Bem-estar & saúde
5 minutos min de leitura

Ninguém chega ao topo sem cuidar da mente: O papel da NR-1

Na montanha, aprender a reconhecer os próprios limites não é opcional - é questão de sobrevivência. No ambiente corporativo deveria ser parecido. Identificar sinais precoces de sobrecarga, entender como reagimos sob pressão e criar espaços seguros de diálogo são medidas preventivas muito eficazes.
Conhecida como a primeira mulher negra latino-americana a escalar o Everest, Aretha é embaixadora da Veolia Brasil, da The North Face Brasil, e dos projetos Favela Radical, Outward Bound Brasil e Pés Livres - com mulheres e crianças na Tanzânia. Formada em Educação Física, atualmente, além das expedições em grupos, Aretha também ministra palestras corporativas, abordando temáticas como impacto social para as empresas, sustentabilidade na prática, liderança com propósito e engajamento em ações como a SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho) de forma humana e inspiradora.

Compartilhar:

Aretha Duarte – primeira mulher negra latinoamericana a chegar ao topo do Everest | Crédito: Gabriel Tarso


O ano de 2026 marca um novo capítulo para a saúde e a segurança no trabalho no Brasil. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) determina que as empresas incorporem os riscos psicossociais – como estresse, ansiedade e burnout – em seus Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR). Apesar da importância e da proximidade do calendário originalmente previsto, um levantamento nacional da consultoria Heach indica que 68% das empresas no Brasil ainda não sabem como cumprir as novas exigências, evidenciando uma lacuna real de preparação do mercado. Na minha leitura, essa mudança vai além do aspecto regulatório: ela marca uma virada de mentalidade. A saúde mental deixa de ser coadjuvante e passa a ocupar lugar de destaque como ativo estratégico de negócio.

Ao longo da minha trajetória no montanhismo, que me levou a ser a primeira mulher negra latino-americana a alcançar o topo do Everest, aprendi que desempenho sustentável só existe quando corpo e mente estão alinhados. Em ambientes de pressão extrema, como a alta montanha ou o mundo corporativo, ignorar sinais de esgotamento cobra um preço alto. Por isso, vejo a nova NR-1 como um convite para que as organizações amadureçam a forma como enxergam risco, performance e cuidado com as pessoas.

O primeiro movimento necessário é ampliar o próprio conceito de segurança no trabalho. Durante décadas, falamos prioritariamente de prevenção de acidentes físicos. Agora, somos chamados a proteger também o capital humano contra o desgaste emocional crônico. Isso exige sair da zona de conforto e mapear riscos que antes eram invisíveis ou subestimados. Não se trata apenas de compliance, mas de competitividade de longo prazo.

Outro ponto que considero crítico é o papel do corpo e do movimento na regulação emocional. O esporte e o contato com a natureza são ferramentas concretas de saúde mental: a atividade física estimula a liberação de endorfina e serotonina, melhora o humor, o sono e a capacidade de concentração. As Diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para atividade física e comportamento sedentário (2020) associam a prática regular a benefícios mensuráveis de saúde, incluindo melhor bem-estar mental. Na prática, bem-estar não é apenas discurso – é fisiologia aplicada à performance.

Mas nenhuma política de saúde mental se sustenta sem um elemento central: a autoconsciência. Na montanha, reconhecer os próprios limites é questão de sobrevivência. No ambiente corporativo deveria ser parecido. Identificar sinais precoces de sobrecarga, entender como reagimos sob pressão e criar espaços seguros de diálogo são medidas preventivas muito mais eficazes do que qualquer ação corretiva posterior. Empresas que investem em letramento emocional e reflexão estruturada dão um passo importante na direção certa.

Foi a partir dessa visão que desenvolvi programas como o “Todas no Topo”, uma experiência imersiva nas montanhas voltada a mulheres em posição de liderança ou em transição de carreira – trago esse exemplo como ilustração metodológica de desenvolvimento socioemocional. A proposta é traduzir aprendizados reais em contextos de incerteza, nos quais tomada de decisão, comunicação empática, autonomia e colaboração deixam de ser conceitos e passam a ser vivências. Quando nos afastamos do piloto automático e nos reconectamos com ambientes desafiadores, ganhamos clareza sobre nossos padrões de comportamento – algo que o escritório raramente revela com a mesma intensidade.

Essa preparação se torna ainda mais relevante quando olhamos para o cenário atual dos negócios. Vivemos em um ambiente de constantes transformações, caracterizado por volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade – uma realidade que exige líderes e equipes emocionalmente preparados. A nova NR-1, ao enfatizar a antecipação e avaliação de riscos, dialoga diretamente com essa necessidade. É importante notar que, embora haja discussões no Ministério do Trabalho sobre um possível adiamento da implementação das novas exigências voltadas à saúde mental nas empresas, a relevância e a urgência do tema permanecem inalteradas: a gestão dos riscos psicossociais já é um diferencial competitivo e uma demanda social inescapável.

Também é preciso dizer com todas as letras: investir em saúde mental não é apenas obrigação legal; é vantagem competitiva mensurável. Ambientes psicologicamente saudáveis tendem a apresentar menor absenteísmo, maior engajamento, mais produtividade e melhor retenção de talentos. No plano global, a OMS e a OIT estimam que depressão e ansiedade custam à economia mundial cerca de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade, reforçando a dimensão econômica do cuidado. Em outras palavras, saúde mental é questão de gente – e também de resultado.

No horizonte, o que a NR-1 aponta é a consolidação de uma liderança mais humana e, paradoxalmente, mais estratégica. Na minha experiência, não existe alta performance sustentada sem pausas inteligentes, sem redes de apoio e sem um time que se sinta seguro para performar. A montanha me ensinou uma verdade simples que vale para qualquer organização: ninguém chega ao topo sozinho – e ninguém se mantém lá ignorando os sinais do próprio corpo e da mente.

Se as empresas brasileiras compreenderem a profundidade dessa mudança – e a importância de suas diretrizes, mesmo que haja ajuste no calendário de implementação -, a NR-1 deixará de ser vista como mais uma exigência normativa e passará a ser o que de fato representa: uma oportunidade concreta de construir organizações mais resilientes, produtivas e preparadas para o futuro.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Essa reunião podia ser um agente

Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão – e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Marketing & growth
12 de maio de 2026 14H00
O que antes era visto como informalidade agora é diferencial: este artigo explora como a cultura brasileira vem ganhando espaço global - e se transformando em ativo estratégico nas empresas.

Bell Gama - Sócia-fundadora da Air Branding

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
12 de maio de 2026 08H00
Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão - e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
11 de maio de 2026 15H00
A troca no comando da Apple reacende um dilema central da liderança: como assumir um legado sem se tornar refém dele - e por que repetir o passado pode ser o maior risco em qualquer processo de sucessão.

Maria Eduarda Silveira - CEO da BOLD HRO

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de maio de 2026 08H00
Vivara, Natura, Blip, iFood e Endeavor já estão usando o Open Talent para ganhar agilidade e impacto. Este artigo revela por que a liderança por projeto e o talento sob demanda estão redesenhando o futuro do trabalho.

Cristiane Mendes - CEO da Chiefs.Group

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
10 de maio de 2026 15H00
Em certas empresas, estar certo não basta - é preciso ser relevante na sala onde as decisões realmente acontecem. Este artigo revela por que, em estruturas de controle concentrado, a influência do CFO depende menos da planilha e mais da capacidade de ler pessoas, contexto e poder.

Darcio Zarpellon - Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF)

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de maio de 2026 08H00
Este artigo revela como contratações executivas mal calibradas - ou decisões adiadas - geram custos invisíveis que travam crescimento, atrasam decisões e comprometem resultados no longo prazo.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
9 de maio de 2026 15H00
Em um setor marcado por desafios constantes, este artigo revela por que a verdadeira vantagem competitiva está na capacidade de evoluir com consistência, fortalecer relações e entregar valor sustentável no longo prazo.

Rodrigo M. Bortolini - Diretor-presidente da Selgron

5 minutos min de leitura
ESG, Liderança
9 de maio de 2026 09H00
Em um mundo de incerteza crescente, manter conselhos homogêneos deixou de ser conforto - passou a ser risco. Este artigo deixa claro que atingir massa crítica de diversidade não é agenda social, é condição para decisões mais robustas e resultados superiores no longo prazo.

Anna Guimarães - Presidente do Conselho Consultivo do 30% Club Brasil, conselheira e ex-CEO.

5 minutos min de leitura
Lifelong learning
8 de maio de 2026 08H00
Neste artigo, a capacidade de discordar surge como um ativo estratégico: ao ativar a neuroplasticidade, líderes e organizações deixam de apenas reagir ao novo e passam a construir transformação real, sustentada por pensamento crítico, consistência e integridade cognitiva.

Andre Cruz - Founder da Neura.cx

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
8 de maio de 2026 07H00
Ao colocar lado a lado a Reforma Tributária e o avanço da inteligência artificial, este artigo mostra por que a gestão empresarial no Brasil entrou em um novo patamar - no qual decisões em tempo real, dados integrados e precisão operacional deixam de ser vantagem e passam a ser condição de sobrevivência.

Odair Benke - Gestor de operações com o mercado na WK.

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão