Saúde mental, Gestão de pessoas
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NR-1, governança em saúde mental do trabalho e tecnologia

Como as empresas podem usar inteligência artificial e dados para se enquadrar na NR-1, aproveitando o adiamento das punições para 2026
Glauco Callia é CEO e fundador do Zenith, plataforma de governança em saúde mental. Médico corporativo, com passagem por multinacionais globais como GSK e Caterpillar, tem especialização em arquitetura de programas de inteligência artificial pelo MIT, nos Estados Unidos. Rodrigo dos Anjos é CTO, cofundador do Zenith, especialista em inovação e transformação digital pelo MIT e pela University of Cambridge, no Reino Unido.

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Imagine um ambiente corporativo em que a produtividade cresce até 30%, o clima organizacional segue o fluxo aspiracional e, de quebra, a rotatividade despenca. Se antes essa tríade era vista como utópica, hoje, já é um futuro possível e observado por empresas que colocam a saúde mental de seus funcionários no centro de estratégia, tendo como aliada a tecnologia. Essa evolução também pode acontecer, a nosso ver, em virtude da nova NR-1, a norma que trata das diretrizes para o gerenciamento de riscos psicossociais relacionadas à jornada de trabalho.

A norma regulamentadora exige que as empresas implementem programas de gerenciamento de riscos ocupacionais, registro e monitoramento para ações preventivas e corretivas, incluindo riscos psicossociais como excesso de demandas, baixa autonomia, carga mental excessiva, pressão por resultados e relações interpessoais disfuncionais. Sem dúvida alguma, com ela, estamos às vésperas de um grande avanço na área, embora isso vá demorar um pouco mais do que o previsto. A vigência do capítulo que trata de gerenciamento de riscos ocupacionais e, portanto, o início da penalização de quem não cumprir a nova NR-1 foram prorrogados pelo Ministério do Trabalho e Emprego – MTE para 25 de maio de 2026.

Enquanto ela não vem, o governo fez três anúncios importantes. Anunciou a publicação de um guia oficial para a gestão de riscos psicossociais, informações relevantes sobre o que mudou na NR-1, como fazer a gestão dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, implementação e preparação do processo de identificação de perigos e avaliações de riscos, controle e acompanhamento das medidas de prevenção, documentação, exemplos práticos, entre outros. Anunciou o lançamento de um manual técnico detalhado sobre o tema. E, muito importante, anunciou a criação de um GTT – grupo de trabalho tripartite, formado por representantes do governo, de empresas e de trabalhadores, para acompanhar a evolução da norma na prática.

Todos os anúncios são bem-vindos. E é verdade que o caminho vai sendo pavimentado aos poucos. Mas será que o mercado está se preparando adequadamente para essas mudanças? Os gestores sabem que existem métodos e procedimentos de avaliação validados cientificamente? Programas eficazes, de fato, ou apenas medidas rasas que apenas cumprirão protocolos paliativos sem atingir a causa-raiz dos problemas? É disso que este artigo trata.

Programas eficazes versus protocolos paliativos

O principal avanço que a nova NR-1 pode proporcionar é a ampliação do rol de fatores de risco, que deverão ser observados e mitigados pelas empresas – estamos falando de riscos como estresse ocupacional crônico, assédio moral, burnout, isolamento e exigência de hiperconectividade. Estudos da OMS – Organização Mundial da Saúde revelam que os transtornos mentais representados nesses riscos são hoje a principal causa de afastamentos no trabalho. O presenteísmo, que é quando o colaborador está fisicamente presente mas emocionalmente ausente, é uma bomba silenciosa e catalisadora que mina engajamento, produtividade e cultura. Se juntar os quadros de ansiedade, depressão e estresse grave, representam 8,35%, já que os problemas relacionados à saúde mental já são a segunda maior causa dos adoecimentos ocupacionais.

Nossa provocação é clara: qual é o custo invisível que hoje – e há muito tempo -, as empresas estão pagando por negligenciar a saúde mental? Enquanto muitas empresas encaram a nova norma como um obstáculo burocrático, o mercado precisa enxergar como um catalisador de transformação e mapear, com precisão, a raiz do problema e não mais usar óculos míopes e soluções paliativas que não atingem a real entrave que impendem as empresas de crescerem.

Então, em vez de medidas rasas paliativas, queremos chamar a atenção para a capacidade de integrar dados preditivos à gestão da saúde emocional, que vem se tornando uma realidade à medida que a IA passa a ser uma aliada nessa questão. Antecipar problemas, evitar crises silenciosas e construir culturas resilientes, saudáveis e duradouras são caminhos possíveis daqui para frente. A inteligência artificial tem sido cada vez mais usada com esse olhar, a de transformar dados em decisões que geram impacto real, humano e estratégico. É com isso que temos trabalhado e acreditamos muito na eficácia de programas assim.

Se o leitor nos permite alguns exemplos, com a intervenção e os insights gerados por nossa plataforma de governança em saúde mental que usa IA, conseguimos melhorar a nota relativa a estresse de 3,49 para 4,2 (quanto mais alta melhor, nesse caso) no Grupo Mast, empresa focada na gestão da saúde ocupacional corporativa e segurança do trabalho – isso de 2017 para cá. Em uma grande rede hospitalar brasileira, nossa plataforma identificou pelo menos 24 casos de sofrimento mental agudo, sendo quatro deles com pensamentos suicidas. Nesse caso, agimos preventivamente. Antes, em uma grande farmacêutica de origem inglesa, nossa plataforma conseguiu reduzir em 50% o risco de burnout, com quatro anos de uso.

Nosso programa mapeia o espectro do estresse em sete pilares: demanda, controle, suporte da liderança, suporte dos pares, relacionamentos, propósitos da organização e mudanças. Com isso, o algoritmo consegue definir o que está errado, como pode ser melhorado e quais as melhores ações de melhoria. Também faz o acompanhamento dessas melhorias, além de calcular as linhas de PGRs (Programa de Gerenciamento de Riscos), necessárias para o cumprimento da NR-1 e para reportar o risco ao governo.

A plataforma começa por fazer um checklist com cada colaborador e, dependendo do seu índice de estresse, realiza outro checklist para detalhar os parâmetros de sofrimento mental. Alertas são disparados pela plataforma, quando, por exemplo, algum funcionário tem um pensamento suicida. O algoritmo também agrega as informações e constrói índices de estresses das equipes, liderança, diretorias até chegar à empresa como um todo, propondo planos de ações. Assim as equipes possam se autogerenciar.

OS CUSTOS OCULTOS da negligência com saúde mental são muitos, e costumam ter reflexos diretos em redução de produtividade e de resultados financeiros, além de acarretarem afastamentos frequentes e perda de talentos. Além disso, colaboradores desconectados e lideranças exaustas geram impactos negativos na reputação organizacional e em indicadores ESG (ambientais, sociais e de governança). A nova NR-1 vem como uma resposta a tudo isso e, em plena era da IA, a tecnologia pode ajudar muito.

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