Carreira, Cultura organizacional, Gestão de pessoas
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Gerontologia corporativa: uma nova área emerge nas empresas

A longevidade deixou de ser apenas um dado demográfico para se tornar questão de governança
Fran Winandy é psicóloga, com MBA em RH e mestrado em administração de empresas com foco em diversidade. Também é professora de cursos de pós-graduação e pesquisadora na área de diversidade etária e etarismo. Além de palestrante e consultora em programas de diversidade etária, inovação intergeracional, educação para a longevidade e transição de carreira, referência no tema etarismo.

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Se o seu conselho de administração ainda trata o envelhecimento da força de trabalho como uma pauta exclusiva da área de recursos humanos, sua empresa está exposta a um risco financeiro silencioso, mas de alto impacto. Os números do mercado não deixam margem para dúvidas: segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até 2060, um em cada quatro brasileiros terá 65 anos ou mais. Globalmente, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) alerta que a força de trabalho multigeracional já é a nova realidade corporativa, exigindo adaptação imediata das estruturas de governança e gestão.

No entanto, a longevidade não deve ser lida apenas como uma métrica de risco: ela é, fundamentalmente, uma alavanca de valor subutilizada. Estudos empíricos recentes demonstram que a diversidade etária, quando intencionalmente gerenciada, pode impactar positivamente a performance organizacional em até 30%.

Ignorar esse capital estratégico pode custar caro. A saída não planejada de profissionais 50+ representa uma fuga drástica de memória institucional, rede de contatos e capacidade de julgamento complexo. É uma perda de inteligência de negócios que afeta diretamente os resultados e o valor da marca empregadora.

É exatamente para responder a esse cenário de urgência e oportunidade que emerge a “gerontologia corporativa“. Muito além de políticas de inclusão, trata-se da aplicação rigorosa da ciência do envelhecimento à gestão, à liderança e à governança corporativa.

Envelhecimento nas reuniões do board

Historicamente, o envelhecimento foi relegado a discussões sobre transição de carreira ou previdência. Hoje, ele exige assento nas reuniões de conselho de administração. Quando uma organização não compreende como a demografia afeta sua cadeia de valor, ela falha em seu dever fiduciário de garantir a perenidade do negócio.

A longevidade influencia sucessão de lideranças, transferência de conhecimento, inovação, produtividade, gestão de riscos, saúde organizacional e sustentabilidade do negócio.

Quando uma empresa perde profissionais experientes sem capturar seu conhecimento crítico, enfrenta um problema de governança. Quando carreiras são desenhadas para durar 30 anos em um mundo em que poderão durar 50, existe um desafio estratégico. Quando o etarismo afasta talentos qualificados em um cenário de escassez de mão de obra, o impacto vai além da inclusão e afeta diretamente a competitividade.

O que dizem os estudos internacionais

Uma importante contribuição para essa reflexão vem do artigo  Time for Corporate Gerontology. Ao revisar mais de duas décadas de pesquisas sobre envelhecimento e organizações, os autores chegaram a uma constatação curiosa: as empresas exercem influência crescente sobre a forma como as pessoas envelhecem, mas esse papel ainda recebe pouca atenção da literatura especializada.

A observação faz sentido. Hoje, as organizações influenciam diretamente aspectos centrais da vida adulta, desde oportunidades de desenvolvimento e segurança financeira até condições de saúde, empregabilidade e permanência no mercado de trabalho. Em outras palavras, elas não apenas convivem com o envelhecimento de seus profissionais; também participam ativamente da forma como esse envelhecimento acontece.

Ainda assim, a maior parte das pesquisas continua focada em entender como o envelhecimento impacta as empresas. Muito menos atenção é dedicada à pergunta inversa: como as empresas impactam o envelhecimento de seus profissionais? É justamente nessa lacuna que a Gerontologia Corporativa encontra uma de suas contribuições mais relevantes.

Essa mudança de perspectiva desloca o debate para um terreno pouco explorado pela gestão. Se as organizações influenciam como as pessoas aprendem, trabalham, cuidam da saúde, desenvolvem suas carreiras e permanecem economicamente ativas, então elas também influenciam a forma como essas pessoas envelhecem.

Ambientes que promovem aprendizagem contínua, autonomia, mobilidade e colaboração entre gerações podem ampliar a longevidade produtiva. Já culturas marcadas por etarismo, exclusão e obsolescência precoce de carreiras tendem a produzir o efeito contrário.

A questão, portanto, deixa de ser apenas como gerir uma força de trabalho que envelhece. Passa a ser como construir organizações que contribuam para trajetórias profissionais mais longas, sustentáveis e produtivas.

O capital de experiência e a métrica do ROEx (retorno sobre o repertório acumulado)

Se o conhecimento técnico é tratado pelas empresas como um ativo estratégico, a experiência acumulada também deve ser contabilizada no balanço intangível da organização. É aqui que introduzimos o conceito de ROEx (sigla em inglês para retorno sobre o repertório acumulado),uma métrica para avaliar, gerenciar e rentabilizar o capital estratégico que a senioridade traz para o negócio.

Para a alta liderança, o ROEx procura tornar visível um ativo frequentemente ignorado pelos sistemas tradicionais de mensuração organizacional: o valor econômico e estratégico da experiência acumulada. Pense no cenário prático: a saída não planejada de um profissional 50+ raramente é apenas uma vaga aberta. Ela representa uma “fuga de capital estratégico” composta por três elementos difíceis de precificar e lentos para repor:

  1. Memória organizacional: A capacidade de compreender profundamente por que determinadas decisões fracassaram no passado, evitando que erros custosos se repitam.
  2. Rede de contatos (Capital Social): Relacionamentos de confiança construídos ao longo de décadas com clientes, fornecedores e stakeholders-chave.
  3. Capacidade de julgamento complexo: A habilidade de tomar decisões em cenários de alta ambiguidade, algo que algoritmos e profissionais juniores ainda não dominam.

Quando a empresa não possui uma estratégia de Gerontologia Corporativa para reter ou transferir esse capital, ela sofre um prejuízo duplo: arca com o alto custo de recrutamento e treinamento de substitutos e perde a inteligência de negócios que mantinha a engrenagem rodando com eficiência.

O ROEx, portanto, não é uma métrica de RH. É um indicador de governança que responde a uma pergunta central para o conselho e alta liderança:

– Qual é o retorno financeiro e estratégico que estamos extraindo do repertório acumulado da nossa força de trabalho?

5 PERGUNTAS QUE TODO CONSELHO DEVE FAZER
1. Estamos preparados para operar em uma força de trabalho mais longeva?
2. Como medimos e protegemos nosso capital de experiência?
3. Quais conhecimentos críticos corremos o risco de perder nos próximos cinco anos?
4. Nossas políticas de desenvolvimento contemplam carreiras mais longas?
5. O envelhecimento está presente em nossas discussões estratégicas ou segue restrito ao RH?

O etarismo na matriz de risco (ESG e compliance)

O etarismo costuma ser tratado como uma questão de diversidade e inclusão. Essa abordagem é necessária, mas insuficiente. Ao restringir oportunidades com base na idade, organizações não apenas criam riscos reputacionais e legais. Também comprometem sua capacidade de reter conhecimento crítico, formar sucessores e construir equipes capazes de lidar com problemas complexos em ambientes de incerteza.

Na linguagem da governança, o etarismo é uma falha crítica de compliance e uma lacuna severa nos pilares social (S) e de governança (G) do ESG. Ele expõe a organização a três frentes de risco imediatas:

  • Risco legal e passivo trabalhista: A substituição sistemática de profissionais seniores, muitas vezes disfarçada de “reestruturação” ou “renovação de quadro”, tem gerado um aumento expressivo em litígios por discriminação etária no Brasil e no mundo. O custo de defesa, as indenizações e os acordos afetam diretamente o caixa e o balanço da empresa.
  • Risco reputacional e de marca empregadora: O mercado e os investidores punem empresas com culturas de descarte. Além disso, as novas gerações valorizam profundamente a ética corporativa; uma organização que não respeita o envelhecimento é vista como tóxica, perdendo atratividade para talentos de todas as idades.
  • Miopia na sucessão e continuidade: O etarismo institucionalizado cria uma falsa dicotomia entre “juventude inovadora” e “senioridade obsoleta”. Isso destrói o pipeline de sucessão, forçando a saída de líderes experientes antes que seu conhecimento crítico seja mapeado e transferido.

Investidores e fundos de private equity já ampliam a “human due diligence” , incorporando análises sobre composição da força de trabalho, riscos de sucessão, retenção de talentos, liderança, cultura e demografia da força de trabalho. Um relatório de sustentabilidade que ignora o envelhecimento da força de trabalho apresenta uma matriz de materialidade incompleta.

Portanto, combater o etarismo não é apenas “fazer o que é certo” do ponto de vista humano. É mitigar riscos, proteger o valor da marca e garantir que a empresa esteja em conformidade com as exigências de um mercado global que já não tolera a obsolescência programada do capital humano.

Da demografia à estratégia

Embora a gerontologia corporativa ainda seja um campo emergente, os sinais de transformação já podem ser observados em diferentes partes do mundo.

Empresas começam a rever modelos de carreira concebidos para ciclos profissionais mais curtos, ampliam iniciativas de aprendizagem ao longo da vida, investem em equipes multigeracionais e desenvolvem mecanismos para preservar conhecimento crítico diante do envelhecimento de suas forças de trabalho.

O que conecta essas iniciativas não é apenas a preocupação com diversidade etária. É o reconhecimento crescente de que a longevidade produz impactos diretos sobre a competitividade, a inovação, a sucessão de lideranças e a sustentabilidade organizacional.

Ainda não existe um modelo consolidado de gestão da longevidade. No entanto, a direção parece clara: organizações que aprendem a integrar diferentes gerações e a transformar experiência em ativo estratégico tendem a desenvolver maior capacidade de adaptação em um ambiente econômico cada vez mais complexo e imprevisível.

A questão já não é se a longevidade afetará as organizações. A questão é quais organizações serão capazes de transformar essa realidade em vantagem competitiva.

Entendendo as influências

A longevidade deixou de ser apenas uma variável demográfica. Ela passou a influenciar a disponibilidade de talentos, a transferência de conhecimento, os modelos de carreira, a sucessão de lideranças e a própria capacidade de adaptação das organizações.

Durante décadas, as empresas se perguntaram como administrar uma força de trabalho que envelhece. A próxima fronteira talvez seja outra: compreender como as próprias organizações influenciam a forma como as pessoas envelhecem ao longo de suas trajetórias profissionais.

Essa mudança de perspectiva amplia o escopo da governança corporativa. Afinal, decisões sobre trabalho, aprendizagem, desenvolvimento e inclusão etária não afetam apenas indicadores de desempenho. Elas também moldam a sustentabilidade das carreiras e a capacidade das organizações de prosperar em uma sociedade cada vez mais longeva.

Talvez seja justamente aí que resida a principal contribuição da gerontologia corporativa: ajudar as empresas a compreender que envelhecimento não é apenas uma questão de idade. É uma questão de estratégia.

O QUE JÁ ESTÁ MUDANDO NAS EMPRESAS

Embora a gerontologia corporativa ainda seja um campo emergente, algumas práticas já começam a ganhar espaço em organizações ao redor do mundo:
• Programas de requalificação contínua voltados para profissionais em todas as fases da carreira.
• Equipes multigeracionais estruturadas para estimular transferência de conhecimento e inovação.
• Revisão de modelos de carreira concebidos para ciclos profissionais mais curtos.
• Iniciativas de captura e preservação de conhecimento crítico antes da aposentadoria de especialistas.
• Indicadores de sucessão e retenção que consideram a distribuição etária da força de trabalho.

Isoladamente, essas iniciativas podem parecer ações de gestão de pessoas. Em conjunto, elas sinalizam o surgimento de uma nova agenda corporativa para a longevidade.  

Leituras recomendadas

Time for Corporate Gerontology: A Systematic Literature Review
https://link.springer.com/article/10.1007/s12126-023-09537-6

OECD Ageing and Employment Policies
https://www.oecd.org/employment/ageing-and-employment-policies/

Projeções da População – IBGE
https://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/

World Economic Forum – Longevity Economy
https://www.weforum.org/topics/longevity-economy/

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