Inovação & estratégia
4 minutos min de leitura

Imaginar como ato de reinvenção  

A pergunta “O que você vai ser quando crescer?” parece ingênua, mas carrega uma armadilha: a ilusão de que há um único futuro esperando por nós. Essa mesma armadilha ronda o setor automotivo. Afinal, que futuros essa indústria, uma das mais maduras do mundo, está disposta a imaginar para si?
Idealizado em parceria entre Learning Village, CESAR e Automotive Business, o Hub Mobilidade do Learning Village se posiciona como um epicentro de inovação e tecnologia no setor.
Futurista, professor e pesquisador do NIX, Laboratório de Design de Narrativas, Imaginação e Experiências do CESAR

Compartilhar:


“O que você vai ser quando crescer?” 

Foi com essa provocação que, no dia 12 de junho de 2025, cerca de 90 executivos do setor automotivo se reuniram em São Paulo, no Learning Village, para um convite provocativo: prototipar “coisas do futuro”. 

A dinâmica, conduzida pelo CESAR, foi promovida como parte da preparação para o Automotive Business Experience 2025 (#ABX25), sob o estímulo do recém-criado Hub de Mobilidade, iniciativa da Automotive Business, CESAR e Learning Village para potencializar o ecossistema de inovação no setor. 

Esse Hub se propõe a reunir startups, empresas e pesquisadores em frentes estratégicas como IA, descarbonização, eletrificação, cidades inteligentes e logística sustentável, funcionando como uma “ponte viva” entre desafios reais e prototipagem conjunta 


Os freios do presente 

O setor automotivo, no Brasil e no mundo, atravessa uma era de multi-transições simultâneas. Para além da eletrificação, o setor precisa navegar por um cenário de pressão regulatória crescente, revolução tecnológica, mudanças climáticas, competição chinesa e novos comportamentos de consumo. A metáfora “computador sobre rodas” é apenas um ponto de partida para entender a complexidade dos desafios e das oportunidades. 

O Brasil vive hoje o maior ciclo de investimentos da sua história no setor automotivo, com R$ 130 bilhões previstos no programa MOVER (Mobilidade Verde e Inovação) até 2033. O programa traz novas métricas, como a medição de carbono “do berço ao túmulo”, e um sistema tributário verde baseado em eficiência energética e segurança. 

Na estratégia de eletrificação, o país adota uma postura pragmática. Os bio-híbridos flex, combinando eletricidade e etanol, ganham força por alinharem tecnologia e matriz energética limpa. Em 2024, a venda de eletrificados mais que dobrou, com destaque para os modelos de origem chinesa, que representam 85% do total. 

A digitalização avança, mas com barreiras estruturais: 45% das empresas ainda não oferecem agendamento online no pós-venda. As tecnologias de conectividade e ADAS se popularizam, mas a regulação para veículos autônomos continua defasada, e a infraestrutura de recarga segue limitada. Apenas 12% das rodovias têm sinalização compatível com veículos autônomos. 

A Indústria 4.0 e o uso de IA na produção têm avançado em grandes montadoras, mas as empresas de autopeças enfrentam dificuldades de investimento, qualificação de mão de obra e fragmentação da cadeia. A dependência de P&D estrangeiro e a dificuldade de produzir componentes críticos como baterias e semicondutores localmente comprometem a autonomia tecnológica do país.  

Por fim, há o fator humano: a aceitação cultural do consumidor ainda privilegia o atendimento presencial e não valoriza suficientemente itens como segurança veicular. A transformação digital e o design ético ainda são tratados como tendências, não como compromissos estruturais. 


Entre sensores e sentidos 

O exercício da imersão não busca prever o futuro, mas ampliar o campo de possibilidades. A partir de provocações, os executivos imaginaram soluções além dos limites do business as usual, revelando propostas que ultrapassam a eletrificação e a conectividade, apontando para uma mobilidade sensível aos corpos e sentimentos humanos:  

  • Wearables emocionais conectados aos veículos, que ajustam o ambiente interno conforme sinais biométricos; 
  • Assistentes de voz inclusivos, que “falam a linguagem” do usuário e ensinam funções do carro; 
  • Ecossistemas inteligentes de recarga, usando big data para otimizar rotas, custos e segurança; 
  • Drones de serviço para peças, manutenção e transporte, com elementos de gamificação; 
  • Biometria embarcada para segurança social — da proteção infantil à autorização de reparos; 
  • Infraestrutura urbana responsiva, capaz de adaptar-se ao perfil emocional dos usuários, especialmente turistas; 
  • Ecossistemas colaborativos de mobilidade regional, conectando comunidades e logística de última milha; 
  • Serviços autônomos integrados à saúde pública e ao transporte escolar; 
  • Redes de abastecimento bio-híbridas, impulsionadas pela matriz energética limpa brasileira. 


O que ficou claro na imersão foi que a tecnologia só faz sentido quando costurada ao bem-estar, à experiência e à ética. Repensar o setor automotivo sem considerar esses pilares é perpetuar desigualdades e rupturas que impedem o desenvolvimento social e a ampliação do mercado . 


O futuro que aspiramos 

O setor automotivo está em um ponto de inflexão: continuar otimizando um modelo esgotado ou ousar imaginar novos caminhos. E imaginar, aqui, não é romantismo, mas estratégia. 

O cerne da provocação é o seguinte: para quem, com quem e por que estamos imaginando o futuro da mobilidade? As propostas da imersão refletem quatro vetores estratégicos: bem-estar como diferencial de valor, inclusão como alavanca de design, ética como base da confiança social e dados como tecido da inteligência coletiva. 


REFERÊNCIAS  

DUNNE, Anthony; RABY, Fiona. Speculative Everything: Design, Fiction, and Social Dreaming. Cambridge (MA): MIT Press, 2013. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/j.ctt9qf7j7. Acesso em: 02 jul. 2025. 

MARTINS, Senna. Regulação de veículos autônomos no Brasil: legislação e desafios em 2025. Site da Senna Martins, 2025. Disponível em: https://sennamartins.com.br/regulacao-de-veiculos-autonomos-no-brasil-legislacao-e-desafios-em-2025/. Acesso em: 02 jul. 2025. 

STATISTA. Brazil: Preparedness for autonomous vehicles by category, 2020. Statista, 2020. Disponível em: https://www.statista.com/statistics/1190278/brazil-preparedness-autonomous-vehicles-category/. Acesso em: 02 jul. 2025. 

Compartilhar:

Idealizado em parceria entre Learning Village, CESAR e Automotive Business, o Hub Mobilidade do Learning Village se posiciona como um epicentro de inovação e tecnologia no setor.

Artigos relacionados

A voz que não se ouve

Relações de poder, saúde relacional e o design das conversas que as organizações precisam ter. Este artigo parte de uma provocação simples: e se o problema não estiver em quem fala, mas em quem detém o poder de ouvir?

O que um anti-herói pode nos ensinar sobre liderança?

Neste artigo, a figura do Justiceiro, anti-herói da Marvel Comics, serve como metáfora para discutir o que realmente define o legado de um líder: a capacidade de sustentar princípios quando resultados pressionam, escolhas difíceis se impõem e o custo de fazer o certo se torna inevitável.

Quem vê as baratas cedo lidera melhor

Os melhores líderes internacionais não se destacam apenas pela estratégia. Destacam-se por perceber cedo os pequenos sinais de desalinhamento entre a matriz e os mercados, antes que eles virem problemas caros.

Cultura organizacional, Estratégia
29 de março de 2026 07H00
Este artigo revela por que entender o nível real de complexidade do próprio negócio deixou de ser escolha estratégica e virou condição de sobrevivência.

Daniella Portásio Borges - CEO da Butterfly Growth

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Tecnologia & inteligencia artificial
28 de março de 2026 11H00
A inteligência artificial resolveu a escala do conteúdo - e, paradoxalmente, tornou a relevância mais rara. Em um mercado saturado de vozes, o diferencial deixa de ser produzir mais e passa a ser ajudar a pensar melhor, por meio de curadoria, experiências e comunidades que realmente transformam.

Poliana Abreu - Chief Knowledge Officer da Singularity Brazil, HSM e Learning Village

2 minutos min de leitura
Estratégia
28 de março de 2026 06H00
Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência - e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.

André Veneziani - VP Comercial Brasil e Latam da C-MORE

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de março de 2026 13H00
Investir em centros de P&D deixou de ser opcional: tornou‑se uma decisão estratégica para competir em mercados cada vez mais tecnológicos.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Estratégia
27 de março de 2026 07H00
Medir saúde organizacional deveria estar no mesmo painel que receita, margem e eficiência. Quando empresas tratam bem-estar como benefício e não como gestão, elas não só ignoram dados alarmantes - elas comprometem produtividade, engajamento e resultado.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
ESG
26 de março de 2026 15H00
A capitulação da SEC diante das regras climáticas criou dois mundos corporativos: um onde ESG é obrigatório e outro onde é opcional. Para CEOs de multinacionais, isso não é apenas questão regulatória, é o maior dilema estratégico da década. Como liderar empresas globais quando as regras do jogo mudam conforme a geografia?

Marceli Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de março de 2026 09H00
À medida que desafios logísticos se tornam complexos demais para a computação tradicional, este artigo mostra por que a computação quântica pode inaugurar uma nova era de eficiência para o setor de mobilidade e entregas - e como empresas que começarem a aprender agora sairão anos à frente quando essa revolução enfim ganhar escala.

Pâmela Bezerra - Pesquisadora do CESAR e professora de pós-graduação da CESAR School e Everton Dias - Gerente de Projetos

7 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
25 de março de 2026 15H00
IA executa, analisa e recomenda. Cabe ao líder humano decidir, inspirar e construir cultura.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
ESG
25 de março de 2026 09H00
Quando propósito vira vantagem competitiva, manter impacto e lucro separados é mais que atraso - é miopia estratégica.

Ana Fontes - Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e Instituto RME, VP do Conselho do Pacto Global da ONU

5 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
24 de março de 2026 14H00
Quando a geopolítica esquenta, o impacto não começa nos noticiários - começa na planilha: energia mais cara, logística pressionada, insumos instáveis e margens comprimidas. Este artigo revela por que guerras longínquas se tornam, em poucos dias, um problema urgente de precificação, estratégia e sobrevivência financeira para as empresas.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...