Uncategorized

O canvas faz todos olharem para o negócio

Organizar um pensamento que muitas vezes só existe na mente de uma pessoa na empresa é uma das muitas vantagens do método BMG
é sócio-fundador da Agência de Cocriação e da Arco – Desenvolvimento Criativo, em que atua como designer estratégico, e também docente na pós-graduação do Instituto Europeo di Design (IED-SP). Tem mais de dez anos de experiência em projetos de inovação e usa o canvas. Contou com a colaboração de Maria Augusta Orofino, professora e especialista em modelos de negócio.

Compartilhar:

Uma palavra diferente em um post-it colado em um canvas de modelo de negócio é capaz de redirecionar todas as ações da empresa em relação ao produto, serviço ou empreendimento em questão, você sabia? Vi isso acontecer inúmeras vezes e é uma pequena amostra do poder dessa ferramenta de gestão com que tenho trabalhado de modo intensivo nos últimos seis anos. 

Infelizmente, o burburinho sobre o “canvas do modelo de negócio” tem impedido muitas pessoas de aproveitar todo o seu potencial. Sem pegarem a mensagem completa, ficam achando que basta imprimir a estrutura dos retângulos, grudá-la na parede e pôr post-its nela que, voilà, surgirá um negócio revolucionário. Não é assim que funciona o business model generation (BMG), nome oficial da ferramenta popularizada por Alex Osterwalder e Yves Pigneur em 2010. 

Em primeiro lugar, é preciso entender que o método criou um padrão para um conceito difundido no meio empresarial desde 1992, quando surgiram as ponto.com, mas vago, sem formato nem elementos fundamentais: o “modelo de negócio”, que se destina a “criar e capturar valor” do mercado. 

Em segundo lugar, deve-se ter em mente que o canvas engloba cinco fases: mobilização de pessoas, compreensão dos desafios e oportunidades, design estratégico do modelo de negócio, implementação e gestão. Não se trata de pessoas brincando com post-its. 

**BENEFÍCIOS EVIDENTES**

Quando entendido em profundidade – formatado em seus nove elementos fundamentais – e aplicado em sua totalidade, o método apresenta duas vantagens matadoras: ensina a olhar um negócio por inteiro e alinha pessoas de diferentes áreas em torno desse negócio. Somos ensinados a olhar as empresas de forma fragmentada, não é? Pensamos em termos de marketing, recursos humanos, finanças, logística etc. Experimente fazer um teste simples em sua organização: reúna profissionais de diversas áreas para que desenhem um produto juntos. Posso apostar 

que o desalinhamento deles saltará aos olhos, tanto no entendimento do problema a ser resolvido como nas soluções propostas. Agora, imagine o que esse desalinhamento faz à eficiência operacional e ao resultado do negócio. Eis o valor do canvas. O método também organiza e dissemina um pensamento que, antes, tendia a ficar restrito à mente dos líderes das áreas de negócios. Assim, 

é um impulsionador de engajamento e colaboração. O suporte à criatividade das pessoas é outro diferencial da ferramenta. Não foi à toa que ganhou o apelido de canvas. Uma tela (canvas, em inglês) branca que começa a ser pintada a partir de um lampejo de inspiração é a metáfora que a define, e os colaboradores que a usam são alçados à condição de “artistas corporativos”. Posso relacionar mais quatro benefícios palpáveis:

•  Permite testar modelos de negócio em pequenas escalas. 

•  É um modelo ágil para desenvolver um produto ou serviço

•  Promove empatia dos colaboradores da empresa com o usuário do negócio. 

•  Constrói uma orientação para resultados – com o surgimento das empresas digitais, a monetização passou a ser peça-chave. 

Responde a questões do tipo: “Como ganhar dinheiro com aplicativos que os usuários esperam receber gratuitamente?”. 

**O MELHOR FUNCIONAMENTO**

É crucial na ferramenta conseguir um patrocinador que engaje os participantes do início ao fim do processo e que se disponha a contribuir, não a impor suas posições. Na fase do design estratégico do modelo de negócio, as práticas de maior êxito incluem: 

•  Trabalhar com um desafio estratégico específico. 

•  Realizar um ou mais workshops com duração total de  8 a 16 horas (um, se possível, é preferível).

•  Montar uma equipe de participantes multidisciplinar de no mínimo seis pessoas (quanto mais complexo o desafio ou maior a empresa, maior a equipe). Devem-se misturar profissionais experientes com mais jovens. 

•  Ampliar a equipe se forem necessários novos perfis, mas evitar substituir alguém. 

•  Combinar com todos os participantes seus papéis, as etapas da atividade e as finalidades. 

•  Pedir pesquisas como lições de casa para apoiar a discussão. 

•  Ter um facilitador – interno ou externo. 

Atuando como facilitador externo, formulo perguntas-chave para extrair os conhecimentos das pessoas, destaco os pontos de afinidade e estimulo a discussão. 

Lembro sempre a essência de um modelo de negócio – criar e capturar valor do mercado – e uso exemplos de empresas conhecidas que possam inspirar. 

**QUEM DEVE ADOTAR**

Toda empresa que precisa compreender melhor seu modelo de negócio ou desenvolver novos modelos é candidata a usar o canvas. Pessoalmente, já o apliquei em startups, organizações pequenas e médias, divisões, grandes grupos nacionais e multinacionais. 

Nas empresas de pequeno porte, a ferramenta costuma ajudar a resolver o problema da falta de cultura do planejamento estratégico; nas grandes, é mais usada pelas áreas de produtos e de inovação, ou para avaliar a viabilidade de novas ideias, de estratégias de canais ou de novos mercados, ou ainda para fazer ajustes em modelos de negócio existentes. O processo BMG varia também conforme a idade da empresa em que é aplicado. Se ela é novata, serve como um roteiro para extrair hipóteses que serão testadas em contato com o usuário da solução em análise. Se a empresa tem maturidade, a variedade de contribuições aumenta. 

**OBSTÁCULOS E ARMADILHAS**

A cultura do marketing tradicional e a ausência do espírito de cocriação ainda são os maiores obstáculos ao êxito do canvas nas empresas brasileiras. As que ainda possuem o olhar voltado para vender produtos costumam ser as mais desafiadoras. 

A solução para superar isso passa pela mudança do mindset e da atitude das pessoas de negócios em direção ao design thinking, que é o design centrado no usuário – os gestores das empresas precisam querer atender às reais necessidades dos consumidores. Em termos de armadilha, a maior delas é a da simplificação. 

Como o canvas foi criado para ser de simples entendimento e manuseio, pessoas com poucas habilidades e pouco conhecimento necessário para dominá-lo conseguem ter acesso a ele e o utilizam de maneira superficial, o que nunca dá certo. 

Um canvas sozinho não faz verão. É preciso entender de processos e pessoas, ter empatia, conhecer e ter experiências na gestão empresarial para que ele funcione. 

> **Empresas que usam o canvas**
>
>
> Muitas empresas globais, como Airbnb e NuBank, e brasileiras, como a RBS e o grupo segurador BB e Mapfre, adotam o canvas. Fernando M. Bettine, gerente de inovação do BB e Mapfre, conta por que o usa desde 2013:  “É uma ferramenta que apoia o desenvolvimento da cultura de inovação orientada para os resultados do negócio, que é o que procuramos. Realizar workshops BMG com as áreas de estratégia, de produtos e comercial nos ajuda a definir novos modelos e implantá-los de forma ágil”.

**O FUTURO DO MÉTODO**

O mercado corporativo brasileiro tem muito que amadurecer na aplicação do canvas. Ainda existem empresas e empresários que nunca sequer ouviram falar de modelo de negócio. Quem já ouviu e usa o canvas mal começou a explorá-lo para prototipar um portfólio de modelos de negócio ou a combiná-lo com outras abordagens e técnicas, como a cocriação com clientes e fornecedores prevista por C.K. Prahalad. 

Também é possível prever uma grande mudança de mentalidade nas organizações rumo ao desenvolvimento da proposta de valor, e o canvas será fundamental nessa nova fase. 

Não foi por coincidência que os criadores do canvas, Osterwalder e Pigneur, desenvolveram um segundo canvas orientado não para o design do modelo de negócio, mas para o design de um de seus blocos construtores, a proposta de valor. 

Cada um dos nove blocos de um modelo de negócio assinalados no BMG pode ganhar um canvas específico para si ao longo do tempo, como fontes de receitas e atividades-chave, por exemplo. Também não é difícil antever que muitos modelos de negócio existentes poderão ser ressignificados com a ferramenta, gerando mais valor compartilhado e fazendo entregas mais alinhadas com as necessidades dos usuários. 

O potencial do canvas é quase infinito, e talvez o motivo seja o modo como ele nasceu e vive. Na verdade, é inexato dizer que esse framework é de autoria de Osterwalder e Pigneur, como dissemos aqui. O ponto de partida foi a tese de doutorado de Osterwalder orientado por Pigneur, sim, porém a tese foi aberta pelos autores na internet e mais de 400 pessoas em 43 países cocriaram a ferramenta. E o canvas do modelo de negócio continua a ser cocriado, disponibilizado para uso em contrato Creative Commons. Daí vem seu potencial quase infinito.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que muda na cadeia do cobre com o fim da Substituição Tributária

Ao eliminar distorções fiscais e reduzir a antecipação do recolhimento do ICMS em determinados produtos, as novas regras trazem mais equilíbrio tributário para fabricantes e distribuidores. A mudança não reduz necessariamente a carga tributária, mas pode melhorar o fluxo de caixa, simplificar operações e impulsionar a competitividade do setor.

A nova morada dos softwares são as interfaces de IA

Durante anos, as empresas disputaram espaço na tela dos usuários por meio de aplicativos, portais e plataformas digitais. Agora, a ascensão das interfaces de inteligência artificial inaugura uma nova lógica: em vez de buscar atenção, os softwares passam a competir para estar presentes no momento exato em que uma decisão é tomada.

O que observei quando parei de apenas assistir ao Mind Summit 2026

Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Por que equipes entendem a estratégia e ainda assim não executam?

Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Tecnologia & inteligencia artificial
5 de setembro de 2026 14H00
A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
4 de setembro de 2026 14H00
A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Juliana Algodoal - PhD em Análise do Discurso e especialista em comunicação corporativa

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de setembro de 2026 08H00
As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Juliana Bezerra - Líder de conteúdo na DEA Design

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Direito, Regulação & Compliance
3 de setembro de 2026 18H00
A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

Camila Nicolau - Advogada especialista em Direito Empresarial e Contratual

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Marketing & growth
3 de setembro de 2026 14H00
Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.

Claudia Schulz - CEO da ABStartups

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
3 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a pergunta mais importante já não é qual solução de IA adotar, mas quem está definindo os limites, os objetivos e as regras de uso dessa tecnologia dentro da organização.

Erick Rezende - Diretor de Delivery na Cognitivo AI

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
2 de setembro de 2026 14H00
À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services

6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Marketing & growth
2 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Bruno Almeida - CEO da US Media

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 15H00
Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução