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Fornecedores, riscos e resultados: a nova equação da competitividade

Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência - e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.
Vice-presidente Comercial da C-MORE Brasil e América Latina, possui mais de 20 anos de experiência em inovação e crescimento nos setores de finanças, tecnologia e sustentabilidade. Veneziani atuou como Global Director de Business Development na EarthDaily Analytics, liderando soluções de seguro paramétrico e monitoramento de riscos climáticos baseados em tecnologias de observação da Terra. Passou também por Planet Labs, Accenture, Zurich Insurance, Itaú Unibanco, McKinsey & Company e EMBRAER, com foco em transformação digital, estratégia de clientes e desenvolvimento de novos negócios.

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Durante décadas, a gestão das cadeias de fornecimento foi tratada como uma função essencialmente operacional, orientada quase exclusivamente pelo custo. Quanto mais barato, melhor. Quanto mais eficiente, mais competitivo. Essa lógica funcionou enquanto o ambiente global era relativamente estável e previsível. Hoje, esse cenário ficou para trás.

Nos últimos cinco anos, pandemias, conflitos armados, tensões geopolíticas, eventos climáticos extremos e o avanço das regulações ESG transformaram profundamente o papel das cadeias globais de suprimentos. Elas deixaram de ser apenas um elo operacional para se tornar um dos principais vetores de risco – e, ao mesmo tempo, um dos maiores diferenciais competitivos das empresas. De acordo com o Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, os riscos ambientais e geopolíticos dominam as ameaças de médio e longo prazo, com impactos diretos sobre logística, disponibilidade de insumos e continuidade dos negócios.

Os dados reforçam essa mudança de paradigma. Em 2024, 80% das organizações globais enfrentaram ao menos uma ruptura relevante em suas cadeias de fornecimento. Um levantamento da BCG mostra que apenas 10% das empresas estão realmente preparadas para lidar com essas interrupções. Já a McKinsey aponta que 82% das companhias sentem os efeitos das novas tarifas comerciais, índice que, em setores como bens de consumo, representa até 43% da atividade total da cadeia. Esses números revelam um descompasso perigoso entre a dimensão dos riscos e a capacidade das empresas de administrá-los.

Ao mesmo tempo, o mapa da produção global está sendo redesenhado. Movimentos como nearshoring, reshoring e friendshoring – que buscam aproximar a produção geograficamente ou concentrá-la em países aliados – ganharam força após a pandemia e se intensificaram com o avanço do protecionismo comercial. Na América Latina, esse processo representa uma oportunidade histórica, mas também impõe desafios relevantes. Aproveitar esse momento exige uma maturidade em gestão de riscos que muitas empresas da região ainda não desenvolveram plenamente.

Esse contexto se torna ainda mais complexo quando se considera o impacto crescente dos eventos climáticos extremos. Em 2024, as temperaturas oceânicas atingiram níveis recordes, ampliando a frequência e a intensidade de fenômenos que afetam portos, rodovias, colheitas e centros industriais. As cadeias de suprimentos passaram a conviver com interrupções simultâneas em diferentes regiões, o que torna a previsibilidade cada vez mais rara.

No campo regulatório, a pressão é igualmente crescente. A legislação europeia de due diligence, que obriga empresas a mapear riscos socioambientais em toda a cadeia de fornecedores, já impacta diretamente exportadores brasileiros. A lei alemã de diligência empresarial e a diretiva europeia de sustentabilidade corporativa são exemplos de uma tendência irreversível. Fornecedores que não comprovarem conformidade regulatória e boas práticas ESG tendem a perder acesso a mercados, contratos e fontes de financiamento. A gestão da cadeia, portanto, passou a ser também uma questão de sobrevivência comercial.

Nesse ambiente, um dos riscos mais relevantes permanece invisível para muitas organizações: a falta de visibilidade sobre os fornecedores indiretos. A maioria das empresas conhece razoavelmente bem seus parceiros diretos, os chamados fornecedores de primeiro nível. No entanto, os problemas mais graves costumam surgir nos níveis seguintes, entre fornecedores localizados em regiões instáveis, sujeitos a práticas trabalhistas inadequadas ou dependentes de insumos altamente concentrados.

A fragmentação de dados, a baixa integração entre áreas como compras, jurídico, compliance e ESG, e a ausência de plataformas tecnológicas robustas fazem com que muitas organizações operem com um mapa incompleto de suas vulnerabilidades. Essa lacuna tem um custo elevado. Falhas de conformidade podem resultar em sanções, bloqueios comerciais, litígios e danos reputacionais difíceis de reverter. Além disso, investidores institucionais, cada vez mais orientados por critérios ESG, já incorporam a qualidade da gestão de fornecedores em suas análises de risco, impactando diretamente o custo de capital das empresas.

A boa notícia é que a tecnologia disponível hoje permite um nível de gestão de riscos impensável há uma década. Plataformas de inteligência analítica possibilitam o monitoramento contínuo de fornecedores a partir de indicadores financeiros, regulatórios, socioambientais e geopolíticos, em tempo real. Processos de due diligence que antes levavam semanas podem ser automatizados. Alertas sobre mudanças de risco em regiões críticas chegam antes que as rupturas ocorram, permitindo respostas mais rápidas e estratégicas.

Não por acaso, o mercado global de gestão de riscos em cadeias de fornecimento deve superar US$ 5 bilhões em 2026, com crescimento anual projetado de 13% até 2031. Esse movimento reflete não apenas o aumento da percepção de risco, mas o reconhecimento de que visibilidade, governança e controle são ativos estratégicos, e não simples custos operacionais.

Empresas que investem nessa capacidade tendem a se destacar em licitações globais, preservar acesso a mercados regulados, atrair parceiros mais qualificados e reduzir a exposição a crises. Para concorrentes menos preparados, esses mesmos eventos se tornam fatores de ruptura. A diferença entre um cenário e outro está, cada vez mais, na qualidade da gestão da cadeia.

O futuro da competitividade não será definido apenas por quem produz com menor custo, mas por quem opera com mais inteligência, transparência e resiliência. Cadeias frágeis são passivos estratégicos. Cadeias inteligentes são ativos que sustentam crescimento, reputação e valor no longo prazo.

Para setores como indústria, agronegócio, energia, varejo e tecnologia – especialmente no Brasil, em um momento de busca por maior inserção nas cadeias globais -, a gestão proativa dos riscos de fornecimento deixou de ser uma escolha para se tornar um imperativo de governança. Trata-se de um elemento central da estratégia empresarial.

Nesse contexto, a C-MORE atua como parceira estratégica de organizações que precisam transformar dados em decisões, vulnerabilidades em planos de ação e complexidade regulatória em conformidade. Porque, no novo cenário global, quem não enxerga os riscos da própria cadeia não está apenas mal gerenciado. Está competindo com os olhos fechados.

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