ESG, Estratégia
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Governança como vantagem competitiva e redução de custo de capital: mais parabrisas, menos retrovisor

Crescimento não recompensa discurso; recompensa previsibilidade. É por isso que governança virou mecanismo financeiro, não vitrine institucional
Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF) com mais de 30 anos de experiência progressiva transformando finanças em estratégia, governança e criação de valor a longo prazo. Construiu a sua carreira em empresas multinacionais e familiares em setores altamente regulamentados, incluindo farmacêutico, saúde e manufatura, liderando as áreas de Finanças, Planejamento e Análise Financeira (FP&A), Tributário, TI e Governança Corporativa. Liderou transformação financeira de empresas e sua agenda de crescimento orgânico e inorgânico, supervisionando a governança de CAPEX, a preparação para fusões e aquisições (M&A) e as iniciativas digitais para fortalecer a competitividade a longo prazo. Liderou operações financeiras e o FP&A para diversas unidades de negócios, garantindo incentivos fiscais significativos (SUDENE, Lei

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Toda empresa afirma que quer crescer. O que nem sempre se admite com a mesma franqueza é que crescimento cobra um preço: transparência, previsibilidade e disciplina de decisão. Sem isso, a expansão vira aposta; com isso, vira estratégia financiável.

É nesse ponto que governança corporativa deixa de ser “boa prática” e passa a ser vantagem competitiva. Não por causa do organograma, das atas ou do estatuto, mas pelo efeito mais valioso que ela produz: confiança mensurável.

Confiança, no mundo real, não é um sentimento – ela aparece na taxa. Quando credores, investidores, fornecedores e parceiros percebem que uma companhia decide com método, gerencia riscos com seriedade e presta contas com consistência, a leitura tende a ser direta: menor incerteza, menor percepção de risco, menor custo de capital.

A metáfora do parabrisas ajuda a explicar por que isso é tão decisivo. Em muitas organizações, governança – especialmente em conselhos e comitês – ainda opera como se a função principal fosse “validar o passado”. A reunião vira um exercício de explicações: desvios do realizado, reclassificações, justificativas e narrativa. O retrovisor é necessário, mas não pode virar o volante. Porque capital não remunera o que já aconteceu. O capital precifica a capacidade de entregar o que ainda não aconteceu.

Em finanças, a lógica é implacável: quanto maior a incerteza, maior o prêmio exigido. Por isso, governança que reduz custo de capital é, essencialmente, uma máquina de reduzir incerteza por mecanismo – e não por discurso. Isso passa por informação confiável e tempestiva, por processo decisório consistente, por gestão de riscos que antecipa problemas (em vez de explicar crises) e por disciplina de alocação de capital.

Quando esses elementos funcionam, o mercado responde – e os sinais aparecem onde importa: rating, spreads e flexibilidade de funding. Um exemplo claro é a Gerdau. Em outubro de 2024, a S&P elevou o rating global da companhia para BBB (grau de investimento), citando baixa alavancagem sustentada e políticas financeiras conservadoras, com perspectiva estável. A mensagem implícita para o custo de capital é poderosa: não se trata de “um trimestre bom”, mas de um sistema que atravessa o ciclo com métricas defensáveis – e isso amplia o universo de financiadores e melhora termos quando a empresa decide captar.

A Suzano ilustra um caminho complementar, ainda mais “parabrisas”: governança que vira compromisso contratual. A companhia mantém um framework público de sustainability-linked financing, no qual a lógica é atrelar a dívida a metas e aceitar efeitos financeiros (como ajuste de preço/cupom, incluindo step-up) se as metas não forem atingidas. Aqui, governança não é um “selo”; é um mecanismo que alinha estratégia, risco e custo de funding. E o mercado costuma reconhecer quando a trajetória futura fica mais “modelável”: em junho de 2025, a S&P revisou o outlook da Suzano para positivo e reafirmou BBB-, destacando, entre outros pontos, fatores ligados a diversificação e menor volatilidade de fluxo de caixa.

A Votorantim reforça que essa jornada não é exclusiva de companhias listadas. Em relatório público, o grupo destaca a emissão, por Votorantim Cimentos, de um bond sustainability-linked de US$ 500 milhões, prazo de 10 anos, com cupom de 5,75%, caracterizando a operação como um marco por combinar prazo longo com um dos menores spreads corporativos do mercado brasileiro naquele momento. O que importa para a tese é o conjunto: disciplina financeira, governança “de instituição” e gestão ativa de passivos se traduzindo em acesso e condições – exatamente o tipo de vantagem competitiva que aparece quando o ciclo vira.

No setor farmacêutico, a Eurofarma é um bom exemplo de governança aplicada à disciplina de passivos. Nos resultados de 2024, a companhia descreve a readequação do perfil de endividamento com emissões (7ª, 8ª e 9ª) totalizando R$ 6,3 bilhões, com uso para resgatar antecipadamente dívidas com condições e custos menos atrativos. Essa postura – alongar, otimizar custo e reduzir fricção – é uma forma concreta de dirigir olhando para o parabrisas: preparar a estrutura de capital para suportar estratégia, investimento e volatilidade. O mercado de crédito também sinaliza a qualidade percebida: a Fitch atribuiu AAA(bra) à 9ª emissão de debêntures em dezembro de 2024.

Para equilibrar a narrativa, vale trazer casos de alerta – e eles são ainda mais úteis quando tratados com precisão. O Magazine Luiza não é um exemplo clássico de “má governança” no sentido formal; ele é, sim, um exemplo de como o custo de capital reage quando a previsibilidade de desalavancagem e geração de caixa se deteriora. Em agosto de 2023, a S&P rebaixou o rating nacional do emissor de brAA+ para brAA-, com perspectiva negativa, citando alavancagem acima do esperado e um caminho de desalavancagem mais longo do que o projetado. Quando isso ocorre, o capital cobra pedágio. Em janeiro de 2025, ao alongar vencimento de debêntures (de 2026 para 2028), a remuneração foi elevada de CDI+1,25% para CDI+1,75% – mais prazo, porém custo maior. E o “parabrisas” funciona também na recuperação: em novembro de 2024, a S&P alterou a perspectiva de negativa para estável, reconhecendo melhora de resultados ao longo de trimestres.

A Hypera reforça o mesmo princípio, agora de forma direta no rating global. Em abril de 2025, a S&P rebaixou a companhia para BB (de BB+), mencionando alavancagem acima do esperado, com perspectiva estável. O ponto não é “apontar culpados”, e sim destacar o mecanismo: quando o mercado percebe que a trajetória de métricas e o caminho de ajuste ainda carregam incerteza relevante, ele reprecifica o risco – e isso se traduz em custo e restrições de funding.

No fim, os cases contam a mesma história sob ângulos diferentes. Gerdau mostra como disciplina financeira sustentada se converte em grau de investimento. Suzano mostra como metas e riscos podem ser trazidos para dentro do contrato de dívida, alinhando estratégia e funding.

Votorantim mostra que uma empresa fechada pode capturar benefícios financeiros claros operando como instituição. Eurofarma mostra a governança aplicada à gestão ativa de passivos, transformando estrutura de capital em alavanca. E Magalu e Hypera lembram que governança, para reduzir custo de capital, depende menos de formalidade e mais de previsibilidade: quando ela se perde, a taxa sobe; quando ela volta, o capital volta a precificar melhor.

Olhar o retrovisor é necessário. Mas governança que reduz custo de capital é aquela que dirige com foco no parabrisas: riscos emergentes, alocação disciplinada, decisões difíceis e previsibilidade. A pergunta que separa empresas comuns de empresas duráveis continua simples – e profundamente financeira: sua governança está explicando o passado, ou financiando o futuro?

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