Marketing & growth
0 min de leitura

IA como álibi das decisões não pensadas

Será que as empresas, focando a agilidade das entregas com assistência de inteligência artificial, deixaram em segundo plano a qualidade do raciocínio? E quais são os riscos disso?

Compartilhar:

Nesta era da IA, existe uma nova e curiosa tendência de gestão: acreditamos que, se a entrega ficou mais rápida, quem entrega também ficou melhor. Como temos discutido no portal mCMOs, a IA permite produzir respostas com mais rapidez, sim, mas, para humanos desenvolverem a capacidade de avaliá-las, exige-se um processo de formação que não acompanha essa mesma velocidade. A maior parte das empresas parece concentrar sua atenção apenas na agilidade das entregas, deixando em segundo plano a qualidade do raciocínio. E o julgamento começa antes do pensamento propriamente dito, na intenção.

Intenção pressupõe pensamento

Eu prefiro acreditar que ninguém acorda com a intenção de produzir algo ruim. Ninguém desenha um produto para fracassar, ninguém aprova uma estratégia esperando que dê errado. A intenção, quase sempre, é boa. O problema é que, sem refletir sobre os caminhos necessários para alcançar o resultado esperado, até os melhores propósitos podem permanecer apenas no campo do desejo.

A palavra intenção vem do latim intendere, que significa estender-se em direção a algo e carrega a ideia de esforço dirigido. Quando existe uma direção, mas falta o esforço necessário para alcançá-la, as organizações podem acabar produzindo resultados muito diferentes daqueles que pretendiam.

O que acontece quando não pensamos

Shane Parrish, em Pensamento Eficaz, dedica uma parte inteira ao que chama de inimigos do pensamento claro, os padrões automáticos, conhecidos como defaults no original, que assumem o controle quando reagimos sem raciocinar. Entre eles estão os impulsos emocionais, o ego, a influência social e a inércia. O argumento dele é desconfortavelmente simples. Muitos erros acontecem em situações nas quais sequer percebemos que estamos tomando uma decisão. Existe um intervalo entre o estímulo e a resposta, e é justamente nesse espaço que podemos avaliar nossas escolhas antes de agir.

Quando reagimos automaticamente, nossos mecanismos de autoproteção tendem a prevalecer. Pense numa empresa sob ameaça de mercado que decide reduzir o quadro. As pessoas, mesmo sem desejar prejudicar os colegas, podem começar a agir a partir de uma lógica de autopreservação, preferindo que outra pessoa seja afetada pela decisão. A literatura organizacional descreve um fenômeno semelhante. Em 1981, Staw, Sandelands e Dutton identificaram o chamado efeito ameaça-rigidez, pelo qual organizações sob ameaça tendem a restringir as informações que processam, centralizar o controle e recorrer a práticas conhecidas. Isso significa que, em momentos nos quais seria necessário considerar alternativas, as empresas podem acabar limitando sua capacidade de análise. O default mais confortável já inventado

Agora leve esse instinto para a frente de um prompt. A IA infere, deduz, completa lacunas e, quando não sabe, às vezes inventa, com a mesma fluência com que acerta. Os próprios fabricantes documentam a tendência dos modelos de dar razão a quem pergunta. Se você chega com a conclusão pronta, ela ajuda a defendê-la, com muita educação e ótima formatação.

O problema aparece quando passamos a aceitar essas respostas sem exercer nosso próprio julgamento. Ao fazer isso, atribuímos à ferramenta uma autoridade que ela não necessariamente possui e corremos o risco de transferir também a responsabilidade pelas decisões. “O modelo recomendou” pode se tornar uma justificativa conveniente dentro das empresas, especialmente quando os resultados não são os esperados. A referência à recomendação da IA funciona, nesse contexto, como uma espécie de álibi para quem deveria responder pela escolha.

Há pesquisas que ajudam a dimensionar essa preocupação. Um estudo da Microsoft com a Carnegie Mellon, com 319 profissionais do conhecimento, identificou uma associação entre maior confiança na IA e menor envolvimento relatado em atividades de pensamento crítico. Um experimento publicado na PNAS mostrou estudantes com desempenho 48% superior nos exercícios realizados com GPT-4, mas resultados 17% inferiores na prova sem a ferramenta, em comparação com aqueles que estudaram sem ela. Os resultados mostram como o ganho imediato de desempenho com apoio da IA pode não se traduzir em aprendizagem duradoura.

Desconfiança é um método

Darrell Huff publicou Como mentir com estatística em 1954, e o livro continua relevante diante da facilidade com que produzimos e consumimos informações atualmente. No último capítulo, ele propõe cinco perguntas para responder a uma estatística: quem está dizendo isso? Como sabe? O que está faltando? Alguém mudou de assunto? Isso faz sentido? Essas mesmas perguntas podem ser aplicadas às respostas produzidas por IA, já que a apresentação convincente de uma informação não garante sua veracidade.

As perguntas de Huff servem para examinar uma resposta. Já para examinar um plano, eu gosto de usar três métodos (nenhum deles novo). O primeiro é a construção de cenários, como Pierre Wack fazia na Shell dos anos 1970, não com objetivo de prever o futuro, mas para mudar o modelo mental de quem decide (na prática, peça à IA quatro mundos possíveis e a proíba de dizer qual é o mais provável, pois o mais provável é o que todos os concorrentes também estão vendo). O segundo método é testar hipóteses à maneira do discovery-driven planning de Rita McGrath, onde todo plano é uma pilha de premissas fingindo ser fatos, e perguntando ‘o que teria que ser verdade para isso dar certo’? Já o terceiro é o pre-mortem, de Gary Klein, no qual imaginamos que um projeto fracassou e investigamos antecipadamente as possíveis causas. Com a IA, é possível realizar esse exercício considerando inclusive a perspectiva de um concorrente que tenha se beneficiado dos nossos erros.

A IA não inventou o rigor, o critério, o contexto. Ela só tirou aquela desculpa de não fazer o que você precisaria ou deveria fazer. Para isso, considero importante começar pedindo que a ferramenta questione nossas ideias, antes de solicitar ajuda para desenvolvê-las. Essa mudança na ordem da conversa pode contribuir para uma análise menos condicionada às nossas expectativas iniciais. De erro individual a risco sistêmico

Até aqui, parece um problema de quem escreve o prompt. Mas não é. A IA entrou ao mesmo tempo no planejamento financeiro, no roadmap de produto, na operação, no atendimento e no marketing. Quando todas as áreas terceirizam um pouco do julgamento para ferramentas que tendem a concordar, o erro deixa de ser pontual e passa a ser correlacionado: todos erram na mesma direção, com a mesma confiança, ao mesmo tempo. Isso já não é tema de produtividade. É tema de governança e, portanto, de CEO, CFO, CTO, CMO e COO…

Nesse contexto, governança exige clareza sobre quem é responsável por cada decisão, quais evidências foram consideradas, como a IA participou do processo e quais informações poderiam justificar uma mudança de direção. Uma política extensa de uso da tecnologia, por si só, dificilmente resolve essas questões. A distinção de Jeff Bezos entre portas de mão única e de mão dupla ajuda a dosar o rigor — nas reversíveis, a IA acelera; nas irreversíveis, deve questionar. O erro mais comum hoje é tratar uma porta de mão única com a pressa de uma de mão dupla, só porque a resposta chegou rápido. A velocidade da resposta não diz nada sobre a reversibilidade da decisão.

E por que o marketing deveria puxar isso? Marketing é, por natureza, a função que vive de formular hipóteses sobre algo que não controla — o cliente — e de testá-las contra a realidade (sim, eu sei, o marketing também é famoso por se apaixonar pela própria campanha; a disciplina existe, nem sempre é praticada). O CFO traz o rigor do número, o CTO o rigor do sistema, o COO o rigor do processo. O marketing traz o rigor da pergunta sobre quem está do outro lado — e é essa pergunta que costuma faltar quando todas as outras já foram respondidas pela máquina. Orquestrar, nesse sentido, não é comandar. É garantir que a pergunta certa seja feita antes de a resposta ser aceita.

Quem estava lá

Volto à palavra do começo. Se a intenção pressupõe pensamento, então a pergunta que um líder faz ao time precisa mudar. Menos “o que você entregou?”, mais “por que você chegou nisso? Quais hipóteses descartou? O que está faltando? O que te faria mudar de ideia?”. Nenhuma delas é “qual prompt você usou”. Avaliar o raciocínio, e não só o entregável, é a única forma de não premiar quem pensa menos e entrega mais bonito.

A IA é extraordinária em produzir respostas. Mas não assina. No fim de todo planejamento existe uma assinatura com nome e sobrenome — e, quando alguém disser “o modelo recomendou”, vale lembrar que álibi só serve a quem precisa provar que não estava lá. Quem decide estava. Sempre esteve.Camila Besseler é fundadora e CEO da mCMOs, ecossistema para mulheres da alta liderança em Marketing, Growth e Receita. Tem 25 anos de experiência na interseção entre estratégia, marca, dados e receita, com passagens por Grupo Tigre e CI&T. Estuda sistemas — o marketing é um deles — e escreve sobre estratégia, mercado e melhores decisões.

PARA MERGULHAR NO TEMA

  • Shane Parrish, Pensamento Eficaz (Clear Thinking, 2023) •
  • Darrell Huff, Como mentir com estatística (1954) •
  • Barry Staw, Lance Sandelands e Jane Dutton, “Threat-rigidity effects in organizational behavior”, Administrative Science Quarterly (1981) •
  • Hao-Ping Lee et al. (Microsoft Research e Carnegie Mellon), “The Impact of Generative AI on Critical Thinking”, CHI 2025 •
  • Hamsa Bastani et al., “Generative AI without guardrails can harm learning”, PNAS (2025) •
  • Rita McGrath e Ian MacMillan, “Discovery-Driven Planning”, Harvard Business Review (1995) •
  • Gary Klein, “Performing a Project Premortem”, Harvard Business Review (2007) •
  • Jeff Bezos, carta aos acionistas da Amazon (2015) •
  • Camila Besseler, “Estamos ensinando as pessoas a usar IA, mas quem está ensinando as pessoas a pensar?”, mCMOs (2026)

Compartilhar:

Artigos relacionados

IA como álibi das decisões não pensadas

Será que as empresas, focando a agilidade das entregas com assistência de inteligência artificial, deixaram em segundo plano a qualidade do raciocínio? E quais são os riscos disso?

O problema não começa no canteiro. Só fica visível nele.

Atrasos, mudanças de escopo e disputas contratuais costumam ser tratados como falhas da execução. O artigo argumenta que, na maioria dos casos, os conflitos já estavam contratados desde o início, em escopos incompletos, riscos mal distribuídos e orçamentos desconectados da realidade do projeto.

Executivos estão estudando contabilidade para chegar ao C-level. Eu fiz o caminho inverso.

O artigo reflete sobre a evolução da carreira financeira e sobre o papel da contabilidade como ferramenta de gestão, mostrando que lucro, sozinho, raramente conta a história completa de uma empresa. Mais do que interpretar demonstrações financeiras, entender balanços, fluxo de caixa e capital de giro tornou-se uma competência essencial para líderes que desejam crescer de forma sustentável, tomar decisões mais consistentes e enxergar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos resultados.

Segurança cibernética: o orçamento está protegendo os riscos certos?

O crescimento das ameaças digitais exige mais do que aumentar recursos destinados à segurança cibernética. Exige compreender quais riscos realmente importam para o negócio. O artigo explora por que as organizações precisam abandonar modelos baseados na inércia e adotar uma lógica orientada por risco para direcionar seus investimentos.

Liderança, Cultura organizacional
15 de outubro de 2026 08H00
Processos, políticas e estratégias não surgem sozinhos. Eles são resultado das escolhas feitas diariamente por quem exerce liderança e influencia decisões. Embora tenham sido concebidos há mais de dois mil anos, os Niyamas oferecem reflexões surpreendentemente atuais para organizações que desejam construir culturas mais conscientes, coerentes e alinhadas aos desafios do presente.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
14 de outubro de 2026 14H00
A tecnologia tem papel decisivo na aceleração da agenda climática, mas a mudança acontece quando informações se transformam em escolhas. Entre indicadores, investimentos e decisões estratégicas, são as pessoas que continuam definindo o ritmo e a profundidade da transformação sustentável.

Fernando Beltrame - CEO da Eccaplan

Oferecido por Eccaplan
3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
14 de outubro de 2026 08H00
Quando a Nintendo rompeu uma parceria estratégica com a Sony diante do mundo inteiro, o que parecia uma derrota humilhante tornou-se o ponto de partida para uma das maiores inovações da história dos negócios. Um caso exemplar de como líderes podem transformar atrito, oposição e conflito em crescimento.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

9 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
13 de outubro de 2026 14H00
Um teste aparentemente simples, aplicado em uma fábrica japonesa, revela por que algumas organizações encontram talentos onde outras enxergam apenas falta de experiência. O artigo oferece uma perspectiva provocativa sobre a escassez de talentos e sobre como empresas podem identificar capacidades que currículos nem sempre conseguem revelar.

Marta Ferreira

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
13 de outubro de 2026 08H00
Nem sempre as pessoas que mais contribuem para os resultados são aquelas que aparecem melhor nos indicadores individuais. Em muitas organizações, existe um trabalho invisível que conecta equipes, transfere conhecimento, reduz conflitos e faz o restante do sistema funcionar. O artigo propõe uma reflexão sobre os limites dos modelos tradicionais de avaliação de desempenho e alerta para um risco pouco percebido: demitir quem sustenta as relações e a colaboração de um time pode custar muito mais do que qualquer planilha é capaz de mostrar.

Átila Persici Filho - Consultor de gestão estratégica, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e conselheiro de inovação

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
12 de outubro de 2026 18H00
Por trás de cada iniciativa de inteligência artificial existe uma negociação raramente explicitada. Compartilhar conhecimento, revisar respostas, adaptar processos e sustentar a transição exige tempo, esforço e exposição. Antes de atribuir a resistência à mudança a uma questão cultural, talvez seja preciso entender quais incentivos estão sendo oferecidos para que as pessoas escolham cooperar.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

9 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de outubro de 2026 14H00
Durante anos, a automação corporativa esteve associada à eliminação de tarefas repetitivas e operacionais. Agora, uma nova etapa começa a ganhar espaço: a integração entre RPA, inteligência artificial, APIs e agentes autônomos para coordenar processos inteiros de ponta a ponta.

Daniel Torres - CEO da Roboteasy

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
12 de outubro de 2026 08H00
Por muito tempo, compliance foi visto como a última etapa antes da aprovação de um projeto. Hoje, organizações mais maduras estão adotando uma abordagem diferente: envolver a área desde o início para construir soluções viáveis, seguras e aderentes às expectativas de governança e integridade.

André Tourinho - Gerente de Integridade da Eldorado Brasil Celulose

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
11 de outubro de 2026 14H00
Treinamentos costumam ser vistos como solução para desafios de desempenho, cultura e transformação. Mas existe uma pergunta que raramente aparece nas discussões sobre desenvolvimento: o ambiente de trabalho favorece os comportamentos que a organização deseja incentivar? O artigo mostra por que o sucesso de qualquer programa depende menos do conteúdo ensinado e mais da coerência entre estratégia, liderança e mecanismos de gestão.

Lauro Xerfan Neto - Conselheiro empresarial, consultor e professor na USP EACH e na FIA LabFin Provar

10 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de outubro de 2026 08H00
A saída de um pesquisador da Anthropic reacende um debate que está deixando os laboratórios e chegando às empresas: como garantir que sistemas de inteligência artificial cada vez mais autônomos continuem operando de forma previsível, segura e alinhada aos objetivos humanos?

Claudio Lucio - Pesquisador, professor e sócio-fundador da A3Data

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

CAPA_HSM_30_ANOS-1_pages-to-jpg-0001

Acesse agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #175

EDIÇÃO ESPECIAL DE 30 ANOS DA HSM MANAGEMENT