Liderança

Mulheres na liderança: qual a evolução das premiadas Ouro e Prata no WEPs Brasil?

Queremos novas atitudes que acolham os valores femininos e masculinos com igualdade de importância e sem polarizar.
Administradora pela EAESP – FGV, mestra em Sustentabilidade e Governança com artigo publicado em 2020 na RECADM sobre “A representatividade das mulheres na liderança”. Tem especialização no PIM na HEC e no Diversity Program da INSEAD na France. Possui 25 anos de vivência internacional em cargos de liderança (França, Brasil, Argentina, Chile) no Groupe Renault France. Desde 2011 se dedica ao desenvolvimento humano como coach, mentora, facilitadora, palestrante, educadora e consultora cultural com o Barrrett Model.

Compartilhar:

Durante muito tempo abordei a representatividade das mulheres no mundo corporativo como uma questão de meritocracia. Precisei me voltar para o desenvolvimento humano para entender que toda a minha biografia me fazia uma exceção ao invés de uma regra que pudesse ser generalizada. E como diz Viola Davis “exceções não representam nosso cotidiano!”.

Quando iniciei minha trajetória com a Inclusão de Gênero em 2014, minha primeira conexão foi com as mães e suas dificuldades para conciliar maternidade e carreira. Fui buscar entender a construção social que embasava as questões emocionais relacionadas a sensação de culpa e de insuficiência da maioria das [mulheres](https://revistahsm.com.br/post/trabalho-e-as-barreiras-de-acesso). Foi só então que entendi que isto é consequência deste modelo severo e socialmente construído com um alto padrão sobre o que seria ser uma boa mãe/esposa/filha/profissional.

Em dezembro de 2014, decidi que a questão era suficientemente importante para realizar uma pesquisa de mestrado e resolvi abordar o tema pela pauta mundial e verificar na prática como a ONU Mulheres e os WEPs (The Women’s Empowerment Principles) colaboram com a evolução do paradigma que acredita em determinismo biológico em função do sexo.

O prêmio WEPs Brasil é sem dúvida uma bela oportunidade para colocar o tema na pauta das organizações. Para que estas se impliquem plenamente, precisam entender que os investimentos devem ser sobretudo realizados na evolução cultural.

Práticas, políticas, sistemas de quotas podem contribuir para a redução da disparidade numérica, mas em nenhum caso com a construção de relações de igualdade entre os sexos. Estas ações servem para apoiar o movimento cultural e reduzir a disparidade enquanto a evolução acontece.

Precisamos de novos comportamentos baseados na aceitação de um e outra como seres humanos ao invés de uma em oposição ao outro. Queremos novas atitudes que acolham os valores femininos e masculinos com igualdade de importância e sem polarizar.

![Atributos](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/7Hu4GRVdGspLqyuO8bc4Yy/c621815a318d5ea2314d1a9807d57fc6/Atributos.png)

Percebo hoje na mídia uma facilidade enorme para encontrarmos exemplos de práticas e políticas que favorecem a inclusão. Também podemos encontrar muitas notícias sobre o engajamento das organizações com metas favoráveis às mulheres. Vamos ver como essa questão está evoluindo?

Um olhar sobre a situação das organizações premiadas no WEPs pode ser um meio muito bom para avaliarmos a performance das iniciativas e a real evolução da inclusão de gênero.

Em função da disponibilidade pública de dados na internet e em relatórios oficiais das 10 empresas premiadas Ouro ou Prata em 2016, podemos visualizar a evolução desde 2009. As empresas marcadas com (*) também foram premiadas Ouro ou Prata na edição 2019 do prêmio. Esta pesquisa foi realizada em 2016 e atualizada em 25 de setembro de 2020.

![Diapositive1](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/5iYrwSFgtWDnSiYiG2DOrc/9a3011d0a8e540309c217ced7c182767/Diapositive1.jpeg)

O Prêmio WEPs tem como propósito incentivar e reconhecer os esforços das empresas que promovem a cultura da equidade de gênero criando oportunidades para se trabalhar e desarticular, por exemplo, os __Desafios Sistêmicos__ que as mulheres enfrentam quotidianamente na construção de uma carreira com pretensão para ocupar cargos de liderança.

__Precisamos valorizar mais o processo de evolução cultural__. Os resultados numéricos servem para medir a trajetória.

![Desafios Sistemicos v2](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/FpIHKYXEY2TsbJcxXZ3gv/ddc11f6c04b189e5093b11fb703e3ca1/Desafios_Sistemicos_v2.jpeg)

Uma das dificuldades que encontrei nesta análise de dados foi a consistência das séries, por exemplo, a Coca-Cola: em 2014 e 2015 os dados parecem não integrar a parte produtiva que tem em torno de 50.000 empregados. Outra dificuldade está relacionada com a ausência de dados. 

Diante dos dados disponíveis podemos compreender que mesmo as premiadas com Troféu Ouro ou Prata ainda podem estar longe da tão sonhada igualdade de gênero. *Precisamos despertar a consciência sobre o que atingimos, festejar* *e sobretudo deixar claríssimo que ainda temos muito trabalho pela frente.*

![Diapositive2](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/qPFtO9iRoQa7OxlytS2AG/34e7da64d44dbc92b4159d382ed1747f/Diapositive2.jpeg)

![Diapositive3](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/7sYJ8qbLOwZOpeSzoo4dM4/d3f23d49f0e02162e267813e7fc27e74/Diapositive3.jpeg)

É importante convidar as empresas premiadas a colocarem um olhar mais carinhoso no que diz respeito ao *princípio número sete do WEPs que solicita* *que as empresas signatárias realizem a* *medição, documentação e publicação* *dos seus progressos na promoção da igualdade de gênero.*

Tornar pública toda abordagem adotada para a evolução cultural, assim como a evolução numérica da representatividade das mulheres, permitiria visualizar como os investimentos realizados estão contribuindo positivamente com a mudança de mentalidade para sair do androcentrismo e aumentar a representatividade das [mulheres na liderança](https://revistahsm.com.br/post/o-significado-de-ser-uma-das-women-to-watch).

Políticas e práticas representam apenas uma das 6 fontes essenciais que precisamos trabalhar para provocar as novas atitudes com comportamentos que promovem a inclusão.

Como apontamos no infográfico ao lado é necessário motivar e capacitar as pessoas e a própria estrutura, tudo ao mesmo tempo para sonharmos e avançarmos com uma evolução cultural.

![Método](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/5LCjorYdWrbAYPcDfLk9fQ/7f1d93a184dc8339e917828a67b8a71b/Me__todo.png)

*Quando as informações estão ausentes, podemos levar as pessoas a acreditarem que tudo está resolvido, mesmo que isso esteja longe de ser uma realidade*. Pessoas que entrevistei na minha pesquisa, por exemplo, no que tange à maneira como abordam a questão, ainda acreditam que: a emoção mais aguçada é atribuída à mulher e a racionalidade ao homem, mulheres choram e é preciso aprender a acolher este choro – homens não choram, mulheres vão para o trabalho sem se libertar dos problemas pessoais e é preciso entender isso – homens deixam sua pessoa em casa. 

Apesar da premiação, estas características continuam sendo vistas como uma real diferença atribuída ao sexo biológico. Acreditam que é o determinismo biólogo que causa estas diferenças ao invés de uma diferença socialmente construída pelas relações de gênero (determinismo cultural).

Precisamos ir além do tratamento dos sintomas. Caso contrário, em um primeiro momento, veremos a massa aumentar. No entanto, sem abrir real espaço para que mulheres também assumam cargos de decisão. Precisamos tratar a causa raiz para mudar a cultura e favorecer [os valores femininos](https://revistahsm.com.br/post/michele-hunt-uma-mulher-inspiradora) e masculinos nas organizações no intuito de terem mais sucesso nas suas operações e ao mesmo tempo trazerem equilíbrio social. 

Vamos sair do politicamente correto e trabalhar o sentimento verdadeiro e profundo motivando e capacitando as pessoas para que se envolvam realmente no processo. Líderes são pessoas chaves nesta evolução. Por esta razão é fundamental proporcionar meios que trabalhem a motivação pessoal da liderança para que abracem esta causa. As mulheres precisam, igualmente, entender que também são hóspedes deste sistema e que é necessário reequacionar sua compreensão de mundo e viabilidade no universo do trabalho. Sair deste sistema sexista demanda uma mudança de atitude que mude o foco e inclua todos os stakeholders.

Como diz o filósofo francês Bourdieu, esta evolução é nossa, precisamos liberar mulheres e homens das estruturas impostas pelo modelo binário que os opõe. Vamos democratizar o conhecimento capacitando homens e mulheres para que se conectem plenamente com a importância do Equilíbrio de Gênero para os negócios (agilidade) e para uma vida social melhor e mais justa para todas e todos!

Compartilhar:

Artigos relacionados

Parte IV – Futuros em prompts: como disputar e construir realidade

Este é o quarto texto da série “Como promptar a realidade” e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência – mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

A era do “AI theater”: estamos fingindo transformação?

Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater – quando a inteligência artificial vira espetáculo – e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Parte III – APIs sociotécnicas versus malwares mentais… e como recuperar a soberania imaginal

Este é o terceiro texto da série “Como promptar a realidade”. Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado – e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita – sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
7 de março de 2026
Por que sistemas parecem funcionar… até o cliente realmente precisar deles

Marta Ferreira - Cofundadora e presidente da Spread Portugal

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
6 de março de 2026 06H00
A maior feira de varejo do mundo confirmou: não faltam soluções digitais, falta maturidade humana para integrá‑las.

Michele Hacke - Palestrante TEDx, Professora de Liderança Multigeracional

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
5 de março de 2026
Entre respostas perfeitas e textos polidos demais, corre o risco de desaparecer aquilo que nos torna únicos: nossa capacidade de errar, sentir, duvidar - e pensar por conta própria

Bruna Lopes de Barros

2 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
4 de março de 2026 12h00
Com todos acessando as mesmas ferramentas para polir narrativas, o que os diferencia? Segundo pesquisa feita com gestores brasileiros, autoconhecimento, expressão e autoria

Patricia Gibin - Consultora e coach

19 minutos min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
4 de março de 2026 06H00
As agendas do ATD26 e SHRM26 deixam claro: o ano começou exigindo líderes capazes de decidir com IA, sustentar cultura e entregar performance em sistemas cada vez mais complexos. Liderança virou infraestrutura de execução - e está em ritmo acelerado.

Allessandra Canuto - Especialista em Inteligência Emocional e Saúde Mental

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
3 de março de 2026 15h00
O verdadeiro poder está em aprender a editar o que a tecnologia ousa criar. Em outras palavras, a era da IA generativa derruba o mito da máquina infalível e te convida para dialogar com artistas imprevisíveis.

Sylvio Leal - Head de Marketing Latam da Sinch

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
3 de março de 2026 08h00
Quando o ego negocia no seu lugar, até decisões inteligentes produzem resultados medíocres. Este artigo aborda a negociação sob a ótica da teoria dos jogos, identidade decisória e arquitetura de incentivos - não apenas como técnica, mas como variável estrutural na construção de valor organizacional.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Cultura organizacional, Liderança
2 de março de 2026
Em meio à aceleração da inteligência artificial e à emergência da era agentica, este artigo propõe uma reflexão pouco usual: as transformações mais complexas da IA não são tecnológicas, mas humanas. A partir de uma perspectiva pessoal e prática, o texto explora como auto conhecimento, percepção, medo, intenção, hábitos, ritmo, desapego e adaptação tornam-se variáveis centrais em um mundo de agentes e automação cognitiva. Mais do que discutir ferramentas, a narrativa investiga as tensões invisíveis que moldam decisões, identidades e modelos mentais, defendendo que a verdadeira revolução em curso acontece na consciência humana e não apenas na tecnologia.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
1º de março de 2026
A crise não está apenas no excesso de trabalho, mas no peso emocional que distorce decisões e fragiliza equipes.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de fevereiro de 2026
Em 2026 o diferencial no uso da IA não será de quem criar mais agentes ou automatizar mais tarefas, mas em quem souber construir sistemas capazes de pensar, aprender e decidir melhor no seu contexto organizacional.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...