O ponto de inflexão: enfrentar a resistência dos atores econômicos à observação
Ao fazer observações de atores em um ecossistema, ocorrerá a captura de informações sobre como esses mesmos atores obtêm recursos e atenção, o que, em teoria organizacional aplicada aos negócios, significa como obter parte da participação de mercado em receitas e uma fatia do financiamento disponível naquele ecossistema. Aqui estamos tratando do ecossistema farmacêutico no espectro econômico brasileiro e das empresas e pessoas que compõem esse setor.
Um dos importantes pressupostos é não deixar de se considerar um elemento central dentro da mesma teoria organizacional: a mimetização do sucesso. A partir de contação de histórias e de atividades de imprensa, relacionamento e aparição planejada dentro do setor econômico, como feiras e simpósios, e da adoção de modelos de boas práticas – ESG, prêmios de melhor lugar para se trabalhar, premiações sem impacto prático e de baixo índice reputacional, e participação em índices de melhores e maiores que não têm explicabilidade e repetibilidade – o ator mimetiza o sucesso, chama para si atenção e obtém parcela significativa dos recursos, a partir de um mundo onde, até aqui, a assimetria informacional persiste.
Com tudo isso à parte, e retirando cuidadosamente os ruídos informacionais, é possível a construção de sólidas hipóteses sobre o ecossistema que se está avaliando. É o que está sendo feito até este, que é o quinto da série de artigos sobre a indústria farmacêutica no Brasil.
Esta série seguiu um artigo publicado no início do ano de 2026 – “Quando a inovação vira narrativa: a busca por novidade começa a atrapalhar o progresso” – que foi produzido com o objetivo de iniciar um exercício de observação sistemática da inovação brasileira. Escolhemos a indústria farmacêutica em razão de seu orçamento nominal em P&D, entre os maiores do país, e seu impacto direto na população, o que justifica uma lente direta no setor se quisermos compreender a capacidade brasileira de produzir valor futuro.
O primeiro artigo – Brasil, inovação e o setor farmacêutico– tratou de organizar a trilha de observação em oito hipóteses verificáveis, que vão do comportamento das empresas à atuação do governo no setor, avaliando o impacto real do conjunto de iniciativas na população brasileira e sua capacidade de alteração do estado das coisas na geração de riqueza do país, através das atividades de P&D combinadas.
Olhando para os quatro primeiros artigos em conjunto, encontrados na minha coluna na HSM Management, percebe-se que em três deles as perspectivas colocadas foram construídas pela visão de atores privados do ecossistema. Com um olhar mais granular, por atores que não são considerados os maiores em receita bruta ou abrangência de mercado, mas que carregam especificidades em P&D.
Exceção se faz para o artigo com a liderança da Farma Brasil, entidade que reúne 20 dos maiores atores privados do setor, mas que, mesmo por sua dimensão simbólica ou por seu poder econômico combinado, não deve ser desconsiderada como ator com alto grau de mimetismo e com ações enviesadas para seus interesses econômicos, produzindo assimetria informacional e influência econômica ainda em maior grau de ressonância. Papel natural da entidade nos freios e nas alavancas da atividade econômica democrática.
Este, que é o quinto artigo, marca o início dos esforços para romper os obstáculos naturais impostos por qualquer setor econômico, em qualquer país do globo, quando se trata de escrutínio. Os atores de um ecossistema promovem um ambiente de legitimidade e o protegem a partir de técnicas como isomorfismo mimético, institucionalização de práticas em um campo organizacional, trabalho de manutenção institucional (institutional maintenance work) e defesa da legitimidade do campo (defense of field legitimacy).
John Meyer e Brian Rowan (1977), em Institutionalized Organizations: Formal Structure as Myth and Ceremony, descrevem situações nas quais confiança e boa-fé substituem inspeção e avaliação. Isso ajuda a explicar a preservação de uma aparência de adequação sem exame correspondente das práticas.
Thomas Lawrence e Roy Suddaby (2006), em Institutions and Institutional Work, examinaram práticas que preservam instituições: reforçar regras, estabelecer barreiras à mudança, valorizar condutas exemplares, desqualificar outras, sustentar narrativas e incorporar expectativas às rotinas. O trabalho permite investigar como atores distintos reproduzem uma ordem coletiva, inclusive quando não compreendem plenamente os efeitos das próprias práticas.
Hélène Rainelli Weiss e Isabelle Huault (2016), em Business as Usual in Financial Markets? The creation of incommensurables as institutional maintenance work, estudaram a resistência a tornar as práticas e os objetos comparáveis por critérios comuns em mercados financeiros, mostrando como atores dominantes resistiram a mudanças que ameaçavam sua discricionariedade.
Finalmente, Vinit Desai publicou, em 2011, Mass Media and Massive Failures: Determining Organizational Efforts to Defend Field Legitimacy Following Crises. O objeto é precisamente a resposta de organizações quando uma crise ameaça a legitimidade de todo o campo.
Um modelo de avaliação e escrutínio começou a ser aplicado já no quarto artigo, com a ajuda da liderança do Laboratório Cristália, quando critérios de comparação passam a ser considerados para o conjunto de patentes de uma empresa farmoquímica. Com a ajuda de Norberto e de sua experiência no setor, os próximos artigos se aprofundarão na tentativa de trazer à luz modelos comparáveis e observáveis do setor farmacêutico brasileiro.
Parece também que, em algum ponto no futuro próximo, para ter efetiva utilidade ao leitor brasileiro, a série começará a mergulhar em áreas adjacentes ao setor farmacêutico, se assim preferirmos conceituar.
Com uma inversão cognitiva, e considerando que o centro desse ecossistema é o cidadão comum, em algum momento centraremos o escrutínio em saúde, doença e tratamento de saúde da população brasileira. A indústria farmacêutica passará a ser um dos pilares de um conjunto maior de atores.
Hospitais, fabricantes de equipamentos, escolas e universidades, e invariavelmente o governo, deverão ser tratados em artigos à frente. Sem perder atenção ao objetivo central – tecnologia, fronteira da inovação e geração de valor futuro –, a série começará a se transformar em algo mais amplo: ciências da vida no Brasil.
Além disso, vamos encarar um desafio adicional, tentando mapear os modelos de pesquisa acadêmica realizados no Brasil e como tais modelos têm se convertido em aplicações práticas com sustentação econômica. A ser visto.
A Abiquifi e a dimensão do investimento do setor farmacêutico em P&D
Fundada em 1983, e com 75 associados majoritariamente oriundos da indústria farmacêutica, a Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos declara em seu website:
“Representa empresas do setor de insumos farmacêuticos ativos (sintéticos, vegetais e biotecnológicos), produtoras de matérias-primas e ingredientes para medicamentos e vacinas. Entre suas atribuições principais, a entidade conduz ações e projetos direcionados ao estímulo à inovação radical na produção de novas moléculas, ao aumento da capacidade produtiva nacional e à inserção estratégica do setor de IFAs nas cadeias globais de valor, tendo em vista a retomada da autossuficiência e a ampliação do acesso à população brasileira de produtos de qualidade.”
E é com essa visão privilegiada do setor que Norberto Prestes, CEO da instituição, me recebeu na sede da organização, na cidade de São Paulo. Apressado para uma viagem de representação institucional que se aproximava, gentilmente me concedeu uma conversa que seria a base para uma investigação mais profunda, e para a qual ofereceu seu conhecimento na construção dos artigos futuros.
Quando fiz uma provocação sobre o orçamento de P&D da indústria farmacêutica, afirmando a ele que, se não fosse o maior do país, estaria certamente entre os maiores, Norberto reagiu incrédulo. A hipótese não correspondia à sua percepção da realidade, e de pronto citou a Embraer como sendo a detentora da primeira colocação, provavelmente pensando em um ranking por empresas, não de cobertura setorial.
Entre 2022 e 2024, o dispêndio total em P&D do setor de produtos farmoquímicos e farmacêuticos somou R$ 12,461 bilhões. No período, o dispêndio anual cresceu 41,24%, equivalente a uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 18,84%, conforme dados da Pesquisa de Inovação Semestral do IBGE [1].
Embora a cifra total coloque o setor farmacêutico e farmoquímico na 2ª posição nacional para gastos em P&D, afinal o setor de veículos automotores, reboques e carrocerias teve dispêndio absoluto maior no mesmo período, de R$ 16,874 bilhões, é inegável que o crescimento farmacêutico está se acentuando com mais solidez. O crescimento absoluto do setor automobilístico para o mesmo período foi de 12,68%, um terço do setor que é objeto dessa série de artigos.
Consideradas as empresas, a Embraer teve gasto de R$ 4,335 bilhões para o mesmo período, com crescimento absoluto acumulado de impressionantes 47,25%. Essa cifra inclui seus investimentos na Eve Air Mobility, empresa controlada pela Embraer e criada a partir de seu braço de inovação, a Embraer-X, para desenvolver soluções de mobilidade aérea urbana.
Outras duas campeãs nacionais nascidas de projetos com amplo financiamento público, Vale e Petrobras [2,3] apresentam cifras igualmente impressionantes. A Vale alcançou despesas de P&D no valor de R$ 11,348 bilhões e crescimento acumulado de 26,39% no período de 2022-2024, e a Petrobras fez gastos da ordem de R$ 11,987 bilhões, com crescimento acumulado de 4,75%.
Sob qualquer análise, sustenta-se de forma inequívoca que o setor farmacêutico e farmoquímico carrega o 2º maior orçamento em P&D do país. Mais que isso, se consideramos a natureza das iniciativas de inovação, o setor provavelmente tenha um dos maiores esforços dispersos em termos de força aplicada de inovação tecnológica do país. Em 2017, no último levantamento do IBGE para a série, eram 3.372 pessoas em P&D e 2.586 pesquisadores. Certamente um conjunto amplo de abordagens e um grande potencial de impacto direto na população e nos índices econômicos, em avaliação livre.
A opacidade dos dados e os limites da comparação
Do ponto de vista da verificabilidade, e ao contrário das empresas e setores citados acima para comparação, as empresas farmacêuticas brasileiras não estão em bases efetivamente comparáveis. Por regra, são empresas de capital fechado que não abrem informações de suas operações, e como foi mostrado no artigo anterior – Cristália e a indústria farmacêutica brasileira que o país ainda pode construir – não se sujeitam a medições de performance de portfólio.
Hypera (HYPE3), com R$ 1,693 bilhão em despesas de P&D no mesmo período considerado neste artigo, Blau (BLAU3), com R$ 374 milhões, União Química, com R$ 686,5 milhões, e Eurofarma, com R$ 1,959 bilhão, são exceções, pois divulgam seus resultados financeiros por serem empresas de capital aberto. Esses valores seguem definições distintas, detalhadas na nota metodológica, e não correspondem uniformemente a despesas contábeis de P&D. A grande maioria das empresas do setor, associadas ou não à ABIQUIFI, são empresas com baixa visibilidade comparativa. A Biomm (BIOM3), companhia aberta desde 19 de agosto de 2002, ficou fora desse levantamento de dados em função de insuficiência de discriminação nos documentos examinados, dificultando a construção da categoria “despesa de P&D + desenvolvimento capitalizado” com cobertura verificável.

O leitor pode perceber que os números acima parecem distorcer o total de gastos informados pelo IBGE. Juntas essas empresas teriam peso de participação de aproximadamente 4,7 bilhões de reais em um total de R$ 12 bilhões para o setor combinado, ou seja, quase 40% do orçamento de todo o setor, que conta com nomes de peso. Irreal. Os números empresariais, retirados de contas consolidadas nos balanços publicados e sem visão granular, podem refletir subsidiárias, operações internacionais, mudanças de consolidação e outras metodologias contábeis. Outra hipótese possível é que os números do IBGE estejam subdimensionados.
A opacidade informacional no setor farmacêutico já foi pesquisada e documentada por diversas vezes, e não é uma exclusividade brasileira. Em um artigo no The New York Times em 2015, Andrew Pollack tratou da pressão para divulgar custos de desenvolvimento, fabricação, marketing e lucros por medicamento, e apresenta propostas legislativas e objeções da indústria. Também registrou a diferença entre publicar o gasto agregado de P&D e permitir verificar os custos de produtos específicos, questão citada acima.
Em um artigo científico que retrata os balanços de empresas em 2019, Adam Cohen, Rebecca Ultee e Glenn van Veldhoven, pesquisadores da Universidade de Leiden, na Holanda, apontam a falta de transparência sobre os custos de inovação da indústria farmacêutica, frequentemente apresentados como principal justificativa para os altos preços dos medicamentos. Nos relatórios anuais das grandes empresas, o pouco detalhamento desses custos contrasta com a extensa divulgação da remuneração dos executivos. Para os autores, esse desequilíbrio revela as prioridades de transparência das companhias e poderia ser corrigido por mudanças nas regras de divulgação financeira, exigindo informações mais detalhadas sobre os custos de inovação.
Some-se essa opacidade à ausência de métricas sobre portfólio e patentes para as empresas brasileiras, e as dificuldades em compreender a taxonomia da inovação no país, em especial para a indústria farmacêutica nesta série de artigos, mostram sua dimensão.
Superar a dependência tecnológica: os obstáculos na visão de Norberto Prestes
A intensidade e as modalidades de transferência de tecnologia variam entre setores. Essas diferenças decorrem, em parte, das estratégias de gestão dos portfólios tecnológicos e operacionais das empresas, que orientam as decisões de desenvolver, adquirir, explorar internamente ou licenciar tecnologias. Essas escolhas também dependem das condições de concorrência, da proteção intelectual e da disponibilidade de ativos complementares [4,5].
Como hipótese, sem relação causal comprovada, podemos considerar que o Brasil ocupa predominantemente a posição de receptor e potencial licenciado de tecnologias farmoquímicas, enquanto empresas europeias e americanas figuram como detentoras e licenciadoras. Os dados de produção interna de IFAs e da balança comercial do setor são compatíveis com essa interpretação. Nesse contexto, podemos também supor que a proteção de patentes e segredos industriais integra as estratégias dessas empresas para capturar valor no mercado consumidor brasileiro e obter retorno sobre seus portfólios de inovação.
Há espaço ainda para outra hipótese, que já foi aventada nos artigos anteriores. Considerando que, de acordo com o Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico de 2024, as apresentações com mais de 10 anos respondem por 46,4% do volume, e medicamentos com preço praticado até R$ 20 concentram 80,9% das unidades no Brasil, o Brasil parece estar em uma posição desconfortável: ser receptor de inovação protegida e licenciada pelos mercados maduros, não distribuir essa inovação para a população, e não conseguir desenvolver um ambiente de inovação replicável e comparável para escapar dessa armadilha.
Se a inovação não ocorre em escala suficiente por transferência tecnológica, dados os obstáculos naturais, sobra para o ecossistema de cada país a responsabilidade de romper as barreiras e formar tal ambiente de proficiência em inovação. É nesse momento que governo, academia, iniciativa privada e, principalmente, embora contraintuitivo nesse caso, a opinião pública se unem por um projeto maior. Veja o artigo Design como estratégia nacional: O que o iF Awards revela sobre o desenvolvimento das nações, que tangencia a proposição e ilustra essa perspectiva.
Norberto conta que uma das atividades da Abiquifi, entre tantas, é levar os associados às principais feiras internacionais do setor: CPHI na Comunidade Europeia, Bio International Convention nos EUA, e BIOCHINA. Segundo ele, é sempre “um choque de realidade”. Se as feiras são vitrines das capacidades dos expositores e, cada vez mais, dos países anfitriões, é evidente que visitantes vindos de países pobres ou em desenvolvimento – ou, se quisermos, países abaixo da linha de renda nacional bruta média, atualmente em USD 14.375,00 per capita, que descreve bem o grupo e inclui o Brasil – acabam por se impressionar com a demonstração de potência desse mesmo conjunto de forças: governo, academia, iniciativa privada e opinião pública. Também impressiona observar o grupo de países que ultrapassou essa faixa nos últimos 40 anos.
Para Norberto, existe um desalinhamento muito grande de propósito entre os atores do setor no Brasil. Quando afirmou que “o problema brasileiro não está na pesquisa”, me empertiguei. Norberto seguiu dizendo que temos pesquisadores e centros de pesquisa em qualidade e quantidade suficientes para virar esse jogo, mas que existe uma assimetria informacional e um problema muito grande de agência no setor. São fatores que, combinados, têm exercido um poder muito grande e desestimulado que as inovações se revertam em aplicações práticas com sustentação econômica.
Norberto cita, como exemplo, o ambiente de produção acadêmica no país. O ecossistema se alimenta de validação interna, sustentada pela publicação de artigos científicos em quantidade suficiente para conferir reputação entre os pares. Para ilustrar a situação, ele menciona mecanismos de avaliação do CNPq nos quais, segundo sua descrição, as publicações acumulam pontos e ampliam as possibilidades de obtenção de recursos para pesquisa [6].
Marcelo Perlin, Denis Borenstein, Takeyoshi Imasato e Marcos Reichert, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, publicaram, em 2024, o estudo The determinants and impact of research grants: The case of Brazilian productivity scholarships, que analisou dados da plataforma Lattes de mais de 133 mil pesquisadores de todas as áreas do conhecimento, no período de 2005 a 2022, entre os quais 14.138 receberam bolsas de produtividade do CNPq. O estudo identificou o número de artigos publicados e de orientações entre os principais preditores da concessão da bolsa na categoria de entrada, PQ2, e encontrou efeitos dessas concessões sobre o aumento do número de publicações e citações dos pesquisadores.
À luz da dinâmica de sistemas, esses resultados são compatíveis com um circuito de reforço – a produção acadêmica anterior favorece o acesso à bolsa, cujo recebimento, por sua vez, contribui para ampliar a produção subsequente –, e nos levam novamente aos mecanismos de trabalho de manutenção institucional e defesa da legitimidade do campo já citados nesse artigo.
Foi o que Norberto indicou ao se referir à falta de um fator de “conversibilidade” que permita examinar as proposições em termos de aplicações reais ou de melhorias explicáveis e comprováveis para os usuários e públicos impactados. Segundo ele, o funcionamento do sistema acaba por erodir os próprios propósitos institucionais do CNPq: fortalecer o desenvolvimento do Brasil, fomentar pesquisas voltadas às necessidades econômicas e sociais e promover a apropriação social do conhecimento, incluída entre os valores de seu Planejamento Estratégico 2025, elaborado em 2014. Em sua interpretação, o circuito de avaliação e financiamento reforça a produção acadêmica sem estabelecer uma ligação suficientemente verificável entre os indicadores que recompensa e os benefícios sociais que declara perseguir.
Não há, por ora, o objetivo de estabelecer causalidade entre fatores. Um ecossistema é formado por diversos atores, e cada um deles devolve feedbacks e sinais informacionais ao sistema em seu próprio tempo, com sua carga de agência e vieses. Seria, portanto, um erro de análise imputar ao meio acadêmico toda a responsabilidade pelas assimetrias do ambiente brasileiro. Empresários, governo e sociedade também operam segundo parâmetros e prioridades formados por um condensado cognitivo ainda mais denso e amplo.
Mais além, se a academia brasileira produziu pesquisadores que se estabelecem na linha de vanguarda mundial, o sinal emitido é que esse fenômeno pode ser reproduzido em maior escala e há razões para investigar as condições que permitiriam ampliar essas trajetórias.
Capacidade científica brasileira: trajetórias que indicam potencial para acelerar o ecossistema de inovação
Foi nesse momento que Norberto trouxe exemplos que ajudam a demonstrar que ainda podemos entrar no jogo ou, em algumas frentes, podemos já estar nele.
Para minha admiração, citou Alysson Muotri, graduado em Ciências Biológicas pela Unicamp e doutor em Genética pela USP, atualmente professor de Pediatria e de Medicina Celular e Molecular na Universidade da Califórnia em San Diego. Seu grupo utiliza células humanas e organoides cerebrais, estruturas cultivadas em laboratório que reproduzem aspectos do desenvolvimento do cérebro, para investigar condições como o autismo e testar possíveis abordagens terapêuticas. Sua trajetória oferece um exemplo concreto de formação acadêmica brasileira conectada à pesquisa internacional e à busca de aplicações para a saúde humana.
Seu reconhecimento nos Estados Unidos, e, portanto, global, pode ser documentado: Muotri recebeu, em 2009, o NIH Director’s New Innovator Award, concedido pelos National Institutes of Health, a agência federal americana de pesquisa biomédica. Em 2011, foi selecionado para o programa Science and Public Leadership Fellows da PopTech, organização dedicada à inovação e à conexão entre ciência e sociedade. Em 2023, ganhou um perfil na seção “Scientists to Watch” da revista americana The Scientist. Suas pesquisas também foram tema de uma reportagem de Carl Zimmer no jornal The New York Times. São sinais concretos de uma trajetória reconhecida tanto por instituições de pesquisa quanto pela imprensa americana.
Alyson costuma fazer o discurso de abertura do Summit Brazil, encontro setorial brasileiro que ocorre na abertura da feira Bio Convention nos EUA, e conhece bem, segundo Norberto, o ecossistema brasileiro de inovação e suas dificuldades naturais.
Norberto ainda citou outros casos relevantes, como o de Cristianne Bertolami, ex-diretora da Libbs e cofundadora da Wecare Skin, que utiliza ativos da biodiversidade em produtos de hidratação e cuidado da pele de pacientes em quimioterapia e radioterapia; o de Lucas Ariel Rocha, cofundador da Mirscience Therapeutics, que desenvolve terapias baseadas em RNA para combater a perda de massa muscular, em parceria com o Cristália, numa possível convergência, segundo Norberto, com a demanda por preservação muscular durante o uso das canetas emagrecedoras; e o de Carolini Kaid, que pesquisa o uso do vírus Zika modificado como agente contra tumores e como vetor para transportar genes terapêuticos.
Embora os pesquisadores brasileiros e sua possível contribuição para compreendermos as barreiras à inovação farmoquímica no país sejam temas de artigos futuros desta série, o assunto levou minha conversa com Norberto a outro mecanismo de organização da inovação: o acqui-hire [7]. De forma simplificada, o fenômeno ocorre quando uma empresa adquire outra principalmente para incorporar seus pesquisadores, suas competências e o conhecimento acumulado pela equipe. Na biotecnologia, esse mecanismo integra um arranjo mais amplo de aquisições, licenciamentos e parcerias que conecta descobertas de pequenas empresas e universidades à capacidade de financiamento, desenvolvimento clínico e comercialização das grandes farmacêuticas.
A importância desse arranjo aparece nos dados. Um estudo publicado em Nature Reviews Drug Discovery identificou origem externa em 65% dos 138 novos medicamentos aprovados pela FDA entre 2015 e 2021 apresentados pelas 20 maiores biofarmacêuticas. Outro, publicado em Drug Discovery Today, constatou que pequenas biotecnológicas e laboratórios acadêmicos originaram, respectivamente, 46% e 14% dos 50 medicamentos oncológicos com mecanismos de ação inéditos aprovados entre 2010 e 2020.
Em 1996, Walter Powell, Kenneth Koput e Laurel Smith-Doerr já examinavam como, na biotecnologia, a complexidade e a dispersão do conhecimento tornam as redes de colaboração entre organizações centrais para a inovação. Seja pela aquisição dos direitos sobre uma molécula, seja pela compra de uma pequena empresa ou laboratório, grandes farmacêuticas podem incorporar descobertas de pesquisadores que atuam fora de suas estruturas.
Investigar as redes de colaboração no Brasil, sem perder de vista empresários, governo e opinião pública, pode nos ajudar a acompanhar os caminhos das potenciais inovações, compreender onde outras ficaram para trás e identificar formas de transpor as barreiras entre conhecimento, desenvolvimento e aplicação. Esse esforço também exige chamar os empresários ao desafio de reduzir a opacidade sem comprometer seus segredos industriais e suas estratégias de negócios. Em paralelo, precisamos ampliar o conhecimento da opinião pública sobre esse setor extraordinário, os recursos que mobiliza e sua capacidade de transformar a vida da população.
Referências bibliográficas e documentais complementares
- IBGE. Pesquisa de Inovação Semestral: indicadores básicos, 2022, 2023 e 2024. Planilhas por atividade econômica: 2022, 2023 e 2024.
- BRASIL. Decreto-Lei nº 4.352, de 1º de junho de 1942. Constituição da Companhia Vale do Rio Doce e definição de seu capital. Os artigos 4º e 6º documentam o crédito público, a subscrição de ações pelo Tesouro Nacional e a incorporação de bens da União ao capital da companhia.
- BRASIL. Lei nº 2.004, de 3 de outubro de 1953. Autorização para constituir a Petrobras e definição de seu capital inicial. Os artigos 9º e 10 estabelecem o capital inicial e sua subscrição integral pela União, mediante bens e direitos relacionados ao petróleo.
- TEECE, David J. Profiting from technological innovation: Implications for integration, collaboration, licensing and public policy. Research Policy, v. 15, n. 6, p. 285–305, 1986. Referência para a relação entre apropriação dos resultados da inovação, ativos complementares e estratégias de integração, colaboração e licenciamento.
- ARORA, Ashish; FOSFURI, Andrea; GAMBARDELLA, Alfonso. Markets for Technology: The Economics of Innovation and Corporate Strategy. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2001.
- CNPq. Comitê de Assessoramento de Educação, CA-ED. Critérios para avaliação de Bolsas de Produtividade nas chamadas de 2024, 2025 e 2026. A tabela atribui 10 pontos a artigos em periódicos A1 e A2, oito em A3, seis em A4 e quatro em B1.
- COYLE, John F.; POLSKY, Gregg D. Acqui-Hiring. Duke Law Journal, v. 63, p. 281, 2013. Descreve aquisições de empresas cuja motivação principal é incorporar parte ou a totalidade de suas equipes. O estudo examina empresas de tecnologia do Vale do Silício e fundamenta a definição do mecanismo, sem medir sua incidência na indústria farmacêutica.
- RMAGNAGO CRITICAL THINKING. Notas metodológicas sobre P&D de Hypera, Blau, União Química, Eurofarma, Vale, Petrobras e Embraer: exercícios de 2022 a 2024. Revisão de 9 out. 2026. Documento com fontes, critérios de seleção e composição dos valores, limitações de comparação e memória de cálculo reproduzível dos totais, crescimentos acumulados e taxas médias anuais compostas de crescimento (CAGR).




