Estratégia
5 minutos min de leitura

Fornecedores, riscos e resultados: a nova equação da competitividade

Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência - e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.
Vice-presidente Comercial da C-MORE Brasil e América Latina, possui mais de 20 anos de experiência em inovação e crescimento nos setores de finanças, tecnologia e sustentabilidade. Veneziani atuou como Global Director de Business Development na EarthDaily Analytics, liderando soluções de seguro paramétrico e monitoramento de riscos climáticos baseados em tecnologias de observação da Terra. Passou também por Planet Labs, Accenture, Zurich Insurance, Itaú Unibanco, McKinsey & Company e EMBRAER, com foco em transformação digital, estratégia de clientes e desenvolvimento de novos negócios.

Compartilhar:

Durante décadas, a gestão das cadeias de fornecimento foi tratada como uma função essencialmente operacional, orientada quase exclusivamente pelo custo. Quanto mais barato, melhor. Quanto mais eficiente, mais competitivo. Essa lógica funcionou enquanto o ambiente global era relativamente estável e previsível. Hoje, esse cenário ficou para trás.

Nos últimos cinco anos, pandemias, conflitos armados, tensões geopolíticas, eventos climáticos extremos e o avanço das regulações ESG transformaram profundamente o papel das cadeias globais de suprimentos. Elas deixaram de ser apenas um elo operacional para se tornar um dos principais vetores de risco – e, ao mesmo tempo, um dos maiores diferenciais competitivos das empresas. De acordo com o Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, os riscos ambientais e geopolíticos dominam as ameaças de médio e longo prazo, com impactos diretos sobre logística, disponibilidade de insumos e continuidade dos negócios.

Os dados reforçam essa mudança de paradigma. Em 2024, 80% das organizações globais enfrentaram ao menos uma ruptura relevante em suas cadeias de fornecimento. Um levantamento da BCG mostra que apenas 10% das empresas estão realmente preparadas para lidar com essas interrupções. Já a McKinsey aponta que 82% das companhias sentem os efeitos das novas tarifas comerciais, índice que, em setores como bens de consumo, representa até 43% da atividade total da cadeia. Esses números revelam um descompasso perigoso entre a dimensão dos riscos e a capacidade das empresas de administrá-los.

Ao mesmo tempo, o mapa da produção global está sendo redesenhado. Movimentos como nearshoring, reshoring e friendshoring – que buscam aproximar a produção geograficamente ou concentrá-la em países aliados – ganharam força após a pandemia e se intensificaram com o avanço do protecionismo comercial. Na América Latina, esse processo representa uma oportunidade histórica, mas também impõe desafios relevantes. Aproveitar esse momento exige uma maturidade em gestão de riscos que muitas empresas da região ainda não desenvolveram plenamente.

Esse contexto se torna ainda mais complexo quando se considera o impacto crescente dos eventos climáticos extremos. Em 2024, as temperaturas oceânicas atingiram níveis recordes, ampliando a frequência e a intensidade de fenômenos que afetam portos, rodovias, colheitas e centros industriais. As cadeias de suprimentos passaram a conviver com interrupções simultâneas em diferentes regiões, o que torna a previsibilidade cada vez mais rara.

No campo regulatório, a pressão é igualmente crescente. A legislação europeia de due diligence, que obriga empresas a mapear riscos socioambientais em toda a cadeia de fornecedores, já impacta diretamente exportadores brasileiros. A lei alemã de diligência empresarial e a diretiva europeia de sustentabilidade corporativa são exemplos de uma tendência irreversível. Fornecedores que não comprovarem conformidade regulatória e boas práticas ESG tendem a perder acesso a mercados, contratos e fontes de financiamento. A gestão da cadeia, portanto, passou a ser também uma questão de sobrevivência comercial.

Nesse ambiente, um dos riscos mais relevantes permanece invisível para muitas organizações: a falta de visibilidade sobre os fornecedores indiretos. A maioria das empresas conhece razoavelmente bem seus parceiros diretos, os chamados fornecedores de primeiro nível. No entanto, os problemas mais graves costumam surgir nos níveis seguintes, entre fornecedores localizados em regiões instáveis, sujeitos a práticas trabalhistas inadequadas ou dependentes de insumos altamente concentrados.

A fragmentação de dados, a baixa integração entre áreas como compras, jurídico, compliance e ESG, e a ausência de plataformas tecnológicas robustas fazem com que muitas organizações operem com um mapa incompleto de suas vulnerabilidades. Essa lacuna tem um custo elevado. Falhas de conformidade podem resultar em sanções, bloqueios comerciais, litígios e danos reputacionais difíceis de reverter. Além disso, investidores institucionais, cada vez mais orientados por critérios ESG, já incorporam a qualidade da gestão de fornecedores em suas análises de risco, impactando diretamente o custo de capital das empresas.

A boa notícia é que a tecnologia disponível hoje permite um nível de gestão de riscos impensável há uma década. Plataformas de inteligência analítica possibilitam o monitoramento contínuo de fornecedores a partir de indicadores financeiros, regulatórios, socioambientais e geopolíticos, em tempo real. Processos de due diligence que antes levavam semanas podem ser automatizados. Alertas sobre mudanças de risco em regiões críticas chegam antes que as rupturas ocorram, permitindo respostas mais rápidas e estratégicas.

Não por acaso, o mercado global de gestão de riscos em cadeias de fornecimento deve superar US$ 5 bilhões em 2026, com crescimento anual projetado de 13% até 2031. Esse movimento reflete não apenas o aumento da percepção de risco, mas o reconhecimento de que visibilidade, governança e controle são ativos estratégicos, e não simples custos operacionais.

Empresas que investem nessa capacidade tendem a se destacar em licitações globais, preservar acesso a mercados regulados, atrair parceiros mais qualificados e reduzir a exposição a crises. Para concorrentes menos preparados, esses mesmos eventos se tornam fatores de ruptura. A diferença entre um cenário e outro está, cada vez mais, na qualidade da gestão da cadeia.

O futuro da competitividade não será definido apenas por quem produz com menor custo, mas por quem opera com mais inteligência, transparência e resiliência. Cadeias frágeis são passivos estratégicos. Cadeias inteligentes são ativos que sustentam crescimento, reputação e valor no longo prazo.

Para setores como indústria, agronegócio, energia, varejo e tecnologia – especialmente no Brasil, em um momento de busca por maior inserção nas cadeias globais -, a gestão proativa dos riscos de fornecimento deixou de ser uma escolha para se tornar um imperativo de governança. Trata-se de um elemento central da estratégia empresarial.

Nesse contexto, a C-MORE atua como parceira estratégica de organizações que precisam transformar dados em decisões, vulnerabilidades em planos de ação e complexidade regulatória em conformidade. Porque, no novo cenário global, quem não enxerga os riscos da própria cadeia não está apenas mal gerenciado. Está competindo com os olhos fechados.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Parte IV – Futuros em prompts: como disputar e construir realidade

Este é o quarto texto da série “Como promptar a realidade” e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência – mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

A era do “AI theater”: estamos fingindo transformação?

Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater – quando a inteligência artificial vira espetáculo – e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Parte III – APIs sociotécnicas versus malwares mentais… e como recuperar a soberania imaginal

Este é o terceiro texto da série “Como promptar a realidade”. Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado – e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita – sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Parte II – Hyperstition: a tecitura ficcional da realidade

Este é o segundo artigo da série “Como promptar a realidade” e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia – reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Bem-estar & saúde
19 de abril de 2026 10H00
Ao tornar os riscos psicossociais auditáveis e mensuráveis, a norma força as empresas a profissionalizarem a gestão da saúde mental e a conectá-la, de vez, aos resultados do negócio.

Paulo Bittencourt - CEO do Plano Brasil Saúde

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
18 de abril de 2026 09H00
Este é o quarto texto da série "Como promptar a realidade" e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência - mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

27 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
17 de abril de 2026 15H00
Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater - quando a inteligência artificial vira espetáculo - e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
17 de abril de 2026 09H00
Este é o terceiro texto da série "Como promptar a realidade". Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado - e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University.

11 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
16 de abril de 2026 14H00
Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita - sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Marcos Ráyol - CTO do Lance!

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Foresight
16 de abril de 2026 09H00
Este é o segundo artigo da série "Como promptar a realidade" e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia - reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

13 minutos min de leitura
Liderança
15 de abril de 2026 17H00
Se liderar ainda é, para você, dar respostas e controlar processos, este artigo não é confortável. Liderança criativa começa quando o líder troca certezas por perguntas e controle por confiança.

Clarissa Almeida - Head de RH da Yank Solutions

2 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Foresight, Tecnologia & inteligencia artificial
15 de abril de 2026 08H00
Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento - e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Chico Araújo - Diretor Executivo do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), cofundador do The Long Game Futures. e Global Expert da Singularity University

23 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de abril de 2026 18H00
Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais- introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Marta Ferreira

4 minutos min de leitura
Liderança
14 de abril de 2026 14H00
Este é o primeiro artigo da nova coluna "Liderança & Aikidô" e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...