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O burnout do gestor: quem cuida de quem lidera?

Brasil é o 2º no ranking mundial de burnout e 472 mil licenças em 2024 revelam a epidemia silenciosa que também atinge gestores.
João Roncati é CEO da People+Strategy, consultoria de estratégia, planejamento e desenvolvimento humano.

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Nos últimos anos, o tema burnout tem ganhado uma visibilidade crescente, especialmente no Brasil, que ocupa o segundo lugar no ranking mundial de casos dessa síndrome, perdendo apenas para o Japão. De acordo com dados da ISMA-BR (International Stress Management Association) e do Ministério da Previdência Social, em 2024, foram concedidas mais de 472 mil licenças relacionadas a depressão, ansiedade e burnout. A estatística é alarmante e revela um crescimento exponencial de mais de 400% desde a pandemia.

Mas o que poucos discutem é que o burnout não afeta apenas os colaboradores da base, mas também os gestores. E aí surge a pergunta: quem cuida de quem lidera?

A figura do gestor, muitas vezes percebida como aquela que deve ser inabalável, forte, sempre pronta para tomar decisões, tem sido desafiada nos últimos tempos. Aliás é uma visão de senso comum e bastante arraigada em nossa sociedade a ideia de que o gestor é ou precisa ser mais forte que a maioria. A pressão por resultados, a sobrecarga de responsabilidades, a constante cobrança e a sustentação da imagem de “pessoa mais forte ou até inabalável”, podem levar os líderes a uma situação de esgotamento profundo

O burnout no líder, muitas vezes, é mais difícil de ser identificado. Ao contrário dos colaboradores que podem ter uma rotina de trabalho mais previsível, os gestores geralmente enfrentam um ritmo frenético, com decisões estratégicas, gestão de crises e cobranças constantes. Os sinais do esgotamento podem ser mais sutis e, frequentemente, ignorados. Irritação excessiva, sensação de exaustão, dificuldade para se concentrar e até problemas de sono são sintomas comuns, mas que podem ser mascarados por uma atitude de “tudo sob controle”.

Entretanto, quando um gestor está no limite, ele perde a capacidade de influenciar e motivar sua equipe de maneira eficaz. Em vez de ser a referência, ele se torna uma figura desgastada, comprometendo o desempenho de todos ao seu redor. Isso reflete diretamente na saúde organizacional e nos resultados, criando um ciclo vicioso que leva à queda de produtividade e, eventualmente, à perda de talento e desengajamento.

O que é preciso entender é que o burnout do gestor não é apenas um problema pessoal, mas institucional. Não basta cuidar da saúde mental dos colaboradores sem olhar para os que ocupam a liderança: o cuidado deve ser parte da cultura organizacional desde a sua formação.

As empresas devem implementar programas para líderes, assim como fazem com suas equipes. É preciso criar espaços seguros para que todos se expressem sem medo de serem vistos como fracos ou incapazes, além de ter uma rede de apoio que envolva o RH, os pares e até superiores hierárquicos é essencial.

Infelizmente, em muitas organizações, a percepção de que “gestores não podem demonstrar fraqueza” ainda é forte. Essa mentalidade precisa ser quebrada, pois um líder saudável é essencial para o sucesso de qualquer organização.

E o cuidado com os gestores não deve ser uma tarefa solitária. Todos os membros da organização têm um papel a desempenhar. O RH precisa ser proativo na identificação dos sinais de esgotamento, oferecendo recursos como coaching, terapia ou programas de mindfulness. Pares e colegas de liderança podem ser a linha de apoio mais próxima, já que entendem as pressões do cargo e podem agir com empatia para ajudar o líder a lidar com o estresse.

Cuidar da saúde mental dos líderes não é apenas uma questão de bem-estar individual, mas de estratégia organizacional. As empresas precisam compreender que investir no cuidado de seus gestores é investir no futuro da própria organização. A pergunta que deve ser feita é: quem cuida de quem lidera? A resposta é simples: todos nós.

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