Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Bem-estar & saúde, Finanças
5 minutos min de leitura

Meia-idade, carreira e saúde mental: reinventando a estabilidade

Aos 40, a estabilidade virou exceção - mas também pode ser o início de um novo roteiro, mais consciente, humano e possível.
Sócia da House of Feelings, psicóloga e professora na FIA/USP e na Saint Paul Escola de Negócios. Atua há mais de 15 anos em Recursos Humanos com foco em saúde mental, desenvolvimento humano e cultura organizacional. Especialista em diagnósticos de clima, desenho de programas estratégicos de pessoas, mapeamento de talentos e sucessão. Mestre em Transição de Carreira pela FIA, combina experiência acadêmica e prática empresarial para apoiar líderes e organizações na construção de ambientes de trabalho mais humanos, sustentáveis e de alta performance.

Compartilhar:

Quem nunca se pegou comparando sua vida com a dos pais na mesma faixa etária? Aos 40, eles tinham casa, estabilidade e planos para a aposentadoria. Nós, porém, chegamos ao mesmo ponto com dívidas acumuladas, empregos instáveis, aluguel e uma sensação constante de atraso. Não por falta de dedicação, mas como reflexo das profundas mudanças no tecido social e econômico.

Dados recentes ajudam a iluminar por que esse choque de expectativas existe. Segundo levantamento da Serasa de outubro de 2024, 73,1 milhões de brasileiros estão endividados; a faixa etária entre 41 e 60 anos representa a maior parte daqueles com restrição de crédito (“nome sujo”), com 35,1% deste total.

E não são só as finanças: o desemprego de longa duração também é alarmante. No segundo trimestre de 2025, o IBGE apontou que 1,254 milhão de pessoas estavam desempregadas há pelo menos dois anos; se considerarmos quem busca emprego há pelo menos um ano, esse número sobe para 1,913 milhões. Em outro corte anterior, o primeiro trimestre de 2024 registrava 1,916 milhão nessa mesma condição de pelo menos dois anos sem emprego.

Paralelamente, há uma crescente precarização da renda. Segundo análise da Pnad Contínua e de outras pesquisas, o número de pessoas trabalhando por até um salário mínimo cresceu bastante desde 2020, indicando que muitos empregos gerados não oferecem segurança ou renda adequada para se manter uma base estável de vida.

De fato, estabilidade financeira, que muitos acreditavam vir “automaticamente” com a idade, hoje parece mais escassa. Relações de trabalho mudam: contratos são menos fixos, “freelas”, responsabilidades variadas (muitas vezes com jornadas além do convencional), e menos previsibilidade para planejar o futuro. A habitação está cada vez mais distante para muitos: os preços dos imóveis, altos juros de financiamento e inflação corroem o poder de compra, enquanto os aluguéis sobem, comprometendo boa parte da renda mensal.

Outro fator que agrava esse cenário é o etarismo. Muitas organizações ainda preferem contratar jovens, associando idade à obsolescência, quando, na verdade, a experiência é um ativo estratégico.

Estudos e artigos do Fórum Econômico Mundial apontam que muitos empregadores e processos de seleção tendem a favorecer candidatos mais jovens; uma estimativa indica que até 76% dos empregados já sofreram discriminação etária (em algum nível). Esse preconceito etário não só limita oportunidades profissionais, como também impacta diretamente a saúde mental daqueles que se veem descartados em plena idade produtiva.


Saúde mental

O impacto psicológico dessa realidade é forte. Pesquisa da Serasa de 2022 (“Perfil e Comportamento do Endividamento Brasileiro”) com mais de 5 mil pessoas revelou que 83% dos endividados têm dificuldade para dormir por causa das dívidas, e 74% relatam dificuldade para se concentrar. Esses sintomas – insônia, ansiedade, ruminação – se somam ao desgaste de batalhar num mercado incerto.

Outro aspecto é que na meia-idade pode acontecer o risco da chamada ‘crise de relevância’: a sensação de que não se é mais competitivo, desejado ou valorizado no mercado, o que intensifica quadros de ansiedade e depressão

Por fim, a saúde mental é que paga o preço desses desequilíbrios: além dos sintomas de ansiedade e insônia já apontados, há relatos mais gerais de burnout, sensação de fracasso (quando comparados a padrões irreais), culpa por não cumprir “roteiros” herdados, e medo de envelhecer com dívidas ou sem recursos. Se a carreira é vista como uma pista de corrida, muitos se sentem tropeçando em cada quilômetro.


Luz no fim do túnel

Mas há esperança – e alternativas. Primeiro, reconhecer que o modelo tradicional de “sucesso” (casa, emprego, aposentadoria estável com 30-40 anos) está em transição. Para muita gente, a estabilidade poderá significar autonomia, flexibilidade, segurança mínima, boas relações de trabalho, saúde física e mental mantida, suporte social. Significa também reconfigurar a maneira de pensar carreira: não necessariamente linear, mas modular, com pausas, reinvenções, aprendizados contínuos, talvez múltiplos projetos que se sobrepõem.

De acordo com a acadêmica Herminia Ibarra, a sugestão para este cenário é adotar uma mentalidade exploradora, experimentar “possible selves” (versões de si mesmo que ainda não estão totalmente definidas), usar fases “liminais” (períodos de transição/incerteza) para testar novos papéis, e focar em pequenos passos e aprendizagens.

Segundo, políticas públicas e reformas são essenciais: redes de proteção social fortes; estímulo à qualificação e reciclagem profissional ao longo da vida; acesso a saúde mental pública; moradia com financiamento justo e subsídios onde necessário; regulação que minimize o impacto da inflação sobre rendas baixas; regulação de juros mais justos; crédito responsável.

Terceiro, no plano pessoal, práticas que ajudam: definir prioridades de vida (o que realmente importa para “viver bem”); limitar comparações com padrões alheios; desenvolver ferramentas de autocuidado; buscar redes de suporte (familiares, amizades, grupos de interesse); negociar expectativas no ambiente de trabalho; aprender finanças básicas; planejar mesmo em contexto incerto.

A grande virada está em redefinir o que entendemos por sucesso: não apenas patrimônio ou título, mas qualidade de vida, saúde emocional, liberdade e relações significativas. Isso, claro, sem ignorar a realidade de que precisamos pagar contas, sustentar famílias e lidar com compromissos financeiros. O equilíbrio está em buscar escolhas mais saudáveis e conscientes que, ao mesmo tempo, mantenham nossa estabilidade prática e fortaleçam nossa vida emocional.

Em resumo: a verdadeira revolução dessa geração está em ter coragem de criar um novo roteiro. Um roteiro que não imite, mas dialogue com o passado; que não se curve à pressão externa, mas se baseie no que podemos controlar. Meios que permitam viver bem aos 40 – com saúde mental, dignidade, realização – podem (e devem) ser construídos.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Inovação virou desculpa para má gestão

Quando a inovação vira justificativa para desorganização, empresas perdem foco, desperdiçam recursos e confundem criatividade com falta de gestão – um risco cada vez mais caro para líderes e negócios.

Liderança
19 de janeiro de 2026
A COP 30 expôs um paradoxo gritante: temos dados e tecnologia em abundância, mas carecemos da consciência para usá-los. Se a agenda climática deixou de ser ambiental para se tornar existencial, por que ainda tratamos espiritualidade corporativa como tabu?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

7 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
17 de janeiro de 2026
Falar em ‘epidemia de Burnout’ virou o álibi perfeito: responsabiliza empresas, alimenta fundos públicos e poupa o Estado de encarar o verdadeiro colapso social que adoece o país. O que falta não é diagnóstico - é coragem para dizer de onde vem o problema

Dr. Glauco Callia - Médico, CEO e fundador da Zenith

7 minutos min de leitura
Liderança, ESG
16 de janeiro de 2026
No início de 2026, mais do que otimismo, precisamos de esperança ativa - o ‘esperançar’ de Paulo Freire. Lideranças que acolhem perdas, profissionais que transformam desafios em movimento e organizações que apostam na criação de futuros melhores, um dia de cada vez.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
15 de janeiro de 2026
A jornada de venda B2B deve incluir geração de demanda inteligente, excelência no processo de discovery e investimento em sucesso do cliente.

Rafael Silva - Head de parcerias e alianças da Lecom

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
14 de janeiro de 2026
Cumprir cotas não é inclusão: a nova pesquisa "Radar da Inclusão" revela barreiras invisíveis que bloqueiam carreiras e expõe a urgência de transformar diversidade em acessibilidade, protagonismo e segurança psicológica.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional
13 de janeiro de 2026
Remuneração variável não é um benefício extra: é um contrato psicológico que define confiança, engajamento e cultura. Quando mal estruturada, custa caro - e não apenas no caixa

Ivan Cruz - Cofundador da Mereo

5 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Estratégia
12 de janeiro de 2026
Empresas que tratam sucessão como evento, e não como processo, vivem em campanha eleitoral permanente: discursos inflados, pouca estrutura e dependência de salvadores. Em 2026, sua organização vai escolher maturidade ou improviso?

Renato Bagnolesi - CEO da FESA Group

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
9 de janeiro de 2026
Alta performance contínua é uma ilusão corporativa que custa caro: transforma excelência em exaustão e engajamento em sobrecarga. Está na hora de parar de romantizar quem nunca para.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de janeiro de 2026
Diversidade não é jogo de aparências nem disputa por cargos. Empresas que transformam discurso em prática - com inclusão real e estruturas consistentes - não apenas crescem mais, crescem melhor

Giovanna Gregori Pinto - Executiva de RH e fundadora da People Leap

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de janeiro de 2026
E se o maior risco estratégico para 2026 não for uma decisão errada - mas uma boa decisão tomada com base em uma visão de mundo desatualizada?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança