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Fragmentos da longevidade e etarismo na sociedade

Reflexões sobre limites etários nas empresas e sociedade: como reconhecer a necessidade de atualizar o nosso software

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O Brasil é um país jovem. Este vem sendo o nosso mantra e acreditamos nele, por mais que tenhamos provas que atestem o equívoco dessa afirmação. Explicar nossas falhas de processamento da realidade com a questão do envelhecimento no país exige múltiplos esforços e, para estruturar um caminho rumo a uma maior compreensão desse tema, vou utilizar um caleidoscópio como metáfora.

O caleidoscópio é uma estrutura com superfícies refletoras formando triângulos ou outras formas geométricas. Na abertura de uma extremidade é colocado um recipiente transparente ou translúcido com objetos coloridos e na outra, um orifício de observação, de forma que, ao girar a estrutura, surgem múltiplas reflexões e padrões simétricos coloridos. Acredito ser este um recurso interessante para articularmos imagens de um cenário em constante movimento e enxergarmos partes de suas complexidades.

Caleidoscópio

Impactos das mudanças de nossa Pirâmide Etária

O primeiro fragmento de nosso instrumento de ótica recreativa mostra uma imagem relacionada às mudanças de nossa pirâmide etária trazidas pelo último censo do IBGE onde se destacam a queda nos índices de natalidade, mortalidade e envelhecimento populacional, com proporção maior de mulheres do que de homens (51% de mulheres contra 49% de homens). Estamos vivenciando um dos processos mais intensos e rápidos do mundo de envelhecimento, com um Índice de Envelhecimento (IE) ao ano de 2.100 de 308 idosos para cada 100 jovens (o IE mundial será de 162 idosos para cada 100 jovens): no ano de 2.077, de acordo com as projeções, teremos no Brasil mais idosos acima de 80 anos do que jovens abaixo de 14 anos.

População Etária no Brasil

Fontes: Censo Demográfico 2022: População por idade e sexo – Resultados do universo; IBGE – Censo Demográfico 2010.

No fragmento ao lado deste que analisamos, notamos uma sociedade envelhecida, com questões essenciais não resolvidas, tais como o saneamento básico e a educação. Esforços conjuntos entre governo, empresas e sociedade poderiam acelerar o processo de enriquecimento para que a adaptação a esta nova realidade demográfica seja menos pungente.

Bônus Demográfico: Ainda dá tempo de aproveitar?

Há uma imagem interessante agrupada neste enquadramento: o bônus demográfico. O bônus ocorre quando há, no país, um maior número de pessoas em idade economicamente ativa do que idosos e crianças (pessoas em idade economicamente inativa) e nosso caleidoscópio mostra que ainda temos uma pequena fração de tempo para semear.

Uma nova figura aponta para uma destas oportunidades , ligada a incentivos governamentais para questões econômico-financeiras, a exemplo da China da década de 80, que tinha uma renda per capita 17 vezes menor que o Brasil. Com a elevação das taxas de poupança e investimento, este país possui agora um rendimento médio 25% superior ao Brasil e mantém taxas de poupança e investimentos acima de 40%. Por aqui ainda não conseguimos superar as baixas taxas de poupança e investimentos, permanecendo com 17,4% do Produto Interno Bruto (PIB) para a poupança e 18,7% do PIB para investimentos.

Outra imagem se delineia, com contornos mais difusos relacionados ao marco inicial da velhice no Brasil. O questionamento sobre a idade a partir da qual nos tornamos pessoas economicamente inativas e os motivos pelos quais isto acontece surgem neste caleidoscópio para instigar a nossa reflexão: manter as pessoas ocupadas por mais tempo seria também uma maneira de obtermos melhores resultados econômicos?

Ser idoso é ser improdutivo, mesmo aos 60 anos de idade?

Hoje no Brasil, somos oficialmente idosos aos 60 anos, marco etário que vem sendo questionado e difere de alguns outros países, com destaque para a Itália, onde uma pessoa passa a ser considerada idosa aos 75 anos de idade.

O debate sobre os custos e benefícios da elevação da faixa etária para que uma pessoa seja considerada idosa é polêmico. Se, por um lado, as diferenças sociais trazidas pelas intersecções de marcadores identitários como gênero, raça e classe social criam diferentes possibilidades em termos de expectativa de vida no Brasil, a manutenção do rótulo de “improdutividade” para as pessoas com mais de 60 anos deixa margem para dúvidas já que alguns dos benefícios sociais importantes requerem idade mínima de 65 anos para que o cidadão brasileiro possa usufruir deles.

Imagens imprecisas carregam subjetividades, dificuldades de consenso e maior complexidade de análise. Na esteira deste debate, aspectos que mesclam as necessidades de renda na velhice com suas dificuldades de obtenção através da exclusão de pessoas idosas (que não se sentem como tal) do mercado de trabalho e a elevação dos custos com a saúde.

Novas idosas: como escapar dos velhos preconceitos?

Ao girarmos nosso caleidoscópio novas figuras se aglutinam e percebemos fragmentos de retratos das novas idosas brasileiras. Não são estampas homogêneas, talvez porque a velhice não o seja.

Novas idosas: podemos comparar uma mulher de 60 anos a uma mulher com 60 anos na década de 30? Naquele período, a imagem feminina que prevalecia era o de mãe e dona de casa, aos 60 possivelmente avó, em geral com aparência um tanto envelhecida, assexuada e conformada com a própria invisibilidade.

O intercalamento de ilustrações coloridas de idosas dançando, namorando, se divertindo e se posicionando em arenas diversas com figuras acinzentadas de idosas lidando com a solidão, preconceitos, dificuldades financeiras e violência nos remete ao grande pano de fundo dos contrastes do envelhecimento dentro da nossa sociedade.

De um lado, mulheres que rejeitam rótulos e envelhecem à sua maneira, saindo de todos os armários que as aprisionavam. De outro, mulheres estigmatizadas e vítimas do etarismo.

Ao movimentar nosso caleidoscópio encontramos mais alguns fragmentos sobre o etarismo e suas implicações para as mulheres em uma sociedade em processo de negação do envelhecimento próprio.

O avanço do etarismo

A primeira formação que visualizamos aponta para a definição e incorporação do termo “etarismo” em nosso idioma. Também conhecida por “ageísmo” ou “idadismo”, a palavra ageism foi cunhada por Robert Butler, um dos pioneiros em pesquisas sobre envelhecimento para apontar atitudes e práticas preconceituosas frente à velhice.

Palmore (1999) ampliou o uso da expressão para “preconceito ou discriminação contra ou a favor de qualquer grupo etário” e, somente no final do ano de 2023, a palavra etarismo foi inserida oficialmente em nosso idioma pela Academia Brasileira de Letras, com uma definição mais próxima daquela indicada pelo segundo autor: preconceito ou discriminação contra uma pessoa por causa da sua idade, sendo cometida com mais frequência contra os idosos.

No desenho formado por nosso caleidoscópio, a contundente pesquisa realizada pela Organização Mundial de Saúde evidenciando que metade dos idosos no mundo é vítima de discriminação por idade (2021).

Crenças, sempre elas…

Ao ajustarmos o olhar à procura de uma compreensão mais ampla, identificamos vários estudos nacionais e internacionais evidenciando como grandes geradores do problema os estereótipos negativos relacionados ao envelhecimento. Acreditar que idosos teriam dificuldades de cognição, de capacidade de mudança ou potencial de aprendizado seriam exemplos destas crenças equivocadas.

Desenhos se formam com as crenças sobre envelhecimento e velhice infiltradas em várias áreas de nossa sociedade. Retratos pálidos de mulheres com aparência envelhecida e triste com roupas largas e beges se misturam a fotografias coloridas de jovens e felizes moças de corpo atlético com a pele lisa.
Na paleta da vida, a velhice se torna monocromática até perder a cor. Será esta a nossa morte simbólica?

Outras formas de Etarismo em nossa sociedade

Girando um pouquinho mais nosso instrumento enxergamos o etarismo limitando o consumo e autonomia financeira de idosos através de práticas discriminatórias em bancos, estabelecimentos comerciais e empresas de serviços através da redução de limites financeiros para uso, acesso negado a aluguéis, financiamentos e planos de saúde, o chamado “etarismo econômico” que impõe uma data de validade sobre as pessoas.

O etarismo no Mercado de Trabalho ocupa uma área grande em nosso caleidoscópio: nas empresas e fora delas, com destaque para quem possui uma ou mais intersecção de formas de exclusão. A experiência de quem vive o encontro de dois ou mais marcadores identitários é maior do que a simples soma destes preconceitos.

Vemos despontar nas imagens a representação de nossas crenças através de normas de idade que permeiam as práticas organizacionais revelando julgamentos ou expectativas sobre adequação ou desempenho de profissionais em função de suas faixas etárias. Surgem desenhos intrigantes de curvas normais iniciadas na juventude e interrompidas na meia idade, como representação de trajetórias profissionais dentro de empresas que desconsideram as mudanças da pirâmide etária brasileira.

As mulheres e a vergonha de envelhecer

Imagens de empreendedoras idosas sendo preteridas por sua aparência mesclam-se à vergonha que as mulheres têm de envelhecer. Ao fundo, a mídia, que insiste em valorizar e destacar a idade e atributos físicos (ou a falta deles), contribuindo para aumentar a síndrome da impostora que habita na mulher madura.

O que fazer para mudar esta realidade?

Um caleidoscópio pressupõe imagens coloridas e uma pitada de otimismo. Proponho vários giros rápidos, voltas inusitadas, rotas diferentes para nos apropriarmos dos conteúdos positivos que podem surgir a partir de novos movimentos e olhares.

Os novos idosos têm saúde e energia para mais do que a sociedade espera deles e delas. Modelos diferentes, mais flexíveis devem ser avaliados, mas esta necessidade esbarra na dificuldade que temos em repensar nossos conceitos.

Os recursos que usamos a fim proteger nossas crenças muitas vezes nos levam a argumentar e procurar apoio para nossas “verdades absolutas” sem avaliar se a base precisa de atualização. A longevidade e a mudança no perfil dos idosos são novas evidências que demandam novas abordagens no enfrentamento ao etarismo por parte das empresas e da sociedade.

O etarismo é o terceiro maior “ismo” do ocidente, menos conhecido que o racismo e sexismo, mas com o poder de abraçar os outros dois. Podemos escolher se vamos enfrentá-lo por convicção, constrangimento ou compliance.

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