Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
5 minutos min de leitura

O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita - sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é
CTO do Lance! e executivo de tecnologia com mais de 30 anos de experiência atuando no setor de Telecom, Mídia, Entretenimento, Consultoria e Educação. Marcos é formado em Engenharia Elétrica com ênfase em Sistemas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC).

Compartilhar:

Quem não se lembra daquela imagem de um treinador de futebol anotando tudo em uma prancheta para conversar com os seus atletas no intervalo de um jogo difícil? Essa imagem é bem clássica e pra nós brasileiros vem logo um nome à mente.

Agora imagina a cena ao contrário. O mesmo intervalo, a mesma pressão, o mesmo cheiro de grama molhada e adrenalina no ar. Mas em vez da prancheta, um tablet. Na tela: a distância percorrida por cada jogador, a frequência cardíaca em tempo real, os padrões táticos do adversário identificados por algoritmos que assistiram aos últimos dez jogos da equipe. O técnico não está mais chutando – ele está decidindo com dados.

Isso não é ficção científica. Está acontecendo agora, nos maiores clubes do mundo. E está chegando cada vez mais perto de todos nós.

Mas afinal – o que é tecnologia no esporte? Equipamento? Dado? Ou algo muito mais profundo?

De Fidípides ao algoritmo: a história que ninguém conta

No início, lá na Grécia antiga onde ouvimos falar do esporte pela primeira vez, a tecnologia era o próprio atleta. O corpo humano era a máquina. E que máquina.

O exemplo mais radical disso é o soldado Fidípides, que em 490 a.C. correu cerca de 40km da Batalha de Maratona até Atenas para anunciar a vitória grega. Avisou. E caiu morto, exausto. Nenhum suplemento, nenhum sensor, nenhuma análise de fadiga muscular. Só o limite humano sendo testado em tempo real. Essa é a era que chamo de Esporte 1.0 – onde o atleta era, ele mesmo, a única tecnologia disponível.

O salto para o Esporte 2.0 foi silencioso, mas brutal. Com o avanço da ciência, a medicina esportiva, a nutrição, a fisioterapia, a psicologia e a biomecânica entraram em campo. E aqui está algo que pouca gente para pra pensar: tudo isso também é tecnologia. Não é uma máquina, não tem tela, não pisca – mas é tecnologia aplicada ao corpo e à mente humana. Foi nessa fase que os atletas começaram a parecer de outro planeta. Não por acaso: eles tinham ciência trabalhando por eles.

Mas ainda faltava alguma coisa.

Entrar o Esporte 3.0 – e é aqui que o jogo muda de vez. Os dados redefinem os limites dos atletas e dos esportes em geral. Sensores em coletes, chuteiras, bolas. Câmeras que rastreiam cada movimento. Algoritmos de inteligência artificial que processam tudo isso em milissegundos e entregam insights que nenhum olho humano conseguiria capturar sozinho. É o encontro definitivo entre a ciência e os dados. E não tem volta.

A tecnologia esportiva não é um bloco monolítico. Ela se organiza em quatro grandes frentes, e o mais interessante é que cada uma delas responde a perguntas que qualquer torcedor já teve.

Por que meu clube parece me conhecer melhor do que meus amigos?

Porque ele provavelmente te conhece mesmo. O uso intenso de dados ajuda as entidades esportivas a entenderem profundamente quem são seus torcedores – o que assistem, quando compram ingresso, o que consomem, como reagem a cada resultado. Essa área eu chamo de Fan Engagement, e ela transformou a relação entre clube e torcedor de uma via de mão única para uma conversa contínua.

Um caso que me chama atenção é o do Seattle Sounders, da MLS. Quem compra o passaporte de todos os jogos da temporada concorre a uma cadeira no Conselho do clube – com voz real nas decisões. Não é simbólico. É democracia esportiva com tecnologia como viabilizadora. O torcedor deixa de ser espectador e passa a ser protagonista.

Como os atletas estão ficando cada vez mais impossíveis?

Porque eles têm ciência e dados trabalhando por eles 24 horas por dia. A busca pela excelência atlética encontrou na tecnologia sua maior aliada. Maximizar o potencial de um atleta hoje vai muito além do treinamento tradicional – envolve wearables que monitoram frequência cardíaca, sono e recuperação em tempo real, algoritmos que identificam padrões de lesão antes que ela aconteça, e visão computacional que analisa cada movimento em campo com uma precisão impossível para o olho humano.

O Manchester City, por exemplo, usa IA para análise tática coletiva, planejamento de jogo e desenvolvimento individual de jogadores. Prevenção de lesões, otimização de treinos, análise do adversário – tudo isso vira dado, e dado vira decisão.

Mas tem um detalhe que aprendi na prática: de nada adianta ter a melhor tecnologia do mundo se o técnico não confia nos números. A cultura data-driven precisa ser construída junto com os sistemas. Tecnologia sem adoção é só custo.

Existe dinheiro que o esporte ainda não descobriu?

No Brasil, com certeza. E o número é constrangedor.

Dados de receita dos clubes de futebol em 2025 mostram isso: o Flamengo maior receita do Brasil, faturou em torno de 230 milhões de dólares. Já o Manchester City, no mesmo período, faturou 666 milhões. Estamos deixando dinheiro na mesa? Evidentemente.

O modelo econômico tradicional do esporte – ingressos, direitos de TV e patrocínio – está sendo revolucionado por tecnologias emergentes como Blockchain e fan tokens (o PSG gerou cerca de 30 milhões de euros com o token $PSG).

Criatividade e tecnologia se encontram aqui para gerar valor onde antes não existia nada. Esse é o quarto pilar: novas fontes de receita.

A boa notícia é que a lacuna é uma oportunidade. Os clubes brasileiros têm bases de torcedores gigantescas, paixão sem paralelo e uma capacidade criativa que o mundo inteiro reconhece. Falta conectar isso com as ferramentas certas.

O vestiário do futuro

Voltemos àquele intervalo. O técnico ainda está lá, ainda sente a pressão, ainda precisa motivar onze pessoas exaustas em quinze minutos. A emoção não mudou. O que mudou é que agora ele tem mais informação, mais clareza, mais capacidade de tomar a decisão certa no momento certo.

A tecnologia no esporte não substitui a emoção humana. Ela a amplifica.

E nós, nas nossas casas, também somos parte disso. Aquela conversa de botequim onde um amigo solta uma opinião do nada pode ser questionada com dados reais do jogo. A discussão ainda acontece – mas agora tem mais substância. No esporte, como na tecnologia, vence quem adapta mais rápido. A agilidade é mais valiosa que a perfeição.

O jogo começou. E está mais interessante do que nunca.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Administrar um restaurante e uma multinacional é mais parecido do que parece

Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional – planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente – são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

O engajamento não nasce das pessoas. Nasce do ambiente.

Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Aprendi que até no Japão as mulheres conseguem quebrar regras

Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Estratégia
27 de junho de 2026 15H00
Mais do que acumular experiências, este artigo propõe uma mudança na forma de pensar carreira, apoiando-se em conceitos como “capital profissional” (composto de cinco capitais) e “professional equity”

Nathália Brandão - Head de Educação Corporativa no TikTok LATAM, Escritora e Forbes Under 30

5 minutos min de leitura
Liderança
27 de junho de 2026 08H00
Na estreia da coluna do Grupo Mulheres do Brasil, este artigo mostra que a liderança do futuro não será construída por decisões individuais, mas pela capacidade de mobilizar diversidade, escuta e inteligência coletiva para enfrentar desafios que já não cabem em uma única visão.

Andrea Gasques - Diretora de Comunicação do Grupo Mulheres do Brasil

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de junho de 2026 14H00
Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

Janaina Calazans - Gerente de Ensino Superior da CESAR School

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de junho de 2026 08H00
Este artigo revela por que o verdadeiro desafio da IA não é adoção, mas uso intencional, capaz de ampliar o pensamento, e não substituí-lo.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de recursos
25 de junho de 2026 15H00
A teoria dos jogos expõe o erro estrutural por trás do modelo reativo que consome bilhões sem gerar resultados proporcionais. Este artigo mostra que não falta dinheiro na saúde, falta estratégia para usar.

Dr. Jorge Luiz Andrade - Anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
25 de junho de 2026 08H00
Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de junho de 2026 15H00
Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo, professor de MBA na USP/ESALQ e FIAP, palestrante e especialista em Inteligência Artificial, Transformação Digital e Produtos Digitais

9 minutos min de leitura
Liderança
24 de junho de 2026 08H00
Este artigo propõe um deslocamento essencial: mais do que acumular informação, a liderança precisa desenvolver discernimento - a capacidade de interpretar com clareza quando a pressão empurra para decisões automáticas.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Liderança
23 de junho de 2026 14H00
Uma meta mal definida não impulsiona, trava. Este artigo revela como metas mal calibradas podem desconectar equipes e comprometer resultados, mostrando que o verdadeiro desafio da liderança está em equilibrar ambição e viabilidade para sustentar desempenho ao longo do tempo.

Denise Joaquim Marques -Consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
23 de junho de 2026 08H00
Em organizações que cobram inovação, mas penalizam o erro, este artigo revela um paradoxo central: sem espaço para frustração e aprendizado, equipes deixam de evoluir, e a transformação que se busca nunca acontece de fato.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo