CONTAGEM REGRESSIVA COM CARLOS PIAZZA

Nossos futuros precisam ser regenerativos

Carlos Piazza, professor, consultor e sobretudo pensador da gestão no Brasil, não tem dúvidas de que nosso planeta corre risco de morte. Para evitá-lo, não basta as organizações deixarem de fazer as coisas erradas; elas precisam fazer cenários de reconstrução
Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios, com mais de 30 anos de experiência como redatora, repórter, editora e revisora. Colaboradora de HSM Management e de MIT Sloan Management Review Brasil.

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### 5 – “Futurismo regenerativo, dessincronização e ressonância”. O que significa o título de seu painel no HSM+? Parece complexo…
Vivemos num mundo que perdeu completamente a sincronização. Para começar, o meio ambiente está ficando dessincronizado. Como, por muito tempo, só tiramos do planeta, era de se esperar que ele começasse a agir contra nós. Mas fomos além; perdemos o sincronismo de absolutamente tudo: do viver, do trabalhar e do aprender. Viver, trabalhar e aprender eram – e são – uma coisa só. As pessoas ao longo do tempo dividiram isso em três personas apartadas, com códigos de conduta e de vestimenta diferentes. Veio a pandemia de covid-19 e mostrou que não fazia sentido, mas continuam tentando dessincronizar.

Nesse movimento, perde o planeta, perdem as pessoas, perdem as relações. Por que o volume de suicídios só aumenta? No ano passado, esse número na América Latina foi de 775 mil pessoas. É mais que a cidade de Ribeirão Preto inteira, em um ano.

### 4 – Qual é o impacto da dessincronização nas empresas?
O desengajamento das pessoas, e seu consequente baixo desempenho, é o maior dos impactos. As pessoas estão tentando buscar equilíbrio, mas não conseguem tê-lo. Falam de procrastinação, porque não sabem por onde começar. Estão perdidas. Não dá para falar em regeneração sem entender que o planeta perdeu o sincronismo.

### 3 – E ainda dá para regenerar?
Sim, temos o poder de transformar tudo a nossa volta. Desde que os hominídeos desceram das árvores 7 milhões de anos atrás, modificamos nosso entorno, trazendo inovações, mesmo que sejam as biológicas como andar com as patas de trás. No chão, era uma nova realidade, com outros animais, pequenos e imensos, até os que faziam você de refeição. Fomos aprendendo e inovando em tudo. É essa capacidade de transformação de tudo a nosso redor que, agora, está nos levando ao risco real da extinção da vida no planeta.

A meu ver, quando a gente se encontra nesse nível de dessincronização, só existe uma única maneira: ressincronizar o futuro, usando a própria capacidade transformadora do homem sobre ele mesmo. Como? Usando tecnologia de um lado e filosofia do outro. Por isso, ao falar sobre regeneração, eu falo sobre futurismo regenerativo, com muita tecnologia e filosofia.

Tecnologias destroem civilizações inteiras, e tecnologias criam a humanidade. A filosofia é o que pode fazer o pêndulo balançar da destruição para a criação nesses casos. Se não agirmos assim, não será possível a vida no planeta. Temos de enfrentar a realidade: não conseguimos mais ter um planeta responsivo.

### 2 – Então, a saída é…
Colocar o ser humano no centro, praticando o human-centered design para todas as decisões, que significa colocar as pessoas e o planeta que as acolhe em primeiro lugar. Todo o resto tem de vir depois.

Do lado da filosofia, já vemos as duas próximas gerações, a Z e a alfa, dizendo que não querem ter coisas, voltando-se mais para uma economia circular, compartilhada, para um consumo consciente. Ela estão alinhadas, mesmo sem saber, com o braço da filosofia que olha os fenômenos subjetivos da vida humana, a noética.

Do lado das tecnologias, elas são todas regenerativas. O relatório da ONU {Organização das Nações Unidas} coloca que a agricultura terá de produzir nos próximos 40 anos tudo o que ela produziu nos últimos 8 mil anos, para suprir a necessidade de comida da população. Teremos tecnologia para ir substituindo a capacidade que nós perdemos da produção natural? Sim. Vamos ter carne feita de célula-tronco, impressão de comida com pastas proteicas e todo tipo de coisa. Na Finlândia, por exemplo, a Solar Foods está fazendo comida de gás de efeito estufa.

## 1 – Isso significa que a sociedade inteira vai ter de reaprender as coisas. Mas como, quando tem gente que nem acredita que temos uma crise climática, até no comando de empresas?
É assustador. Me parece que, para muitas empresas, isso não existe, porque para elas ainda conta o foco na produção em massa. Essas vão começar a enxergar o que está acontecendo só quando vier o ciclo de escassez – no cenário de não retorno, no qual já estamos em muitos aspectos.

Eu não sei responder a sua pergunta sobre conscientização, a não ser fazendo outra pergunta: será que o aprendizado só será possível pela dor? Hoje a dedução é que argumentos racionais e dados não bastam. Mas o fato de o mundo inteiro estar passando por coisas que não conseguem compreender deveria nos colocar em estado de dúvida e humildade para aprender. O consolo é que ciência e tecnologia podem nos regenerar.

__Leia também: [Floresta abundante de oportunidades de negócios](https://www.revistahsm.com.br/post/floresta-abundante-de-oportunidades-de-negocios)__

Artigo publicado na HSM Management nº 160.

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