Durante anos, pequenas e médias empresas brasileiras operaram em um ambiente relativamente previsível. O sistema tributário, ainda que complexo, era conhecido. Os modelos de precificação permaneciam estáveis por longos períodos. O acesso ao crédito funcionava, muitas vezes, como um amortecedor para decisões imperfeitas. Esse cenário, no entanto, está mudando, e 2026 tende a consolidar uma nova realidade.
A combinação entre a transição da reforma tributária, a manutenção da taxa Selic em patamares elevados nos últimos anos e um ambiente competitivo mais transparente cria um ponto de inflexão para as PMEs. Nesse novo contexto, decisões que antes eram tratadas como operacionais, especialmente as relacionadas a preços, passam a ter impacto direto na continuidade do negócio.
Quando o preço não reflete corretamente os custos e os tributos, o descompasso aparece no fluxo de caixa. Às vezes demora alguns meses, mas aparece. E quando surge, geralmente já não há tempo para correções graduais. Empresas não quebram no faturamento. Quebram no caixa.
Em 2026, esse risco tende a se intensificar.
A reforma tributária e o impacto direto na formação de preços
A transição para o novo modelo tributário brasileiro, com a introdução da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), não é apenas um tema técnico ou fiscal. Ela muda a lógica de formação de preços, afeta a estrutura de custos e altera a forma como as empresas precisam planejar seus resultados. Durante o período de transição, a convivência entre sistemas, as incertezas sobre alíquotas efetivas e os impactos distintos por setor e região exigirão das PMEs algo que, historicamente, não fez parte de sua rotina: antecipar cenários antes de definir preços.
Formar preços ignorando esse contexto significa assumir riscos que não aparecem imediatamente nas vendas, mas que comprometem o caixa no médio prazo.
Pricing no centro da gestão
Em 2026, não fará mais sentido tratar Pricing como um tema apenas operacional ou restrito à esfera comercial. O novo contexto econômico exige que fundadores, empreendedores e líderes de pequenas e médias empresas tragam o preço para o centro das discussões estratégicas.
Não se trata de sofisticação excessiva, nem de replicar modelos de grandes corporações. Trata-se de reconhecer que, em um ambiente mais regulado e menos tolerante a erros, decisões de preço passam a definir a saúde financeira do negócio.
Em um cenário de transição econômica e fiscal, decisões pontuais e desconectadas tendem a gerar incoerência, ruído interno e risco financeiro. O preço não pode mais ser uma resposta reativa a pressões comerciais ou a movimentos pontuais de mercado. Ele precisa ser tratado como um instrumento de previsibilidade financeira.
Para cumprir esse papel ampliado, Pricing precisa de governança. Não no sentido de burocracia, mas de disciplina. Governança de preços significa estabelecer critérios claros para formação e revisão de preços, definir regras transparentes para concessão de descontos e construir coerência comercial, alinhamento financeiro, conformidade fiscal e compreensão clara dos impactos das decisões no fluxo de caixa.
Um preço bem estruturado garante previsibilidade e reduz volatilidade. Nesse sentido, preço bem formado compra sustentabilidade do negócio, porém, preço mal-formado acelera problemas.
Pricing precisa, literalmente, entrar na sala onde se discutem estratégia, investimentos, crescimento e continuidade.
O desafio real das PMEs em 2026
O verdadeiro desafio das pequenas e médias empresas brasileiras em 2026 não será a falta de oportunidades, será a capacidade de atravessar um cenário transitório, com novas camadas decisórias.
Compreender os impactos da transição tributária, buscar conhecimento em Pricing, e utilizar a tecnologia como apoio deixam de ser iniciativas desejáveis, tornam-se condições mínimas de sobrevivência.
Mais do que uma variável comercial, o preço passa a ocupar o centro das decisões de gestão. Ele se torna a tradução financeira do modelo de negócio, e o principal guardião do fluxo de caixa das PMEs.
Em 2026, sobreviver não será apenas sobre vender mais. Será entender o novo cenário e fazer do Pricing estratégico um instrumento de resiliência e sustentabilidade frente às novas realidades fiscais e econômicas do Brasil.




