Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
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Job crafting e playful work design: Se divertir no trabalho pode ser coisa séria

Diante de um cenário de sobrecarga crescente no trabalho, este artigo mostra que o problema não está apenas no volume, mas na forma como o trabalho é organizado, e apresenta caminhos práticos para redesenhá-lo com mais significado, autonomia e energia.
Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor convidado em Masters de Liderança na Espanha e Mexico. Miguel é apaixonado e estudioso da Psicologia Positiva, convencido de que existe uma forma mais sustentável de fazer negócios e gerir empresas. No centro de sua atuação está a conexão de desafios estratégicos nas organizações com metodologias centradas nas pessoas. Com um Master Executivo em Liderança Positiva e Estratégia pelo IE - Instituto de Empresas - Madrid. Consultor implementando projetos de Identificação e Desenvolvimento de Talentos, formação e reestruturação de equipes através de Job Crafting, Team Crafting e mapeamento de Redes de Colaboração. Atendeu clientes de diferentes setores – financeiro, engenharia, indústria alimentícia, comércio, serviços e tecnologia.

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Está todo mundo sobrecarregado no trabalho seja no aspecto cognitivo (impactado pelo volume de informações, complexidade, incerteza) , seja no aspecto de carga real de trabalho (volume de atividades e atribuições).

Essa sobrecarga contribui para o estresse no trabalho, mas não é o único elemento.

Um dos maiores estudos sobre o que gera estresse no trabalho foi publicado no Journal of Vocational Behaviour abordando mais de 60 anos de pesquisa, 515 estudos e 558 e amostras que chegam a 800.000 pessoas.

O autor George Sawhey e colegas chegaram à conclusão de que existem 3 fatores principais geradores de estresse no trabalho.

  1. Ambiguidade de papel – não ter clareza sobre sua contribuição e o que esperam de você.
    É o maior destruidor de desempenho, comprometimento e satisfação.
  2. Conflito de papel – ser puxado em direções contraditórias
    Demandas, mensagens e prioridades dissonantes vindas de todos os lados. As coisas são incompatíveis, incoerentes ou se sobrepõem, e esse cenário é o que mais leva ao burnout.
  3. Sobrecarga de papel – ter mais do que se consegue fazer
    Esse é o que mais gera cansaço e sintomas físicos e emoções negativas. Estruturas enxutas, processos burocráticos ou mal definidos contribuem.


Os programas de bem-estar não são suficientes para mudar esse cenário, é preciso redesenhar o trabalho para trazer mais clareza, significado e por que não, mais leveza.

Existem estratégias que podem ajudar lideranças e times a encarar melhor esse cenário.

Job crafting – A tradução mais adequada para o termo seria “artesanato do trabalho”, ou seja, ajustar ou customizar o seu trabalho a meus interesses, valores e pontos fortes tornando o trabalho mais significativo. A tradução em português foi de redesenho do trabalho. Esse é um modelo que foi formulado a partir de um estudo sobre significado no trabalho conduzido por Jane Dutton (Michigan Business School) e Amy Wreniewski (Yale).

O que elas descobriram é que as pessoas consciente ou inconscientemente encontravam sentido no trabalho mexendo em 3 dimensões:


O interessante é que essa reformulação é bastante democrática, tanto a pesquisa como a prática de ter acompanhado de perto mais de 600 redesenhos confirma que independente de nível hierárquico e inclusive idade, a metodologia contribui para mudanças que geram mais valor para as pessoas e para a organização.

O que vimos é que essa reflexão sobre o que é significativo tem um encaixe muito interessante com momentos de reestruturação ou revisão do novo ciclo de carreira.

Alguns exemplos – Uma analista contábil que adorava fazer o onboarding de novos clientes migrando para uma área de customer success, ou um gestor industrial encontrando maior equilíbrio ao delegar atividades de compras e manutenção mais táticas a outros colaboradores.

Histórias de mobilidade, transição ou simplesmente um maior encaixe no papel atual.

E aquelas atividades que não posso mudar ou redesenhar?

O job crafting contribui para aproximar o trabalho dos teus interesses, pontos fortes e valores, aquilo que é significativo. Porém é importante sermos realistas: sempre existirá o perrengue, o imprevisto, a atividade burocrática, conflitos e atritos.

E existem aquelas atividades que demandam disciplina, consistência, são “chatas” e que fazem toda a diferença no resultado.

O que fazer para ter mais leveza nesses casos?

Se você respondeu automatizar ou delegar para IA, pode ter acertado em parte, só que tem coisas que só você pode fazer, e o aumento de eficiência não tem se traduzido em redução de carga de trabalho, somente uma transferência de foco (e nem sempre em atividades significativas).

É aí que entra o playful work design – o conceito foi criado pelos pesquisadores Yuri S. Scharp, Arnold B. Bakker e Kimberley Breevaart e é quando um indivíduo proativamente inclui elementos de jogo (diversão ou competição) nas atividades existentes.

Não é gamificação imposta, é uma construção espontânea que vem dos colaboradores, e claro que esse comportamento que emerge das pessoas pode virar ritual ou metodologia.

Existem duas dimensões do playful work design:

Desenhar diversão: Usar humor e diversão parar tornar tarefas monótonas mais divertidas.

Exemplo – um comissário de bordo que transforma as instruções de segurança em um Rap, um garçom que usa humor com os clientes.

São estratégias que funcionam como um mecanismo de gestão de energia, permitindo que o colaborador recupere recursos psicológicos através deste alívio, e se mostrou pela pesquisa algo especialmente eficaz para combater o isolamento social e conflitos interpessoais.

É mais indicado para aqueles dias de atividades de baixa pressão, repetitivas, para diminuir o tédio e manter produtividade e engajamento. Desenhar diversão também se mostrou efetivo para reduzir conflitos e melhorar as conexões entre colegas de trabalho.

Desenhar competição: Criação de micro objetivos e desafios pessoais. Neste caso, existe uma associação do comportamento de jogo a um resultado seja uma entrega específica, resolução de um problema ou aquisição de um novo conhecimento.

Dividir o trabalho em micros objetivos com pequenas premiações como se fosse um vídeo game.

Encarar um problema técnico como um quebra cabeça que precisa ser resolvido. (Repensar uma atividade sem que ninguém peça)

Se desafiar a criar algo a partir de um novo conhecimento. (Criar uma aplicação a partir de um aprendizado em IA)


É diferente da competição organizacional (rankings desenhados top-down) já que é um comportamento autoimposto.

Existe um limite em que esse comportamento de competição autoimposta pode gerar excessos e sinais de comportamento workaholic.

Coletivamente estamos mais habituados a esse tipo de perspectiva de competição nas organizações. Portanto é mais comum cairmos na armadilha da competição em excesso e da comparação.

Desenhar competição se mostrou efetivo em atividades que impulsionam a ação de um indivíduo reduzir a procrastinação por exemplo.

Incentivo a realização e a conexão:

O playful work design contribui para responder duas necessidades psicológicas fundamentais.

Realização via desenho de competição:

Criando oportunidades para a ação que não estão necessariamente na descrição de cargo.

Criando satisfação de competência, ou seja, me sinto capaz e indo além no uso das minhas habilidades.

Aprendizagem e esforço – investindo mais esforço em aprendizagem informal descobrindo novas formas de realizar o trabalho enquanto jogam.

Conexão via desenho de diversão

A conexão social é especialmente fortalecida quando usamos a imaginação para transformar o ambiente social.

  • Fluidez social: O uso ativo do humor atua nas interações, ajudando a aliviar tensões, reduzir o estresse em situações de conflito e promover um ambiente mais relaxado.
  • Satisfação do relacionamento: Ao integrar brincadeiras, piadas e entretenimento nas tarefas, estamos reforçando o senso de pertencimento.
  • Combate ao isolamento: Especialmente em contextos desafiadores como o trabalho remoto, o humor e imaginação ajudam a criar cenários divertidos que reforçam uma forma de “companhia” e conexão emocional, mesmo com distância física.
  • Coesão de equipe: Onde existe espaço para o riso, a coesão cresce em equipes que trabalham de forma interdependente isso aumenta a que pesquisadores chamam de energia relacional.


Quais os riscos dessa abordagem:

O risco sempre está na dose ao usar essa abordagem

O maior risco identificado em pesquisa está no vicio no trabalho e no excesso de validação e aspectos de ego gerando dificuldade em se desconectar do trabalho. Principalmente manifestado pela dimensão de desenhar competição.

Consumo de energia: agir de forma proativa é cansativo: Se o colaborador utilizar o PWD apenas para investir energia (construção de recursos) sem momentos de recuperação (descanso/pausas), ele corre o risco de sofrer um burnout a longo prazo.

Custo de aprendizagem: No início, aprender e adotar novas estratégias comportamentais exige esforço e foco extras, o que pode, paradoxalmente, aumentar os níveis de exaustão geral antes que a prática se torne um hábito.

Usar a “diversão ou competição gamificada” para mascarar problemas maiores como ambientes e relações tóxicas, pouca transparência ou processos ruins.

Isso gera cinismo em relação a abordagem, aliás gera cinismo a qualquer iniciativa de mudança e bem-estar.  É o mesmo efeito da mesa de ping-pong em um ambiente de trabalho horrível.

Recomendações tanto para o Job Crafting como para o Playful Work Design:

Sem segurança psicológica nada feito, é fundamental um preparo de terreno onde as pessoas se sintam a vontade de serem autenticas e se manifestarem sem julgamento ou medo.

Essas metodologias satisfazem 3 necessidades básicas de qualquer ser humano autonomia, competência (ter os recursos e sentir-se capaz), e promover conexão.

E são estratégias inteligentes para dar voz as pessoas, ajudá-las a manifestar seus pontos fortes e experimentar e inovar através da leveza de jogar.

E para finalizar quero deixar algumas perguntas que podem ajudar você a redesenhar o trabalho e torná-lo mais leve.


1. Perguntas para o redesenho do trabalho (job crafting)

Estas perguntas focam em mudar os limites das tarefas, dos relacionamentos e da percepção sobre o trabalho:

  • Redesenho de tarefas:
    1. Que atividades novas eu quero incluir na minha rotina que fazem mais sentido hoje?
    2. Que atividades atuais eu posso delegar para focar no que é essencial?
    3. Quais tarefas eu deveria fazer com mais frequência e quais eu deveria reduzir?

  • Redesenho de relacionamentos: 
    4. Quais relacionamentos profissionais eu quero aprofundar para tornar meu dia mais rico?
    5. Que tipo de interação eu desejo ter com a minha rede de contatos?
    6. O que existe de verdadeiramente significativo nas minhas conexões atuais no trabalho?

  • Redesenho cognitivo:
    7. Onde eu posso gerar mais valor utilizando meus pontos fortes e talentos naturais?
    8. Qual é o real impacto que eu quero gerar no mundo através do meu cargo atual?
    9. Quais novas capacidades e habilidades eu desejo desenvolver para o meu futuro?



2. Perguntas para desenhar diversão

O foco aqui é usar o humor e a imaginação para repor energias e lidar com o isolamento ou conflitos:

  1. Como posso usar minha imaginação para criar uma narrativa que torne esta tarefa monótona mais interessante?
  2. Onde posso encontrar um ângulo bem-humorado na situação estressante que estou vivendo agora?
  3. De que forma posso interagir com meus colegas ou clientes para tornar o dia deles (e o meu) mais divertido?


3. Perguntas para desenhar competição

O objetivo é criar desafios para incorporar conhecimentos, habilidades e superar-se para combater o tédio e a procrastinação:

  1. Que micro objetivo ou regra própria eu posso criar para terminar esta tarefa de forma mais rápida ou eficiente?
  2. Como posso transformar este problema técnico difícil em um quebra-cabeça  que eu queira resolver?
  3. Qual é o meu recorde pessoal nesta atividade e o que eu preciso fazer para superá-lo hoje?


4. Perguntas para a “medida certa” (Equilíbrio e saúde)

As pesquisas mais recentes (2025) alertam que o desafio excessivo pode levar ao vício em trabalho (workaholism), por isso o equilíbrio é vital:

  1. O “´plus de diversão”: Eu estou injetando tanta diversão e leveza no meu dia quanto estou injetando metas e desafios?
  2. Autenticidade: Eu estou competindo comigo mesmo por prazer genuíno ou sinto uma pressão interna/externa sufocante para bater metas?
  3. Recuperação: Este desafio que criei está me dando energia (construção) ou está apenas gerando exaustão sem momentos de pausa e riso (reposição)?


Dica de Ouro

Para manter o engajamento sem adoecer, a recomendação é “trabalhar duro, mas jogar com mais afinco”, garantindo que a dimensão da diversão sempre acompanhe ou supere a da competição

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