Business content

Mais conversas difíceis

A Cia de Talentos está promovendo a diversidade internamente com a preparação de todas e cada uma das pessoas para conviver com o diferente, como conta sua chairwoman, Sofia Esteves

Compartilhar:

“Na minha empresa não importa a cor ou a orientação sexual, desde que a pessoa pense igual a mim e tenha o meu modus operandi.” É com essa provocadora frase que Sofia Esteves, fundadora e chair da Cia de Talentos, e uma pioneira no tema, define muitos dos esforços de diversidade e inclusão atuais.

Em conversa com sua sócia Adriana Chaves, membro do conselho da empresa, Esteves garante: sem um treinamento no dia a dia, e sem realmente preparar as pessoas para aceitar ideias e comportamentos diferentes, a diversidade nas empresas vai caminhar muito lentamente. As duas também discutem estratégia, instabilidade, engajamento, habilidades, liderança e sucesso.

## Quando nasce o engajamento

__ADRIANA CHAVES:__ __As empresas se veem às voltas com pessoas desengajadas. Ao menos, os índices de engajamento de levantamentos feitos por institutos de pesquisa em múltiplas empresas, são muito baixos. Comecemos aí: onde nasce o engajamento?__

__SOFIA ESTEVES:__ Acho que é quando, mais do que onde. Nasce quando um colaborador se sente pertencendo a um lugar. E isso inclui várias coisas, que vão desde ele poder ser ele mesmo naquele lugar até poder contribuir para as decisões em vez de só receber decisões top-down. E também ser acolhido pelas pessoas, receber a atenção delas.

Já o desengajamento nasce quando nada disso acontece e também a organização não busca ou não valoriza as mesmas coisas que o profissional valoriza, e quando ele não admira a liderança. Tudo isso, é importante dizer, independe do nível hierárquico, vai do porteiro ao executivo.

__No Grupo Cia de Talentos, que atividades fazemos que nos diferenciam no quesito engajamento?__
Acho que a primeira coisa é que 100% das pessoas se sentem num único time. Primeiro, o fato de todo mundo poder ter acesso a você, a mim, às sócias, e nos admirar, estimula muito o engajamento. Segundo, nós cuidamos das pessoas. Sempre queremos saber se tem alguma coisa acontecendo na vida dela e se podemos ajudar, se a pessoa se sente exausta contratamos tratamento para ela etc. Em crises, sempre escolhemos tentar segurar o emprego de todos – realmente só tiramos as pessoas por questão de performance. Terceiro, a transparência é para valer aqui. Nossa Talent News, mensal, aborda as crises do nosso mercado sem filtro.

O engajamento é tal que agora, na pandemia, o próprio grupo de colaboradores veio propor que a gente fizesse a redução de jornada e remuneração, e que tirasse alguns benefícios; foi emocionante. E funcionou, porque terminamos o ano com lucro. Também tinha sido combinado que nós devolveríamos o dinheiro para essas pessoas e cumprimos o combinado.

Não dá para que esquecer que nosso propósito, de gerar emprego, engaja muita gente. Tanto quanto o fato de que nunca trouxemos um sócio de fora sem antes valorizar quem estava dentro – muitos sócios são pessoas que começaram a carreira conosco e ficaram, até quem começou como recepcionista. Assim engajamos e fidelizamos a equipe.

__Você falou que a equipe se sente próxima de nós, mas somos absolutamente diferentes no estilo de liderar, né?! Você crê que possa haver um modelo de liderança mais adequado do que outros?__

Temos coisas em comum também, como coerência e dedicação. Por exemplo, ambas pedimos desculpas quando erramos. O que a gente fala é aquilo que a gente faz no dia a dia, nos corredores. Ambas nos esforçamos para levar a melhor versão de nós para eles. Cria-se um círculo viciante do bem.

Eu acho que tem uma questão muito importante sobre modelos. Temos de estudar muito, e olhar para as outras empresas, mas tomar cuidado para não fazer copia-cola. Vemos muitas organizações fazerem isso com o benchmarking e virarem uns frankensteins. A estratégia de pessoas precisa ser costurada em nossa estratégia geral.

__Estratégias da empresa e do RH são inseparáveis.__

Não, e é simples de entender: se você não souber se a empresa vai crescer ou encolher, se vai lançar novos produtos e se estes requerem novas competências, como vai gerir as pessoas e a cultura? Não dá. E não é só o RH que deve saber da estratégia geral. Todo mundo tem que estar ciente da estratégia e dos próximos passos da organização.

## DIVERSIDADE QUE SAI PELA CULATRA

__Sabemos que, em alguns casos, há um discurso “pessoas no centro da organização”, mas, na hora do vamos ver, a tomada de decisão passa bem longe das pessoas. É assim também em relação a D&I, não é?__
Hoje D&I é associado mais a cor da pele, orientação sexual etc. Mas, lá atrás, havia um mundo de discriminações, de nome de faculdade, curso, se falava inglês e tinha feito intercâmbio… Passamos 14 anos lutando com os líderes de RH para conseguir acabar com essa primeira camada de discriminação, porque como é que a gente ia falar de diversidade racial se o jovem tinha de ter feito um intercâmbio?

Na minha opinião, os passos que as organizações estão dando em direção à verdadeira inclusão da diversidade no Brasil ainda são lentos demais. Hoje vivo escutando “Na minha empresa não importa a cor ou orientação sexual”, mas o que estão dizendo na verdade é “Na minha empresa não importa a cor ou a orientação sexual, desde que a pessoa pense igual a mim e tenha o meu modus operandi”. Infelizmente, há um monte de empresas criando programas de ação afirmativa para inglês ver, sem se preparar para o pensamento e a ação diversa. Recrutar e botar para dentro é fácil; o que não é fácil é incluir. E o tiro sai pela culatra porque a pessoa não incluída sai falando mal da empresa, magoada e ofendida.

Talvez isso mude quando a maioria dos líderes das empresas não for mais de oriundos das faculdades de elite.

__Você foi uma espécie de mola propulsora contra a discriminação. Na Cia de Talentos, acho que demos um grande e verdadeiro passo à frente treinando nosso pessoal em D&I. E nosso comitê de diversidade interna vem ganhando força, é muito consultado.__
Demos treinamento para as pessoas se posicionarem ante a discriminação, lembra? A gente estimulou as pesssoas a assumir responsabilidade se vissem algum colega de trabalho tendo uma atitude preconceituosa, primeiro tentando resolver numa conversa e, depois, se a conversa não funcionasse, trazendo o caso para a liderança resolver. Mandamos gente embora por mostrar preconceito com outros colegas de trabalho. Mediamos conversas difíceis entre um lado que se sentia ofendido e o outro que não tinha tido a intenção de ofender. Fizemos, e ainda fazemos, o caminho difícil do dia a dia. Não adianta fazer um manifesto em prol da diversidade; o que funciona é intervir e dar suporte quando precisa.

O VULCÃO ESTÁ ATIVO – E PARA SEMPRE

__Quais os principais desafios de um líder adiante? Parece que 2022 vai ser muito instável, pelo ambiente político e econômico no Brasil, e porque o mundo parece um vulcão prestes a entrar em erupção.__
Eu concordo em partes, no sentido de que acho que o mundo nunca mais será estável totalmente. No mundo, quando baixar o nível de vacinação vai ter outra onda de coronavírus ou aparecerá outro vírus. No Brasil, temos uma fraqueza política muito grande. De alguma forma, a liderança terá de lidar cada vez mais com o imponderável. Cada vez mais, teremos de deixar de olhar tanto para fora e passar a olhar para dentro, achando criatividade nas soluções. Acho que teremos que fazer isso para sempre.

__Que competências servem nesse “para sempre”?__
Falamos muito de resiliência, criatividade, comunicação, e tudo isso será necessário mesmo, mas quero destacar especialmente a habilidade de confiar no outro – para poder trabalhar junto – e a empatia. Quando a gente fala de empatia, fala de viabilizar a inclusão da diversidade. É fácil ser simpático com alguém parecido com você. Com alguém muito diferente, você precisa começar pela empatia.

__O que é sucesso para a líder Sofia Esteves?__
Para mim, tem um indicador-chave: quando uma pessoa me liga e diz assim “queria ouvir tua opinião sobre isso”. E eu posso colaborar. E é também aprender de todos o modos, lendo, estudando, conversando, viajando. A China foi um grande aprendizado. Vi que existem chineses felizes!

Sucesso ainda é equilíbrio. Tive um burnout há quatro anos e agora sei que tenho de dizer não, o que é difícil para mim; eu me sinto em falta com a outra pessoa, como se fosse egoísta. Mas, ao menos racionalmente, sei que primeiro tenho de cuidar de mim para então poder cuidar do outro.

__SOFIA ESTEVES__
É conselheira do BTG Pactual e cofundadora da ONG Bettha.

__ADRIANA CHAVES__
É mentora Endeavor e guardiã da rede de mulheres AngelUs.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que a filosofia voltou a ser uma ferramenta de gestão

Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

A tecnologia muda. A essência da advocacia permanece.

Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Chega de olhar pelo retrovisor

A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Empresas preparadas para a próxima década não usam IA. Elas se reorganizam ao redor dela.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

O que separa empresas inovadoras das que apenas fazem inovação

Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Pare de tentar prever o mundo. Construa uma empresa que aguenta vários.

Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura
Liderança
29 de julho de 2026 07H00
Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Betania Tanure - PhD, Sócia fundadora da BTA, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 14H00
Rampas, tecnologias assistivas e conformidade regulatória são apenas o ponto de partida da inclusão. Entre a conformidade técnica e a adoção real existe um elemento frequentemente negligenciado: a cultura. Este artigo explora como a Inteligência Cultural pode determinar o sucesso ou o fracasso de estratégias globais de inclusão.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Clara Choen - Fundadora da Savant Consulting

12 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 08H00
Inspirado pelo legado de Oscar Motomura, o artigo questiona uma das crenças mais difundidas da gestão contemporânea: a ideia de que a transformação acontece apenas por meio das pessoas. A verdadeira mudança, argumenta o autor, depende da capacidade de revisar as estruturas invisíveis que moldam comportamentos, decisões e culturas organizacionais.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
27 de julho de 2026 14H00
Após anos de perda de passageiros e desafios financeiros, o transporte coletivo brasileiro ganha um novo marco regulatório que busca ampliar fontes de financiamento, reduzir desequilíbrios tarifários e criar condições para mais investimentos em qualidade, eficiência e experiência do usuário.

Vinicius Ladeira - Diretor Adjunto Nacional do SEST SENAT

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
27 de julho de 2026 08H00
Enquanto o debate sobre inteligência artificial continua concentrado em modelos, automação e produtividade, uma outra transformação acontece nos bastidores: a tensão gerada entre a democratização e a concentração de poder que pode definir a próxima fase da economia global.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

8 minutos min de leitura
Liderança
26 de julho de 2026 13H00
Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional - planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente - são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

Caio Fontenelle - Fundador dos restaurantes Figueira, Oliv e Pepper Jack

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de julho de 2026 07H00
A IA pode economizar horas em atividades operacionais, mas seu maior valor talvez esteja em outro lugar: ampliar perspectivas, conectar ideias e elevar a qualidade das decisões. O desafio é entender quando estamos ganhando velocidade e quando estamos construindo algo melhor.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
25 de julho de 2026 14H00
Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo