Sustentabilidade

O desafio sustentável é uma GUERRA

Para a especialista em estratégias sustentáveis Rebecca Henderson, de Harvard, se os problemas socioambientais forem tratados como um inimigo comum, isso levará as empresas à inovação conjunta

Compartilhar:

**SAIBA MAIS SOBRE** **REBECCA HENDERSON**

**Quem é:** professora da Harvard Business School, de administração geral, de estratégia e do curso “Reimagining Capitalism” (MBA); foi professora do MIT entre 1998 e 2009, nas áreas de estratégia, tecnologia e sustentabilidade. 

**Ativismo:** é codiretora da Business and Environment Initiative, de Harvard. 

**Livro:** é coautora de Leading Sustainable Change, com Ranjay Gulati e Michael Tushman. 

Rebecca Henderson não doura a pílula, como muitos de seus colegas têm feito: segundo ela, nem sempre investir em sustentabilidade dá lucro. No entanto, não é possível mais pensar só em resultados. Isso porque a mudança de paradigma já se tornou uma questão de sobrevivência da espécie. 

Faz mais de 20 anos que a professora e pesquisadora da Harvard Business School questiona o management convencional. “Gestão tem a ver com lidar com pessoas, só que muita gente vinda das áreas de economia e exatas não entende isso. Os modelos preferidos, como o de Singapura, podem ter ótimos resultados econômicos, mas ignoram o fato de que a confiança social está em colapso e há pouca criatividade, o que não é sustentável. Além disso, não seremos capazes de solucionar os problemas que enfrentamos hoje só com tecnologia, como um número crescente de executivos acredita”, afirmou em entrevista exclusiva concedida durante a HSM Expo 2016. A seguir, Henderson discute um novo modelo de estratégia corporativa, que proporcione criatividade, sustentabilidade e, acima de tudo, sobrevivência. 

**A sra. defende que as empresas persigam um propósito independente dos resultados. Como elas podem fazer isso?** 

Não podem; empresas precisam gerar bons resultados econômicos; não são ONGs. Ser uma empresa com propósito é ter um negócio que gere influência positiva além de suas fronteiras. É fazer a diferença sempre que puder e até usar essa diferença para ampliar o negócio se isso for viável. Eu nunca disse para as empresas não serem competitivas. O que eu defendo são duas coisas: 

• A primeira é que a competição deve obedecer a regras; não usar mão de obra infantil e não dar propinas são exemplos – embora gerem benefícios, não são coisas aceitáveis. 

• A segunda é que as empresas encontrem formas de criar valor social. 

**Empresas de um país em recessão, como o Brasil, podem fazer essa diferença também?** 

É paradoxal, mas sim: às vezes, ter menos dinheiro pode ser útil. Se vamos criar modelos de negócio mais sustentáveis e lucrativos, precisaremos de criatividade, teremos de pensar nos problemas de maneiras diferentes. Uma forma de entender isso é comparar grandes empresas bem-sucedidas comstartups. Quando surge uma empresa nova, ela precisa usar os recursos de modo mais eficiente e mudar a direção, não é? 

É fundamental entender isto: ser sustentável é ser eficiente, é usar os recursos – energia elétrica, água, matérias-primas – de maneira mais eficaz. 

O contexto de uma recessão pode ser uma ótima oportunidade para repensar isso detalhadamente. Conheço várias empresas que usam os recursos de maneira mais eficaz, o que lhes gera maior lucratividade. 

Porém elas não são muitas, porque todo mundo está ocupado com outras coisas, perdendo oportunidades de se diferenciar de seus concorrentes, porque temos o início de uma pressão dos consumidores no sentido de produtos e serviços que contemplem as preocupações sociais e ambientais. 

**Temos mesmo? No Brasil os consumidores não se mobilizam muito…**

Temos, sim, e essa pressão vai se acelerar. Talvez os consumidores estejam mais dispostos a pagar mais por produtos e serviços sustentáveis, talvez não, porém a hostilidade com que eles tratam quem não se importa com sustentabilidade vai aumentar. 

Uma coisa é uma empresa bem-sucedida mostrando que não se importa com o meio ambiente em um lugar bem resolvido. Outra coisa é uma empresa bem-sucedida que atua em lugares que não têm água tratada ou que possui ambientes de trabalho insalubres. Os consumidores simplesmente não vão querer ter uma relação com a empresa quando acham que ela está contribuindo para que existam esses problemas. 

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/056f2505-457d-490c-b4f3-9d422357f6e1.jpeg)

**Quando as organizações pesam custos e benefícios de ser sustentáveis na balança, o prato dos benefícios parece mais leve…**

O problema é elas pensarem que a sustentabilidade é cara, leva tempo e é difícil. Não tem de ser assim. Há pelo menos um tipo de benefício que muitas se esquecem de pôr na balança: a alegria dos colaboradores quando trabalham para fazer a diferença socioambientalmente, e não só para deixar os acionistas mais ricos. 

**Causas realmente motivam funcionários?**

Sim! É gritante a diferença entre pequenas empresas empreendedoras, nas quais as pessoas passam 12 horas por dia tentando fazer aquilo em que acreditam, e grandes empresas, aonde o funcionário só vai porque precisa. 

Se as grandes e médias empresas pudessem ter esse grau de paixão e comprometimento de seu pessoal, seu desempenho econômico seria outro – e o planeta encontraria os recursos de que precisa para se salvar. 

Imagine isso se espalhando por todo o ecossistema das grandes empresas, sua cadeia de fornecimento e seus parceiros… Muitas dessas oportunidades de negócios vêm da cadeia de fornecimento e de ouvir o que o consumidor quer, em vez de fazer o que se acha que ele quer. E isso vale para as oportunidades de ser mais sustentável também. 

**Há muito medo de os empregos evaporarem, seja com a tecnologia, seja com a redução da produção e do consumo em prol da preservação ambiental. Como isso pode entrar nas contas?**

Estou convencida de que não precisamos optar entre meio ambiente e emprego; podemos fazer os dois. É melhor ter esperanças, tentar algo novo e ver no que isso vai dar do que nos fechar, não é? 

A principal pergunta talvez seja: como mudamos esse cenário de medo para um cenário de esperança? E ela pode ser refeita da seguinte maneira: como saímos de uma situação em que só pensamos em nós mesmos para outra em que agimos como comunidade? Não é fácil, mas isso já aconteceu antes na história da humanidade, após a Segunda Guerra Mundial. 

**É hora de ir para o front?** 

Sim. Acho que todos nós precisamos enxergar os problemas ambientais como uma guerra. Você sabia que as guerras são grandes fontes de crescimento econômico e geração de empregos? O ideal seria entender o problema assim e mobilizar o mundo nesse sentido. Nós nos esquecemos do poder da vida em comunidade e da mobilização coletiva, que é o que acontece nas guerras. A dificuldade é que as guerras são incitadas pelo ódio, e precisamos fazer uma incitada pelo amor. 

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/b93dd143-7f33-4bbe-85da-7bebd56323e5.jpeg)

**O desafio das empresas de todos os portes**

Como as empresas podem fazer a diferença em prol da sustentabilidade sem se transformar em organizações sem fins lucrativos? Segundo a professora Rebecca Henderson, da Harvard Business School, parte da resposta é submeter as principais decisões estratégicas a uma matriz que cruza tempo e pessoas, para criar valor social:

 • Em quanto tempo virão os benefícios – agora ou mais tarde?

 • Quem será beneficiado – eu ou nós? 

Hoje as decisões se concentram no quadrante que reúne “eu + agora”. Conforme Henderson, os gestores precisam fazer com que essas decisões migrem, cada vez mais, para quadrantes que envolvam “nós” e “mais tarde”, colocando a maior parte possível delas no quadrante que soma “nós + mais tarde”. A outra parte é obedecer a regras para competir, seguindo o lema “gerar lucro decente de maneira decente”. 

Quando grandes empresas fazem isso, o impacto costuma ser muito grande. Entre os exemplos estão Unilever, em nível mundial, e o Grupo Boticário, no Brasil. A Unilever colocou a responsabilidade socioambiental no centro de sua estratégia e de suas práticas de negócios, tendo feito a transição entre o velho estilo de marketing e ações concretas que fazem a diferença para o meio ambiente e as comunidades. Da mesma forma, o Grupo Boticário incluiu a sustentabilidade em toda a sua cadeia de valor: para não testar cosméticos em animais, desenvolveu uma pele 3D; com uma nova tecnologia usada na produção de cremes e loções hidratantes, reduziu 70% do consumo de energia elétrica; tem centro de distribuição e lojas com certificação Leed. 

E as empresas menores? Henderson também diz que elas impactam a sustentabilidade principalmente ao criarem tantos empregos. “Ter um emprego está entre as três mais importantes fontes de felicidade das pessoas, e esses microempreendimentos são vitais na criação de empregos.” 

Quando pensamos na necessidade de investir em novas matrizes energéticas ou no problema da limitação da água, são investimentos enormes, que assustam qualquer um. Só que são investimentos-chave para o futuro, que podem gerar empregos e, consequentemente, os tão necessários consumidores com poder de compra. 

Essa é a transição que precisamos fazer, capaz de realmente gerar um boom mundial em vez do colapso que vem desse tipo de economia de deflação baseada no medo. 

**Isso requer mudar o pensamento-base do capitalismo: a competição. Ou não?**

Realmente estamos acostumados a pensar nas empresas apenas como competitivas, mas isso não é verdade, porque a competição sempre existe dentro de um cenário determinado. 

Pense em um jogo de futebol. Joga-se para vencer, mas em equipe e com regras. Se você quebra as regras, não é mais um jogo, e você destrói o futebol. 

O mesmo acontece com as empresas. Se elas começam a competir de qualquer jeito, destroem as estruturas que lhes permitem ser boas organiza ções e acabam destruindo a sociedade de que fazem parte. 

Em outras palavras, a competição é uma fonte enorme de inovação e crescimento, mas, se ela se descontrola, vira um câncer. O que perdemos nos últimos anos foi a noção desse equilíbrio, pensando só em resultados – falta as pessoas estudarem história, filosofia e sociologia para entender que não é possível pensar só em resultados. 

Os seres humanos são capazes de promover o reequilíbrio: são muito egoístas e competitivos, mas, também, imensamente amáveis e querem fazer parte de grupos – tanto a família como a comunidade e o país. 

Nos EUA, muitas empresas estão brigando umas com as outras em vez de inovarem. Mas, não à toa, já há companhias juntando forças com rivais para resolver problemas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando a geopolítica entra pela porta da empresa

Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

O mito da falta de qualificação das pessoas com deficiência

Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

O tempo que doamos é o futuro que aceleramos

O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

O cliente ainda precisa de vendedores?

A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Inovação & estratégia
18 de julho de 2026 07H00
Enquanto a maioria das empresas não pode se dar ao luxo de substituir sistemas críticos da noite para o dia, startups vêm assumindo um papel estratégico na construção de uma transformação tecnológica mais rápida, modular e segura.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI e líder do TQI Ventures

3 minutos min de leitura
Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de julho de 2026 13H00
Ferramentas de IA já produzem textos, avaliações, vídeos e conteúdos em segundos. Mas a transformação mais importante talvez não esteja na velocidade da produção, e sim na capacidade de redesenhar experiências de aprendizagem que desenvolvam pensamento crítico, prática, feedback e autonomia humana.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
17 de julho de 2026 08H00
A sensação constante de apagar incêndios não é apenas um problema de produtividade. Este artigo mostra por que organização, gestão da agenda e definição de limites são competências essenciais para preservar desempenho, reduzir o esgotamento e recuperar o controle sobre a própria rotina profissional.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
16 de julho de 2026 14H00
Copa do Mundo, Olimpíadas, Super Bowl ou Black Friday: toda vez que a atenção coletiva se concentra em um grande evento, o mercado de mídia muda de comportamento. Entender esse movimento pode ser a diferença entre capturar demanda reprimida ou pagar, mais uma vez, o preço do improviso.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de julho de 2026 08H00
Robôs humanoides deixaram de ser protótipo e entraram em produção comercial em série. Enquanto conselhos ainda debatem a IA generativa, a automação física avança sem esperar. O atraso não aparece no balanço, mas se acumula como dívida de reação.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Empreendedorismo
15 de julho de 2026 15H00
Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

Sandra Regina da Silva - Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios

12 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth, User Experience, UX
15 de julho de 2026 08H00
Enquanto a IA assume processos, diagnósticos e tarefas repetitivas, cresce a importância de competências exclusivamente humanas. O desafio das lideranças não é automatizar mais, mas decidir onde a presença humana gera valor que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
14 de julho de 2026 18H00
Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

16 minutos min de leitura
Lifelong learning, Estratégia, Marketing & growth
14 de julho de 2026 14H00
Este artigo mostra como os eventos corporativos se tornaram ambientes estratégicos de inteligência coletiva, capazes de ampliar repertório, antecipar tendências e reduzir incertezas para líderes e organizações.

Sidnei Metzner - Gestor nacional de vendas da WK

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
14 de julho de 2026 08H00
Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo