Bem-estar & saúde
4 minutos min de leitura

Felicidade tem gênero? O que o adoecimento emocional das mulheres líderes revela sobre nossas empresas

Felicidade não é benefício: é condição de sustentabilidade para mulheres em cargos de liderança.
Vanda Lohn é Mentora e Consultora Sistêmica de Negócios. Especialista em administração, desenvolvimento de pessoas e liderança sistêmica. Doutora em Engenharia de Produção com a temática em Ética e Sustentabilidade e Mestre em Gestão do Conhecimento pela UFSC. Tem a formação em Responsabilidade Socioambiental e Gestão do Terceiro Setor. Atuou no Hospital Universitário da UFSC e na UNIVALI, onde, por 17 anos, liderou projetos em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e o PNUD. Autora de ‘A felicidade não procura por vítima – Do eu soterrado ao arqueólogo do ser’, criou o Mapa do Comportamento Sistêmico, metodologia voltada ao autoconhecimento e transformação de padrões. Através do Instituto Vanda Lohn, compartilha conteúdos sobre desenvolvimento de liderança; Mentoria de Alta Performance

Compartilhar:

O avanço feminino em cargos de liderança é uma das transformações mais marcantes no mundo do trabalho nas últimas décadas. Mas os dados mostram que, enquanto elas chegam ao topo, também adoecem em ritmo acelerado. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546.254 afastamentos do trabalho por questões de saúde mental, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Desse total, mais de 60% correspondem a mulheres, o que evidencia o impacto desproporcional do adoecimento mental sobre elas no ambiente profissional.

Levantamento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) aponta ainda que a maior parte desses afastamentos ocorre entre trabalhadoras com idade média de 41 anos, faixa etária em que muitas estão assumindo ou prestes a assumir posições estratégicas.

A liderança feminina e a sobrecarga que ninguém vê

À medida em que avança na carreira, muitas mulheres passam a acumular múltiplas funções, entregam resultados, cuidam da equipe, sustentam o lar e respondem a expectativas sociais muitas vezes invisíveis. Nesse processo, o espaço para olhar para si mesma vai ficando cada vez menor, e raramente se pergunta o que, de fato, a faz feliz.

Esse distanciamento de si tem um custo. Ele não aparece no organograma das empresas, mas surge nos códigos CID, nos afastamentos pelo INSS e nos pedidos de licença médica. A conta chega como exaustão, adoecimento emocional e, em alguns casos, diagnósticos graves. Uma pesquisa da Telavita, healthtech especializada em saúde emocional, mostra que 66,67% das mulheres em cargos de alta gestão já apresentam burnout completo.
Afinal, estamos celebrando a ascensão das mulheres à liderança ou normalizando o adoecimento delas no caminho?

NR-1: a lei que chegou para formalizar o que já era urgente

A partir de 26 de maio de 2026, entra em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que torna obrigatório para todas as empresas com regime CLT o gerenciamento dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho, incluindo sobrecarga, assédio, pressão por metas e falta de apoio organizacional.
Os fatores psicossociais passam a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) com o mesmo peso dos riscos físicos, químicos e biológicos.

Empresas que não se adequarem estarão sujeitas a autuações e ações do Ministério Público do Trabalho.
A norma é vista como um avanço. Ainda assim, parte dos especialistas avalia que tratar os riscos psicossociais apenas no âmbito regulatório pode não alcançar fatores estruturais que contribuem para o problema, entre eles, dinâmicas organizacionais que afetam de forma diferente homens e mulheres.

A conexão entre felicidade, liderança e saúde

Eu já sentei na frente de centenas de líderes. Mulheres brilhantes, fortes, competentes. Quando pergunto sobre estratégia, elas respondem com segurança. Quando pergunto sobre felicidade, elas travam. Porque muitas vezes ninguém nunca havia perguntado e elas mesmas pararam de se perguntar.

Dediquei minha trajetória a compreender o que impede pessoas e organizações de florescerem. Hoje, me guio pela convicção de que felicidade não é consequência do sucesso, mas o caminho para ele.

Felicidade não é mimo. Não é pauta de diversidade. É o único indicador que, quando vai a zero numa liderança, contamina o time, a cultura e os resultados. A mulher que adoece no topo não falhou. Ela foi ensinada a ignorar a si mesma até não conseguir mais fingir que estava bem.

Os dados indicam a existência de um padrão. Muitas mulheres em posições de liderança relatam ter sido socializadas a priorizar responsabilidades externas em detrimento do autocuidado, o que pode gerar impactos ao longo da trajetória profissional. Nessa perspectiva, felicidade corporativa deixa de ser apenas uma iniciativa de RH e passa a ser considerada um indicador de gestão.

Os dados indicam que ainda há desafios na forma como as organizações estruturam e sustentam a presença de mulheres em cargos de alta liderança. Nesse contexto, a NR-1 surge como uma resposta regulatória ao aumento das discussões sobre riscos psicossociais e saúde mental no trabalho. Para além do cumprimento da norma, há a importância de revisar modelos de gestão, de modo que o desempenho esteja acompanhado de condições adequadas de suporte, saúde e sustentabilidade para as lideranças.

A saúde emocional das mulheres na liderança é um reflexo direto da saúde das organizações. Quando elas adoecem no topo, isso revela falhas sistêmicas. Por isso, a pergunta que as empresas precisam fazer não é apenas se essas mulheres conseguem chegar à liderança, mas como garantir que permaneçam saudáveis enquanto lideram. Afinal, felicidade é proteção, sustentabilidade e, muitas vezes, preservação da própria vida.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Nem toda empresa precisa de um C-level

Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Hiperconectados, solitários e irrelevantes?

Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

A próxima revolução será humana?

Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

O que não pode mudar quando tudo está mudando?

Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

O Brasil no centro da próxima revolução agrícola: por dentro do caso da Biotrop

A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Direito, Regulação & Compliance
27 de julho de 2026 14H00
Após anos de perda de passageiros e desafios financeiros, o transporte coletivo brasileiro ganha um novo marco regulatório que busca ampliar fontes de financiamento, reduzir desequilíbrios tarifários e criar condições para mais investimentos em qualidade, eficiência e experiência do usuário.

Vinicius Ladeira - Diretor Adjunto Nacional do SEST SENAT

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
27 de julho de 2026 08H00
Enquanto o debate sobre inteligência artificial continua concentrado em modelos, automação e produtividade, uma outra transformação acontece nos bastidores: a tensão gerada entre a democratização e a concentração de poder que pode definir a próxima fase da economia global.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

8 minutos min de leitura
Liderança
26 de julho de 2026 13H00
Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional - planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente - são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

Caio Fontenelle - Fundador dos restaurantes Figueira, Oliv e Pepper Jack

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de julho de 2026 07H00
A IA pode economizar horas em atividades operacionais, mas seu maior valor talvez esteja em outro lugar: ampliar perspectivas, conectar ideias e elevar a qualidade das decisões. O desafio é entender quando estamos ganhando velocidade e quando estamos construindo algo melhor.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
25 de julho de 2026 14H00
Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

3 minutos min de leitura
Liderança
25 de julho de 2026 08H00
Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Chieko Aoki - Fundadora e presidente da Blue Tree Hotels

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, User Experience, UX
24 de julho de 2026 14H00
Impulsionado pelo avanço do wellness e pela busca crescente por experiências com significado, o setor de turismo enfrenta um novo desafio: deixar de vender viagens para entregar transformação, criando vínculos de longo prazo e novas vantagens competitivas.

João Biancardi - Diretor de Marketing e Experiencia do Cliente do Grupo Mabu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
24 de julho de 2026 08H00
A preocupação com dinheiro já impacta produtividade, saúde mental e permanência no emprego. Diante desse cenário, organizações começam a repensar seu papel e a buscar formas de apoiar colaboradores sem invadir sua autonomia financeira.

Vivian Pardini - Coordenadora de compliance da Biz

4 minutos min de leitura
Marketing, Estratégia
23 de julho de 2026 14H00
O avanço dos vídeos curtos, dos criadores digitais e da inteligência artificial transformou a forma como consumimos informação e entretenimento. O desafio das empresas agora não é apenas alcançar audiências, mas construir confiança, interpretar comportamentos e criar experiências capazes de permanecer na memória das pessoas.

Ronaldo Fragoso - Chief Growth Officer da Deloitte e Carlos Eduardo Fogarolli - Sócio-líder da indústria de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações da Deloitte

3 minutos min de leitura
Comunicação, Liderança
23 de julho de 2026 08H00
A autenticidade virou commodity quando todo mundo aprendeu a soar autêntico do mesmo jeito. Este artigo explora como voz, vivência e consistência podem se tornar os principais diferenciais para líderes que desejam construir influência e confiança de forma genuína.

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo