Uncategorized

O canudo, a tartaruga e a cultura do aprendizado

A imagem de uma tartaruga com um canudo plástico no nariz fez um mercado inteiro desaparecer do dia para noite. Será? Incerteza e instabilidade já fazem parte do nosso dia a dia e é preciso ajustar os ponteiros da cultura organizacional se quisermos prosperar diante do imprevisível
é CEO do meuSucesso.com, escola de empreendedorismo e insights. Ex-professor da ESPM, é autor do livro Vendas 3.0 e coautor de Movidos por Ideias.

Compartilhar:

Imagine que você é um bem-sucedido empreendedor de um segmento que cresceu vigorosamente nos últimos anos. Seu principal produto são os canudos plásticos. As primeiras referências históricas sobre esse artefato remontam a 3000 a.C. na Mesopotâmia, onde eram utilizados para sugar cerveja. Sua matéria-prima, porém, era bem distinta da atual. Foi em 1888 que o americano Marvin Stone patenteou o primeiro canudo da história nos Estados Unidos, produzido com palha de centeio.

No entanto, foi entre os anos 1960 e 1970 que o produto recebeu o impulso definitivo para seu crescimento, com a invenção dos primeiros canudos de plástico. Seu lançamento foi um sucesso, já que a nova matéria-prima tinha muito mais resistência e durabilidade que as anteriores.

Nos anos 1980 os canudos já eram uma unanimidade em todo o mundo e seu uso explodiu paralelamente à popularização dos fast foods. E os números impressionam: estima-se, atualmente, que sejam consumidos 500 milhões deles por dia apenas nos Estados Unidos.

Seu empreendimento pegou carona nessa onda e nos últimos 20 anos seu negócio vinha evoluindo de forma estável e previsível. Crescimento sustentável e melhorias incrementais no produto ajudavam a aumentar a demanda. Foram desenvolvidos canudos de plásticos mais práticos, outros com uma dinâmica mais adaptada a diversos produtos, como sucos, refrigerantes, milkshakes e uma variedade imensa de novas oportunidades.

Todas as inovações, no entanto, eram derivadas do produto essencial e guardavam uma particularidade comum: eram feitas de plástico.

Em paralelo à evolução de seu negócio, um movimento nada silencioso começava a tomar forma e se fortalecer nos últimos anos, representado pelo aumento da consciência ecológica sobre os riscos do plástico para o ambiente.

Mesmo sendo uma demanda social crescente, esse barulho todo não lhe tirava o sono, afinal, toda aquela mobilização não ameaçava seu negócio. Em 2016, o Fórum Econômico Mundial publicou um estudo com uma sentença alarmante: em 2050 teremos mais plástico no oceano do que peixes. Mesmo uma afirmação tão grave como essa não era o suficiente para lhe tirar o foco do seu negócio.

Do dia para noite, porém, tudo mudou. A imagem de uma simpática tartaruga com um canudo em suas narinas sendo acolhida por um ambientalista viralizou nas mídias sociais globalmente.

Um levante cresceu exponencialmente e, subitamente, os canudos plásticos foram promovidos a inimigos número 1 da sociedade.

Empresas que o utilizam começaram a ser ameaçadas e, sem pestanejar, assumiram posições defensivas, substituindo ou excluindo o produto de suas ofertas. Os maiores consumidores do mundo todo, como McDonalds e Starbucks, dentre outras empresas que adquiriam milhões de canudos diariamente, mudaram suas políticas e adotaram alternativas imediatamente.

Como se não bastasse, a comunidade europeia decide banir os canudos plásticos de todos os países associados até o ano de 2021. Sobrou, inclusive, para outros produtos plásticos: os países que fazem parte da União Europeia não poderão comercializar uma série de itens manufaturados com a matéria-prima, como copos, pratos e talheres.

Aqui no Brasil não é diferente. Diversos municípios aderem a essa decisão, incluindo São Paulo que, recentemente, sancionou a lei que segue o mesmo caminho dos países europeus e proíbe os canudos plásticos em toda cidade, o maior mercado de consumo do país.

O que era uma indagação coletiva se transforma em proibição e lei. E o seu negócio de canudos plásticos? Como naquele bordão de um humorista dos anos 1980: “MOOORREU!”

Não é que você perdeu um cliente. Você perdeu mercados inteiros que, simplesmente, estão proibidos de consumir seu produto irremediavelmente. Em poucos meses, o que era um negócio estável, simplesmente, derreteu. Que falta de sorte a sua, não é? De repente, foi acontecer uma coisa dessas.

Será que foi de repente mesmo? É um equívoco conceber que a deterioração do negócio levou apenas meses e foi culpa da coitada da tartaruga. Na realidade, já era uma tragédia anunciada que a indústria de canudos plásticos ignorou, solenemente, optando por movimentos superficiais ao invés de uma ruptura em seu _status quo_.

Um dos principais imperativos estratégicos de nossa nova era é que, mais do que competir com seus concorrentes diretos, as organizações concorrem com transições de mercado.

Meu parceiro, José Salibi Neto, e eu enunciamos essa visão na versão definitiva de nossa obra _O novo código da cultura_, que será lançada no início do segundo semestre de 2019.

A lógica desse novo conceito é que as transformações que caracterizam o atual ambiente empresarial geram uma dinâmica totalmente distinta da tradicional, em que as estruturas eram mais sedimentadas. Nesse ambiente, bastava eu mirar minha atenção aos meus concorrentes diretos e erigir robustas barreiras de entrada para fortalecer minha posição estratégica.

Em um ambiente que se caracteriza pela instabilidade, incerteza e imprevisibilidade o ataque vem de onde você menos espera, já que o comportamento do consumidor está em constante transformação.

Adicione a essas mudanças as inovações tecnológicas, de onde emergem novas companhias e soluções diariamente, e aí temos a tempestade perfeita se formando: o caos impera e a estabilidade se configura em uma abstração. Não basta orientar o foco exclusivamente a seus concorrentes diretos. É necessário ampliar o alcance de sua visão corporativa, adotando novas perspectivas.

Mais do que um aconselhamento típico dos livros de autoajuda, trata-se da estruturação de um modelo que promova o aprendizado como prática constante para todos os indivíduos da organização.

A cultura de aprendizado emerge como uma das principais respostas a esse ambiente em mutação e responde às demandas por um sistema de crenças que conceba que o caminho que nos trouxe com sucesso até aqui não nos levará com êxito ao futuro.

É um imperativo para todo líder organizacional preparar sua companhia para ser uma empresa que aprende constantemente. É necessário que seja erigida uma cultura que permita o confronto, diário e corajoso, do estado atual de seu negócio e reflita sobre como as transformações do ambiente, que acontecem em ciclos cada vez menores, podem impactá-lo.

Desafio sem precedentes na história recente do mundo empresarial. Quem não tiver a coragem de iniciar essa jornada, no entanto, ficará pelo caminho.

E você? Quais as ameaças, diretas ou indiretas, já impactam o seu negócio hoje? Ou você vai esperar uma tartaruga com plástico no nariz aparecer para se movimentar? Pense nisso!

**Nota do autor: Minha inspiração para este artigo veio de uma apresentação realizada pelo talentoso amigo Sérgio Sampaio. Meu agradecimento aqui pela provocação.**

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que o espírito do tempo está tentando nos dizer? Afeto, autonomia e o desafio de construir o futuro

A partir de referências históricas e filosóficas que atravessam de Hegel a Beethoven, o artigo propõe uma reflexão sobre os valores que parecem ganhar força na sociedade contemporânea. Em um cenário marcado por transformações políticas, sociais e culturais, temas como autonomia, propósito, afeto, pertencimento e responsabilidade compartilhada surgem como elementos centrais para compreender os desafios do presente.

E se envelhecer não fosse apenas uma consequência do tempo?

Pesquisas recentes indicam que o envelhecimento biológico pode ser medido, acompanhado e, em determinadas dimensões, influenciado. A partir dessa nova compreensão, cresce o interesse por abordagens capazes de identificar riscos precocemente e promover trajetórias de saúde mais duradouras ao longo da vida.

Por que a IA se tornou membro essencial em equipes de manutenção preditiva?

A evolução da manutenção preditiva está levando a inteligência artificial para além da detecção de falhas. Sistemas multiagentes especializados começam a atuar como apoio para diferentes perfis profissionais, conectando análises técnicas, indicadores operacionais e recomendações de ação em um único fluxo de trabalho. O resultado é uma tomada de decisão mais rápida, contextualizada e alinhada às necessidades da operação.

Direito, Regulação & Compliance, Liderança
31 de outubro de 2026 15H00
A partir de referências históricas e filosóficas que atravessam de Hegel a Beethoven, o artigo propõe uma reflexão sobre os valores que parecem ganhar força na sociedade contemporânea. Em um cenário marcado por transformações políticas, sociais e culturais, temas como autonomia, propósito, afeto, pertencimento e responsabilidade compartilhada surgem como elementos centrais para compreender os desafios do presente.

André Naves - Defensor Público Regional de Direitos Humanos em SP, Comendador Cultural, Escritor e Professor

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
31 de outubro de 2026 08H00
Conselhos, mentorias, projetos estratégicos, participações societárias e posições temporárias estão redesenhando o papel dos executivos mais experientes.

Renata Fabrini - Sócia-fundadora da Plongê

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de outubro de 2026 15H00
O artigo reflete sobre os riscos das chamadas “câmaras de eco algorítmicas” e sobre o papel da IA na construção de decisões mais robustas e menos complacentes.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA do Brasil

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
30 de outubro de 2026 08H00
Ferramentas generativas estão acelerando a produção de conteúdo nas áreas de comunicação e relações públicas. O desafio é que rapidez não substitui contexto, discernimento nem responsabilidade.

Ana Paula Soares - Diretora-fundadora da Encaso Comunicação

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
29 de outubro de 2026 15H00
Pesquisas recentes indicam que o envelhecimento biológico pode ser medido, acompanhado e, em determinadas dimensões, influenciado. A partir dessa nova compreensão, cresce o interesse por abordagens capazes de identificar riscos precocemente e promover trajetórias de saúde mais duradouras ao longo da vida.

Natalia Gonçalves - Superintendente Pesquisa & Desenvolvimento e Diretora Instituto de Ensino e Pesquisa (IEPD) da Dasa

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
29 de outubro de 2026 08H00
A evolução da manutenção preditiva está levando a inteligência artificial para além da detecção de falhas. Sistemas multiagentes especializados começam a atuar como apoio para diferentes perfis profissionais, conectando análises técnicas, indicadores operacionais e recomendações de ação em um único fluxo de trabalho. O resultado é uma tomada de decisão mais rápida, contextualizada e alinhada às necessidades da operação.

Bernardo Murta - Principal Engineer da Dynamox

3 minutos min de leitura
Estratégia
28 de outubro de 2026 15H00
Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

Alexandre Farias Benjamim, - Sociólogo e membro do Conselho Fiscal da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de outubro de 2026 08H00
A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Marcelo Martini - Gerente de Vendas do Aftermarket da FUCHS

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de outubro de 2026 15H00
O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Afonso Morais - Fundador do escritório Pardi e Morais Consultores Jurídicos e Criador e apresentador do podcast Falando de Fraudes

6 minutos min de leitura
Estratégia
27 de outubro de 2026 08H00
Na teoria, cada contato acontece no momento certo e segue o fluxo previsto. Na prática, volume, prioridades e limitações operacionais exigem adaptações constantes. O desafio das empresas não é criar estratégias perfeitas, mas garantir que elas resistam às pressões do dia a dia sem perder seu propósito original.

Guilherme Busch - VP da Paschoalotto

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução