múltiplas funções, entregam resultados, cuidam da equipe, sustentam o lar e respondem a expectativas sociais muitas vezes invisíveis. Nesse processo, o espaço para olhar para si mesma vai ficando cada vez menor, e raramente se pergunta o que, de fato, a faz feliz.

Esse distanciamento de si tem um custo. Ele não aparece no organograma das empresas, mas surge nos códigos CID, nos afastamentos pelo INSS e nos pedidos de licença médica. A conta chega como exaustão, adoecimento emocional e, em alguns casos, diagnósticos graves. Uma pesquisa da Telavita, healthtech especializada em saúde emocional, mostra que 66,67% das mulheres em cargos de alta gestão já apresentam burnout completo.
Afinal, estamos celebrando a ascensão das mulheres à liderança ou normalizando o adoecimento delas no caminho?

NR-1: a lei que chegou para formalizar o que já era urgente

A partir de 26 de maio de 2026, entra em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que torna obrigatório para todas as empresas com regime CLT o gerenciamento dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho, incluindo sobrecarga, assédio, pressão por metas e falta de apoio organizacional.
Os fatores psicossociais passam a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) com o mesmo peso dos riscos físicos, químicos e biológicos.

Empresas que não se adequarem estarão sujeitas a autuações e ações do Ministério Público do Trabalho.
A norma é vista como um avanço. Ainda assim, parte dos especialistas avalia que tratar os riscos psicossociais apenas no âmbito regulatório pode não alcançar fatores estruturais que contribuem para o problema, entre eles, dinâmicas organizacionais que afetam de forma diferente homens e mulheres.

A conexão entre felicidade, liderança e saúde

Eu já sentei na frente de centenas de líderes. Mulheres brilhantes, fortes, competentes. Quando pergunto sobre estratégia, elas respondem com segurança. Quando pergunto sobre felicidade, elas travam. Porque muitas vezes ninguém nunca havia perguntado e elas mesmas pararam de se perguntar.

Dediquei minha trajetória a compreender o que impede pessoas e organizações de florescerem. Hoje, me guio pela convicção de que felicidade não é consequência do sucesso, mas o caminho para ele.

Felicidade não é mimo. Não é pauta de diversidade. É o único indicador que, quando vai a zero numa liderança, contamina o time, a cultura e os resultados. A mulher que adoece no topo não falhou. Ela foi ensinada a ignorar a si mesma até não conseguir mais fingir que estava bem.

Os dados indicam a existência de um padrão. Muitas mulheres em posições de liderança relatam ter sido socializadas a priorizar responsabilidades externas em detrimento do autocuidado, o que pode gerar impactos ao longo da trajetória profissional. Nessa perspectiva, felicidade corporativa deixa de ser apenas uma iniciativa de RH e passa a ser considerada um indicador de gestão.

Os dados indicam que ainda há desafios na forma como as organizações estruturam e sustentam a presença de mulheres em cargos de alta liderança. Nesse contexto, a NR-1 surge como uma resposta regulatória ao aumento das discussões sobre riscos psicossociais e saúde mental no trabalho. Para além do cumprimento da norma, há a importância de revisar modelos de gestão, de modo que o desempenho esteja acompanhado de condições adequadas de suporte, saúde e sustentabilidade para as lideranças.

A saúde emocional das mulheres na liderança é um reflexo direto da saúde das organizações. Quando elas adoecem no topo, isso revela falhas sistêmicas. Por isso, a pergunta que as empresas precisam fazer não é apenas se essas mulheres conseguem chegar à liderança, mas como garantir que permaneçam saudáveis enquanto lideram. Afinal, felicidade é proteção, sustentabilidade e, muitas vezes, preservação da própria vida.

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