Direito, Regulação & Compliance, Estratégia
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M&A em saúde dispara 506%: Por que construir em dez anos o que pode ser adquirido em uma operação?

O mercado de saúde vive um novo ciclo de fusões e aquisições impulsionado pela busca por capacidades estratégicas já consolidadas. O texto mostra como infraestrutura, conhecimento regulatório, tecnologia e acesso a clientes estão se tornando ativos cada vez mais valiosos para empresas que precisam acelerar sua expansão.
Sócio-diretor da Zaxo M&A Partners

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O valor das operações de M&A em saúde, ciências da vida e bem-estar chegou a R$ 37,9 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 506,9% sobre o mesmo período de 2025, segundo dados da KPMG.

Por trás desse salto, algumas operações ajudam a entender não apenas por que há mais dinheiro circulando no setor, mas também o que os compradores estão buscando.

Um bom exemplo é a compra da 4Bio pela Profarma, anunciada em março de 2026 por R$ 600 milhões e concluída em maio. Mais do que ampliar sua operação de distribuição, a Profarma voltava ao mercado de medicamentos especiais e de alta complexidade, adquirindo uma empresa que já tinha clientes, estrutura, conhecimento regulatório e uma posição consolidada no segmento.

A 4Bio, que pertencia à RD Saúde, grupo das redes Raia e Drogasil, havia faturado R$ 3,4 bilhões nos 12 meses encerrados em setembro de 2025, com crescimento médio anual de 15% desde 2023.

Ou seja, na prática, a Profarma não precisou construir tudo isso do zero. Ao comprar uma estrutura já estabelecida, encurtou um caminho que poderia levar anos para percorrer organicamente. Fundada em 2004, a 4Bio atendia hospitais, clínicas, operadoras, profissionais de saúde e pacientes e mantinha quatro centros de distribuição.

Olhar com atenção para essa operação ajuda a entender a nova lógica no mercado de M&A em saúde: adquirir capacidades já consolidadas para encurtar o caminho de crescimento e expansão.

São ativos capazes de encurtar caminhos estratégicos. Quanto mais difícil, caro ou demorado for construir organicamente aquilo que uma companhia já possui, seja acesso a clientes, estrutura regulatória, canais de distribuição ou conhecimento especializado, maior pode ser o interesse de compradores que precisam acelerar sua entrada ou expansão em determinado segmento.

Na saúde, isso pode estar em uma fábrica certificada, registros sanitários, medicamentos de maior complexidade, tecnologia, distribuição, relacionamento com hospitais ou varejo ou, ainda, conhecimento regulatório.

No fim das contas, são capacidades que dinheiro, sozinho, não consegue reproduzir rapidamente. Quando uma empresa as adquire, compra também uma variável valiosa em qualquer estratégia de expansão: tempo.

E há razões para que esse tipo de ativo continue no radar dos compradores. A política industrial brasileira, por exemplo, estabeleceu como meta elevar a produção local de bens e insumos estratégicos de saúde de cerca de 45% para 50% até 2026 e 70% até 2033, segundo o BNDES. Na prática, ampliar a produção nacional exige capacidade instalada, tecnologia, conhecimento regulatório e capital – justamente alguns dos ativos que podem ser incorporados por meio de aquisições.

O movimento já aparece nas transações farmacêuticas. Levantamento da Kearney mostra que metade das 14 operações registradas na América Latina até meados de 2026 ocorreu no Brasil. O valor médio das transações brasileiras chegou a cerca de US$ 100 milhões, acima da média regional de US$ 60 milhões. É um indicativo do peso que o país vem assumindo no M&A farmacêutico latino-americano.

Uma demanda que tende a sustentar novos negócios

Esse movimento de M&A encontra sustentação também na dinâmica do próprio setor. O envelhecimento da população aumenta a demanda; novas terapias tornam os tratamentos mais complexos; a regulação exige investimentos contínuos; e a indústria precisa ampliar sua capacidade. O Brasil já tem cerca de 25 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, e esse grupo deve chegar perto de 50 milhões em 2050, segundo projeções do IBGE.

Mais gente consumindo saúde significa maior necessidade de investimento em capacidade, tecnologia e estrutura. Para muitas empresas, a fusão ou aquisição é uma forma de crescer mais rápido.

Ao mesmo tempo, o Brasil ainda tem uma grande quantidade de empresas independentes e familiares. Muitas construíram negócios sólidos, mas chegam a uma fase em que precisam de capital para crescer, enfrentar sucessão ou ganhar escala.

A aquisição da Takeda pelo Cristália ilustra essa estratégia. A empresa assumiu o parque fabril da farmacêutica em Jaguariúna, já equipado e certificado pela Anvisa, para ampliar sua capacidade de produção de medicamentos sólidos. O valor da operação não foi divulgado.

Existe uma assimetria interessante no middle market: de um lado, empresas maiores precisam de novas capacidades; de outro, negócios bem construídos precisam de capital ou de um parceiro para dar o próximo passo. É quando surgem muitos dos melhores negócios.

A preparação ganha importância especialmente para empresários do setor de saúde que consideram algum movimento de M&A nos próximos anos.

Quem pretende buscar um sócio, captar recursos, realizar uma aquisição ou até vender a empresa não deveria começar a se organizar apenas quando a oportunidade aparece. Governança, informações financeiras confiáveis, processos bem estruturados e clareza sobre a estratégia ajudam a ampliar as alternativas do(a) empresário(a) e a conduzir uma eventual transação em melhores condições. Para quem está do outro lado da mesa, esse nível de preparação também facilita a análise do negócio e reduz incertezas durante o processo.

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