Entrevista

Finanças: uma disrupção histórica se consolida

As finanças descentralizadas – ou DeFi – são uma disrupção que se consolida e deve alterar formas de pagamento, de consumo e as próprias relações entre os agentes do mercado: de consumidores a banqueiros, todos serão vistos como pares

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Imagine uma estrutura que difunde a democracia financeira, aumenta a inclusão, reduz pontos de dor dos consumidores e aumenta o crescimento econômico. Esta é a DeFi, sigla em inglês para finanças descentralizadas. O assunto foi o tema da conversa de dois especialistas, os professores de finanças Andreas Park, da University of Toronto e membro da Rotman School, e Campbell Harvey, da Duke University, que também é pesquisador associado do National Bureau of Economic Research e do FinHub, laboratório de inovação financeira da Rotman School, e coautor do livro DeFi and the Future of Finance (ainda sem tradução no Brasil).

### Pode explicar sua percepção do surgimento de um alicerce que levará à disrupção histórica da infraestrutura financeira?
Somos familiarizados com as principais características do tradicional sistema financeiro centralizado: bancos centrais controlam o suprimento de dinheiro; a maioria das transações financeiras é feita por intermediários, empréstimos são contratados por meio de instituições bancárias. As finanças descentralizadas, ou DeFi, procuram construir e combinar blocos de construção financeiros open-source para criar produtos que maximizem o valor para os usuários.

A DeFi cobrirá tudo: câmbio, poupança e até empréstimos. Envolve a “tokenização” – com a qual estou muito animado. Imagine, você vai ao mercado e, na hora de pagar, terá de fazer escolhas: sua carteira eletrônica pode incluir dólares canadenses e também tokens garantidos, por exemplo, por ouro ou ações da IBM. Você pode querer pagar com seu token de ouro, mas a loja não os aceita.
Automaticamente (e sem qualquer intervenção sua), sua carteira eletrônica encontra uma transação descentralizada, e a melhor taxa possível é determinada para converter seu token de ouro no que a loja preferir.

Os “tokens não fungíveis” (NFTs) também estão recebendo muita atenção da mídia e transformando o mundo da arte. A arte é um espaço historicamente dominado por intermediários poderosos, um obstáculo para que os artistas ganhem dinheiro. Com os NFTs, os artistas se conectam diretamente com os apreciadores da arte. É algo transformador para muitas indústrias, como jogos, ingressos, documentos legais, nomes de domínio e até moda.

É um ciclo que se fecha, porque as bolsas de valores começaram com o escambo, e o que descrevi agora também é escambo. Na verdade, não precisaremos carregar dinheiro no sentido tradicional; seu valor será representado por uma variedade de tokens que as pessoas poderão trocar.

### E o papel dos contratos inteligentes?
Um contrato inteligente (no inglês, smart contract) é um elemento crucial da infraestrutura DeFi. Ele pode criar e transformar dados ou tokens arbitrários no blockchain ao qual pertence, possibilitando que o usuário codifique regras para qualquer tipo de transação. Além das finanças, os smart contracts podem ser usados em jogos, administração de dados e supply chain.

Atualmente, o maior blockchain com capacidade de contratos inteligentes é o Ethereum. Pense em um computador gigante com muitas aplicações (os contratos inteligentes). Os usuários pagam uma “taxa de combustível” para cada transação, como um carro exige gasolina, que custa dinheiro. Cálculos simples, como enviar um ether (ETH), a criptomoeda nativa do Ethereum, exigem um trabalho mínimo para atualizar alguns saldos de contas e, portanto, têm uma pequena taxa, enquanto cálculos complexos, que exigem condições de verificação em vários contratos, precisam de mais “combustível” e, portanto, têm uma taxa maior.

Em termos de transparência, os contratos inteligentes oferecem um benefício imediato quando comparados aos sistemas financeiros centralizados: todas as partes envolvidas estão cientes da capitalização de suas contrapartes e podem ver como os fundos serão aplicados. Todos podem ler o contrato e concordar com os termos, eliminando ambiguidades. A transparência alivia substancialmente a ameaça de ônus legais e traz tranquilidade aos players menores que, no ambiente atual, podem sofrer abusos de contrapartes poderosas, ao atrasar ou até mesmo reter sua parte de um acordo financeiro. Sendo realista, consumidores médios não entenderão o código do contrato, mas podem se sentir seguros graças à natureza open-source da plataforma e à “sabedoria da multidão”. Com o tempo, muitas das cláusulas dos contratos tradicionais podem ser substituídas por contratos inteligentes.

### Além de transparência, você acredita que a DeFi resolve outras ineficiências das finanças centralizadas?
A DeFi pode fazer transações com alto volume de ativos que seriam uma carga enorme para uma empresa tradicional. Ela faz isso criando “dApps” (aplicativos descentralizados, na sigla em inglês), contratos inteligentes reutilizáveis projetados para executar uma operação financeira específica e disponíveis a qualquer usuário que busque esse tipo de serviço. Por exemplo, para executar uma opção de venda, independentemente do tamanho da transação.

Os usuários fazem tudo sozinhos dentro dos parâmetros do contrato inteligente e do blockchain em que o aplicativo está hospedado. Na DeFi baseada em Ethereum, os contratos podem ser usados por qualquer pessoa que pague uma “taxa do combustível” fixa, hoje em torno de US$ 3 para uma transferência e US$ 12 para um recurso dApp, como alavancagem de garantias. Uma vez implantados, esses contratos oferecem seu serviço continuamente com sobrecarga organizacional próxima de zero.
O fato é que as finanças tradicionais contêm camadas de ineficiência que removeram valor do consumidor médio. A eficiência da DeFi restaura esse valor.

### Quem deve estar atento a isso?
As novas tecnologias mais bem-sucedidas e escaláveis abordam problemas que as pessoas já têm. Para responder a isso, você só precisa pensar sobre os “pontos de dor” em nosso atual sistema: taxas de cartão de crédito, transferências eletrônicas lentas e taxas de câmbio desfavoráveis, para citar alguns. Esses atritos agem como um imposto e dificultam o crescimento econômico.

Um exemplo: você quer comprar ações. Atualmente, tem de enviar dinheiro para um corretor que executa a negociação para você. Transitar o dinheiro pelo sistema pode levar de dois a cinco dias. Com a DeFi, basta vincular sua carteira eletrônica a uma transação, e pronto. A DeFi reduzirá os custos e tornará as transações mais eficientes. Os economistas não concordam em muitas coisas, mas concordam que reduzir os custos de transação é bom para o crescimento econômico.

### Você acha que as grandes instituições financeiras adotarão as ferramentas DeFi e oferecerão esses serviços a um custo menor do que as startups?
Isso definitivamente pode acontecer; mas imagine tentar vender essa ideia para um grande banco? “Você só precisa gastar uma enorme quantia de dinheiro em tecnologia peer-to-peer para canibalizar os lucros que você já obtém em, digamos, transações de câmbio.” Os bancos perceberam há 20 anos que o que estavam fazendo não era sustentável. As fintechs reduzem custos e tornam o processo muito mais eficiente, mas só podem ir até certo ponto devido a uma arquitetura financeira centralizada. DeFi significa substituir tal arquitetura pela negociação direta peer-to-peer, para que comprador e vendedor obtenham o melhor preço possível. Caminhamos para isso, e acho que bancos e outros agentes sabem disso.

Elementos-chave da defi

A DeFi está baseada em dois elementos cada vez mais conhecidos: o blockchain e as criptomoedas. Campbell Harvey definiu ambos:

BLOCKCHAINS: são protocolos de software que permitem que várias partes operem de acordo com premissas e dados compartilhados, sem qualquer motivo institucional para confiar umas nas outras. Os dados podem ser desde informações de destino dos itens de uma cadeia de suprimentos até saldos de contas para um token específico. Suas atualizações são empacotadas em “blocos” e são “encadeadas” criptograficamente para permitir uma auditoria do histórico anterior. O que possibilita os blockchains são os protocolos de consenso – conjuntos de regras que determinam quais tipos de blocos podem se tornar parte da cadeia e, portanto, a “verdade”.

CRIPTOMOEDAS: são a aplicação mais popular da tecnologia blockchain. Uma criptomoeda é um token, geralmente escasso, criptograficamente protegido e transferido. Normalmente, os objetos digitais são facilmente copiados, mas a escassez do token é o que garante seu valor. Uma única conta não pode “gastar” duas vezes seus tokens porque o ledger (livro-razão) mantém uma auditoria do saldo sempre disponível, para que a transação descoberta não passe pela verificação.

### A Coinbase já tem uma margem de lucro maior em ordem de grandeza do que NYSE {a bolsa de Nova York} ou Nasdaq. Já deve estar consumindo a receita de corretagem de investidores de varejo…
É verdade, e não é surpresa, porque o investidor de varejo foi reempoderado. E não apenas no espaço criptográfico. Algumas fintechs facilitaram o processo de aquisição de ações para os investidores de varejo. Mesmo com apenas $100, você pode ser ativo no mercado.

Com a DeFi, todos são iguais. É uma democracia onde não há “cliente”, “banqueiro” ou “corretor”. Todos são pares, e não importa se você é grande ou pequeno. A Coinbase é a empresa de maior sucesso no espaço criptográfico, mas devo enfatizar que é uma corretora centralizada – e, como tal, provavelmente sofrerá intensa concorrência de corretoras descentralizadas.

### Lembra um pouco o Velho Oeste. Para você, como a regulação vai evoluir?
Até que esse espaço seja regulado, continuaremos a ver esquemas “pump and dumps”, nos quais os preços de um token específico são inflados artificialmente para obter maior lucro na venda. Já vimos isso acontecendo. Mas um ambiente regulatório muito severo pode aniquilar a inovação, espantando os inovadores para outros lugares. Não queremos um cenário em que alguém tenha uma grande ideia nova, mas, com medo da regulação no Canadá ou nos EUA, decida levar o negócio para as Ilhas Cayman. É uma busca por equilíbrio: reguladores existem para proteger as pessoas; mas não a ponto de reduzir todo o risco. Se é o que queremos, todos podemos investir em letras do Tesouro. E nós sabemos bem qual é o retorno!

Basta pensar em todas as possibilidades: estamos falando de democracia financeira, aumento da inclusão, redução de atritos e aumento do crescimento econômico – todos altamente relevantes. Sufocar a inovação com regulações muito rígidas seria um grande erro.

### Quais os principais riscos da DeFi?
Como toda as tecnologias inovadoras, a DeFi envolve risco. Um dos pontos de risco envolve os contratos inteligentes. São dois os principais riscos: um erro no código ou um ataque com foco em vulnerabilidade no código. Na última década, produtos focados em criptomoedas foram hackeados repetidamente. Para ser justo, muitos ocorreram por más práticas de segurança de empresas centralizadas. Porém a DeFi é construída em código open-source, o que dá aos invasores um campo de atuação muito maior do que nas instituições financeiras tradicionais. Não é preciso invadir, porque tudo é aberto e transparente.

Para quem tem preocupações apocalípticas, saiba que seria extremamente difícil que um player ou país acumulasse poder de rede necessário para inviabilizar as blockchains mais usadas, como Bitcoin e Ethereum. Mas as blockchains públicas são sistemas abertos: uma vez implementado, qualquer pessoa pode visualizar o código e interagir com ele. Casos recentes demonstraram a fragilidade da programação de contratos inteligentes, mas empresas de auditoria estão surgindo para lidar com essa lacuna.

### Além de democratizar as finanças, você acredita que a DeFi é uma “tecnologia de inclusão”. De que forma?
O fato de o sistema financeiro não ser muito inclusivo agora é um problema particularmente importante para mim. Espero que, à medida que as plataformas de contratos inteligentes migrarem para aplicações mais escaláveis, um volume maior de usuários vai adotá-los, mitigando outra das grandes falhas da DeFi: o acesso limitado.

A DeFi oferece acesso direto a serviços financeiros a grandes grupos desassistidos. E o acesso a novos produtos é de importância crucial para evitar o aumento das diferenças de riqueza. O impacto na economia global também deve ser muito positivo.

### Qual seria seu conselho para jovens profissionais: aprender mais sobre DeFi e buscar integrá-la em uma instituição existente ou ingressar (ou criar) uma startup?
Se pretende alocar capital (financeiro ou humano, próprio ou de outra pessoa), primeiro deve entender o assunto — e isso vale para qualquer investimento. Antes de tudo, dedique tempo para entender como a DeFi funciona e reconheça que vai continuar aprendendo, pois é um campo que muda a cada dia.

A maioria de meus alunos não vai para startups imediatamente porque têm dívidas pesadas para pagar. Mas eu sempre digo a eles: desde o primeiro dia de trabalho, vocês precisam pensar em uma estratégia para fazer a transição. Quando começam a trabalhar em instituições tradicionais, eles veem em primeira mão como a mudança é difícil.

Com as startups, mudar é muito natural, porque elas devem pivotar continuamente. Obviamente, há uma probabilidade maior de fracasso nas startups, mas você vai interagir com pessoas realmente inovadoras, cheias de energia e competentes. Conexões que possibilitam uma transição mais rápida para sua próxima oportunidade.

Lembre-se, o fracasso é uma experiência muito importante para os empresários – se aprendermos com ele. Ter um currículo com algumas empresas falidas geralmente aumenta a probabilidade de que a próxima seja realmente ótima — talvez até um unicórnio. Basicamente, minha mensagem para os jovens profissionais é muito simples: seja um disruptor, não um “disruptado”.

*© Rotman Management
Editado com autorização da Rotman School of Management, ligada à University of Toronto. Todos os direitos reservados.*

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