Cultura organizacional
Oferecido por:

No mês da mulher, assuma que a cultura organizacional falhou (e falha) com elas

No dia 8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher, e, mesmo com tantas conquistas, ainda encontramos inúmeras barreiras no mercado de trabalho
Tássia Bezerra é jornalista, profissional de marketing certificada (CDMP) e pós-graduanda em economia comportamental pela ESPM. Tem mais de nove anos de experiência profissional com amplo conhecimento em gestão de projetos, funil de marketing, relações públicas e planejamento estratégico de conteúdo.

Compartilhar:

Desde meados do ano passado, após passar por uma demissão em massa quando ocupava um cargo de especialista, comecei a estudar toda a movimentação de mercado e cultura empresarial na tentativa de levantar questões e possibilidades para um ambiente de trabalho mais seguro para mulheres. A realidade, no entanto, segue desafiadora. O Brasil fechou 2022 com uma taxa de desemprego de 6,5% para homens e 9,8% para mulheres, de acordo com os dados divulgados pela [Pnad Contínua](https://revistapegn.globo.com/economia/noticia/2023/02/ibge-taxa-de-desemprego-no-4tri-foi-de-65-para-homens-e-98-para-mulheres.ghtml).

Só na área de tecnologia, por exemplo, as empresas demitiram mais de 150 mil funcionários em 2022, segundo o site de rastreamento [Layoffs.fyi](https://layoffs.fyi/). E, apenas no primeiro trimestre de 2023, as tech companies já extinguiram quase 76 mil cargos. Esses são os dados retirados de uma [matéria](https://www.bbc.com/portuguese/articles/clwrg1pdp7go) da BBC Brasil.

O resultado desse movimento é evidente: a precarização do mercado de trabalho, sobretudo para as mulheres, que dentro de uma lista de demissão por faixa salarial ou por cargos são as mais impactadas, seja por ganharem menos que os homens ou por ocuparem cargos menos estratégicos, no geral.

Se antes as principais dificuldades que as mulheres tinham que enfrentar eram equiparar salários com homens e oportunidades justas de crescimento e liderança; agora a realidade é ter que aceitar ofertas com remunerações ainda mais baixas para continuarem atuando no mercado.

## Quiet quitting e great resignation seguem firmes
Em paralelo a esse movimento, acontece, ainda, mesmo que timidamente por conta da crise econômica, um grupo que continua levantando a bandeira do quiet quitting (demissão silenciosa) ou da great resignation (grande resignação, isto é, sair do mercado de trabalho por vontade própria). Claro que, nesse contexto, tais movimentos estão limitados a grupos mais privilegiados socioeconomicamente, mas, independentemente disso, é o que tem acontecido na arena.

O quiet quitting consiste em fazer apenas o necessário para realizar seu trabalho, sem deixar o bem-estar e a vida pessoal de lado, e já é uma prática adotada por 11,9% dos funcionários no Brasil, de acordo com a pesquisa da EDC Group que foi divulgada pela [Forbes Brasil](https://forbes.com.br/carreira/2023/02/quiet-quitting-12-dos-brasileiros-aderem-a-demissao-silenciosa/) em fevereiro deste ano. O curioso dessa pesquisa é que os “quiet quitters” são, em sua maioria, 67%, homens.

Além disso, mesmo que 2022 tenha sido o ano do boom das demissões em massa, quase 6,8 milhões de brasileiros pediram demissão de forma voluntária, de acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), compilados pela LCA Consultores divulgados pelo [Monitor Mercantil](https://monitormercantil.com.br/quase-68-milhoes-de-brasileiros-pediram-demissao-em-2022/) este mês. Esse número é o equivalente a um terço do total de desligamentos no País no último ano e torna evidente a insatisfação dos profissionais com seus cargos, empresas ou carreiras atuais.

Diante de todo o cenário controverso entre a volta da precarização do trabalho impulsionada pelas demissões em massa e a tendência crescente dos brasileiros em abandonar seus empregos, mesmo em plena crise econômica, só há uma conclusão: a cultura empresarial falhou.

E falhou ao apostar em vidas se baseando apenas em otimismo, não investindo em ter foco e em planejamento objetivo, preferindo “queimar caixa” em contratações pautadas na promessa de crescimento; falhou em não optar por um crescimento sustentável e prudente; falhou em não investir no desenvolvimento de boas lideranças; falhou, sobretudo, em não possibilitar ambientes onde colaboradores sintam vontade de ficar. Falhou e ainda falha.

Não faz muito tempo que li no LinkedIn que a cultura come a estratégia no café da manhã. Eu iria além: diria que no Brasil não existe estratégia, apenas a cultura.

Dito isso, quando o mercado irá fazer um one-on-one (1:1) com a cultura empresarial? Enquanto isso não acontecer, cada vez mais o gerenciamento de pessoas e suas respectivas entregas e resultados gerais da empresa serão um tipo de loteria.

## Cultura empresarial no divã
Recentemente, em uma [matéria da Harvard Business Review](https://hbr.org/2023/01/rethink-your-employee-value-proposition), Mark Mortensen e Amy C. Edmondson apontaram que, para mitigar os desafios da atração e retenção de talentos, é importante seguir uma estratégia básica: perguntar às pessoas o que elas querem (e tentar possibilitar isso).

Na maioria das vezes, o desejo das pessoas está relacionado à remuneração, sobretudo no contexto de mulheres e grupos diversos que ganham menos que homens brancos. No entanto, embora as ofertas materiais sejam as alavancas mais fáceis de puxar e sejam imediatamente apreciadas, elas são fáceis de serem imitadas pelos concorrentes, e seu impacto na retenção de funcionários é o menos duradouro.

Por isso, uma vez resolvido o básico em termos de remuneração (algo que ainda parece ser uma longa e distante jornada para mulheres, por exemplo), o que realmente promove retenção profissional, de acordo com os especialistas citados, é projetar e implementar uma proposta de valor para o funcionário — um sistema composto por fatores interrelacionados.

Entre eles estão as oportunidades de desenvolvimento e crescimento pelas quais uma organização ajuda os funcionários a adquirir novas habilidades ou a se tornarem mais valiosos no mercado de trabalho – seja atribuindo novas funções, colocando em rodízio de cargos, oferecendo treinamento ou promovendo, por exemplo.

Outro fator apontado como fundamental para trabalhos mais justos e menos precários é a conexão. Isso significa ser apreciado e valorizado por quem você é, a partir de um senso de responsabilidade mútuo e de relacionamentos sociais. Permitir que as pessoas se expressem com franqueza e respeito gera um sentimento de pertencimento.

Já para Debbie Cohen e Kate Roeske-Zummer, cofundadoras da Humanity Works, empresa focada em trazer comportamentos positivos no ambiente de trabalho, o fundamental para atingir retenção é dar espaço genuíno para a vulnerabilidade e para o “não saber de tudo” porque isso abre o caminho para criar mais envolvimento e lealdade de todas as partes interessadas: companheiros de equipe, pares, colegas e subordinados diretos. De acordo com elas, [você mostra o caminho abrindo a porta](https://hbr.org/2021/10/with-so-many-people-quitting-dont-overlook-those-who-stay).

Dito isso, para você, mulher, que trabalha com outras mulheres; para você, liderança masculina que tem lideradas mulheres: mostre o caminho abrindo a porta, com equidade, respeito, justiça e empatia.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A contradição que desafia a ONU: É possível falar em inclusão global sem Taiwan?

Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

O próximo Pix será de competências

Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Thought leadership: quando a ideia vale mais que a visibilidade

Palcos, entrevistas e redes sociais ampliam alcance, mas não constroem autoridade por si só. O artigo explora como empresas e executivos podem desenvolver influência genuína em um cenário em que a confiança se tornou mais pessoal, mais seletiva e cada vez mais vinculada à qualidade do pensamento que produzem e compartilham.

A IA não vai tornar o trabalho mais humano. Nós é que precisamos fazer isso.

A tecnologia está mudando a forma como criamos, trabalhamos e tomamos decisões. Mas existe uma diferença fundamental entre processar informação e acumular vivência. O artigo propõe uma reflexão sobre pensamento crítico, criatividade e o papel das chamadas “power skills” em um cenário onde a inteligência artificial amplia capacidades, mas não substitui experiências humanas.

Por que você deve reconsiderar a rota enquanto ela ainda funciona

Poucos elementos são tão perigosos quanto um sistema que parece funcionar bem o suficiente para não ser questionado. No universo das parcerias, resultados de curto prazo podem mascarar desalinhamentos estratégicos, limitações de escala e modelos que já não atendem às necessidades futuras da empresa.

Inovação & estratégia
25 de agosto de 2026 14H00
O artigo mostra que inovação não é um destino nem um grande projeto isolado, mas um processo contínuo de testar hipóteses, aprender com evidências e evoluir com intenção estratégica.

Thomas Rebergue - Chief Business Officer da GINGA

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
25 de agosto de 2026 08H00
O artigo demonstra que a criatividade deixa de ser atributo exclusivo da inovação e passa a ocupar um papel central na capacidade das organizações de compreender problemas complexos e construir soluções que gerem valor no longo prazo.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up, futurista e especialista em sustentabilidade e live marketing.

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Marketing & growth, User Experience, UX
24 de agosto de 2026 14H00
A antiga disputa entre e-commerce e lojas físicas perdeu sentido. O consumidor atual transita naturalmente entre ambientes digitais e presenciais, esperando uma experiência única, integrada e sem atritos. O artigo mostra por que o sucesso no varejo já não depende da força de um canal específico, mas da capacidade de conectar dados, tecnologia, atendimento e conveniência para construir jornadas fluidas e relevantes em todos os pontos de contato com a marca.

André Seibel - CEO do Circuito de Compras

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
24 de agosto de 2026 08H00
Existe uma crença silenciosa nas empresas de que profissionais experientes precisam ter opinião sobre tudo e discordar de quase todos. O problema é que posicionamento não é sinônimo de oposição. Neste artigo, o autor provoca uma reflexão sobre como a necessidade de marcar território pode comprometer relacionamentos, confiança e crescimento na carreira, e por que profissionais verdadeiramente influentes são aqueles que contribuem para a qualidade das decisões, independentemente de quem trouxe a ideia para a mesa.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
23 de agosto de 2026 13H00
As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Rui Piranda - Sócio-fundador da ForALL

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Marketing & growth
23 de agosto de 2026 08H00
Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

Evandro Monteiro - CEO da Origami Marketing e Eventos.

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de agosto de 2026 14H00
Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Caio Navarro - Fundador e CEO da consultoria Hand

Oferecido por:
7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Bem-estar & saúde, Marketing & growth
22 de agosto de 2026 07H00
Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

Mayara Marcon - Head de Marketing na Lightsweet

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
21 de agosto de 2026 18H00
Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Rose Kurdoglian - Fundadora da RK Mentoring Hub

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de agosto de 2026 14H00
À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI

Oferecido por:
4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução