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O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita - sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é
CTO do Lance! e executivo de tecnologia com mais de 30 anos de experiência atuando no setor de Telecom, Mídia, Entretenimento, Consultoria e Educação. Marcos é formado em Engenharia Elétrica com ênfase em Sistemas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC).

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Quem não se lembra daquela imagem de um treinador de futebol anotando tudo em uma prancheta para conversar com os seus atletas no intervalo de um jogo difícil? Essa imagem é bem clássica e pra nós brasileiros vem logo um nome à mente.

Agora imagina a cena ao contrário. O mesmo intervalo, a mesma pressão, o mesmo cheiro de grama molhada e adrenalina no ar. Mas em vez da prancheta, um tablet. Na tela: a distância percorrida por cada jogador, a frequência cardíaca em tempo real, os padrões táticos do adversário identificados por algoritmos que assistiram aos últimos dez jogos da equipe. O técnico não está mais chutando – ele está decidindo com dados.

Isso não é ficção científica. Está acontecendo agora, nos maiores clubes do mundo. E está chegando cada vez mais perto de todos nós.

Mas afinal – o que é tecnologia no esporte? Equipamento? Dado? Ou algo muito mais profundo?

De Fidípides ao algoritmo: a história que ninguém conta

No início, lá na Grécia antiga onde ouvimos falar do esporte pela primeira vez, a tecnologia era o próprio atleta. O corpo humano era a máquina. E que máquina.

O exemplo mais radical disso é o soldado Fidípides, que em 490 a.C. correu cerca de 40km da Batalha de Maratona até Atenas para anunciar a vitória grega. Avisou. E caiu morto, exausto. Nenhum suplemento, nenhum sensor, nenhuma análise de fadiga muscular. Só o limite humano sendo testado em tempo real. Essa é a era que chamo de Esporte 1.0 – onde o atleta era, ele mesmo, a única tecnologia disponível.

O salto para o Esporte 2.0 foi silencioso, mas brutal. Com o avanço da ciência, a medicina esportiva, a nutrição, a fisioterapia, a psicologia e a biomecânica entraram em campo. E aqui está algo que pouca gente para pra pensar: tudo isso também é tecnologia. Não é uma máquina, não tem tela, não pisca – mas é tecnologia aplicada ao corpo e à mente humana. Foi nessa fase que os atletas começaram a parecer de outro planeta. Não por acaso: eles tinham ciência trabalhando por eles.

Mas ainda faltava alguma coisa.

Entrar o Esporte 3.0 – e é aqui que o jogo muda de vez. Os dados redefinem os limites dos atletas e dos esportes em geral. Sensores em coletes, chuteiras, bolas. Câmeras que rastreiam cada movimento. Algoritmos de inteligência artificial que processam tudo isso em milissegundos e entregam insights que nenhum olho humano conseguiria capturar sozinho. É o encontro definitivo entre a ciência e os dados. E não tem volta.

A tecnologia esportiva não é um bloco monolítico. Ela se organiza em quatro grandes frentes, e o mais interessante é que cada uma delas responde a perguntas que qualquer torcedor já teve.

Por que meu clube parece me conhecer melhor do que meus amigos?

Porque ele provavelmente te conhece mesmo. O uso intenso de dados ajuda as entidades esportivas a entenderem profundamente quem são seus torcedores – o que assistem, quando compram ingresso, o que consomem, como reagem a cada resultado. Essa área eu chamo de Fan Engagement, e ela transformou a relação entre clube e torcedor de uma via de mão única para uma conversa contínua.

Um caso que me chama atenção é o do Seattle Sounders, da MLS. Quem compra o passaporte de todos os jogos da temporada concorre a uma cadeira no Conselho do clube – com voz real nas decisões. Não é simbólico. É democracia esportiva com tecnologia como viabilizadora. O torcedor deixa de ser espectador e passa a ser protagonista.

Como os atletas estão ficando cada vez mais impossíveis?

Porque eles têm ciência e dados trabalhando por eles 24 horas por dia. A busca pela excelência atlética encontrou na tecnologia sua maior aliada. Maximizar o potencial de um atleta hoje vai muito além do treinamento tradicional – envolve wearables que monitoram frequência cardíaca, sono e recuperação em tempo real, algoritmos que identificam padrões de lesão antes que ela aconteça, e visão computacional que analisa cada movimento em campo com uma precisão impossível para o olho humano.

O Manchester City, por exemplo, usa IA para análise tática coletiva, planejamento de jogo e desenvolvimento individual de jogadores. Prevenção de lesões, otimização de treinos, análise do adversário – tudo isso vira dado, e dado vira decisão.

Mas tem um detalhe que aprendi na prática: de nada adianta ter a melhor tecnologia do mundo se o técnico não confia nos números. A cultura data-driven precisa ser construída junto com os sistemas. Tecnologia sem adoção é só custo.

Existe dinheiro que o esporte ainda não descobriu?

No Brasil, com certeza. E o número é constrangedor.

Dados de receita dos clubes de futebol em 2025 mostram isso: o Flamengo maior receita do Brasil, faturou em torno de 230 milhões de dólares. Já o Manchester City, no mesmo período, faturou 666 milhões. Estamos deixando dinheiro na mesa? Evidentemente.

O modelo econômico tradicional do esporte – ingressos, direitos de TV e patrocínio – está sendo revolucionado por tecnologias emergentes como Blockchain e fan tokens (o PSG gerou cerca de 30 milhões de euros com o token $PSG).

Criatividade e tecnologia se encontram aqui para gerar valor onde antes não existia nada. Esse é o quarto pilar: novas fontes de receita.

A boa notícia é que a lacuna é uma oportunidade. Os clubes brasileiros têm bases de torcedores gigantescas, paixão sem paralelo e uma capacidade criativa que o mundo inteiro reconhece. Falta conectar isso com as ferramentas certas.

O vestiário do futuro

Voltemos àquele intervalo. O técnico ainda está lá, ainda sente a pressão, ainda precisa motivar onze pessoas exaustas em quinze minutos. A emoção não mudou. O que mudou é que agora ele tem mais informação, mais clareza, mais capacidade de tomar a decisão certa no momento certo.

A tecnologia no esporte não substitui a emoção humana. Ela a amplifica.

E nós, nas nossas casas, também somos parte disso. Aquela conversa de botequim onde um amigo solta uma opinião do nada pode ser questionada com dados reais do jogo. A discussão ainda acontece – mas agora tem mais substância. No esporte, como na tecnologia, vence quem adapta mais rápido. A agilidade é mais valiosa que a perfeição.

O jogo começou. E está mais interessante do que nunca.

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